24 Novembro, 2009
circunstância
Há lodo e poesia nos meus devaneios. A minha imaginação sem fundamento, vã e incoerente, me põe de pé nos dias todos. Nas noites, mesmo acordada, entrego-me às impressões de minha alma. Deixo-me por instantes. E quando volto, desvaneço depressa, pois sou caminhante transitória neste mundo, passante a vida de idéias e amores e abrigos ilusórios. Sou mera circunstância, sem motivo de ser. Aqui aconteço.
No baú:
vida
11 Novembro, 2009
apagão
Apagões podem ser muito produtivos. Pela casa ressoavam os belos sons do velho piano de minha mãe. Ela empolgada em recuperar seus repertórios de memória, e eu ninando criança e cachorro com vocalises improvisadas. Para os vizinhos, funcionou como berceuse para dormir cedo, aproveitando o ensejo da escuridão. Ainda bem que piano e voz não necessitam de luz elétrica pra funcionar. A luz que eles necessitam é outra.
30 Outubro, 2009
passageiro
Passa depressa, não...
o local que tu transita muda a gente.
Quero dizer, mudei eu. Sim.
Não tudo, porque não dá, né?
Mas mexeu, assim,
que nem furacão que passa na cidade.
Não devastação. Tou falando errado. Peraí.
Já sei! tipo terremoto.
Tremeu tudo aqui dentro.
Dizem que o que é bom dura pouco, mas não na cabeça,
essa dona de casa que manda e desmanda
no que a gente sente.
Não passa, não, vai. Fica aqui.
Eu sei pouco da vida, eu sei.
Ela também passa depressa, não é?
Só um pouquinho que seja, então.
Senta aqui do meu lado. Me dá a mão?
Não passa depressa, não...
o local que tu transita muda a gente.
Quero dizer, mudei eu. Sim.
Não tudo, porque não dá, né?
Mas mexeu, assim,
que nem furacão que passa na cidade.
Não devastação. Tou falando errado. Peraí.
Já sei! tipo terremoto.
Tremeu tudo aqui dentro.
Dizem que o que é bom dura pouco, mas não na cabeça,
essa dona de casa que manda e desmanda
no que a gente sente.
Não passa, não, vai. Fica aqui.
Eu sei pouco da vida, eu sei.
Ela também passa depressa, não é?
Só um pouquinho que seja, então.
Senta aqui do meu lado. Me dá a mão?
Não passa depressa, não...
No baú:
l´amour...
janelas
Acho lindo o modo como fecha as janelas. O corpo nu recostado levemente à parede, as palmas abertas tocando o vidro, te imprimindo as digitais. O olhar perdido lá fora observando a luz negra da noite e o movimento da cidade. O respiro profundo e denso entre as cortinas.
Acho lindo o modo como fecha as janelas. O jeito que recosta a cabeça no travesseiro em doce cansaço. Da forma que me fitas carinhosamente. Como cerra os olhos à espera do dia amanhecer.
Acho lindo o modo como fecha as janelas.
Acho lindo o modo como fecha as janelas. O jeito que recosta a cabeça no travesseiro em doce cansaço. Da forma que me fitas carinhosamente. Como cerra os olhos à espera do dia amanhecer.
Acho lindo o modo como fecha as janelas.
No baú:
l´amour...
21 Outubro, 2009
(m)eu-poema
Queria ganhar um poema que dissesse algo sobre mim...
um poeminho análise.
Sem julgamentos.
Um poeminha injusto e indiferente
mas que diga de fora aquilo que não posso ver.
Pode ser um soneto,
ou um hai-kai...
denso e discreto,
discurso direto
ou indireto.
Entrelinhas são desnecessárias.
Que as sutilezas todas sejam entendidas.
Eu peço um poema pra mim.
Mas o mundo é tão vasto e louco,
a vida tão séria e sem juízo,
o universo tão infinito e incompreensível.
Por que um poema pra mim?
Justo pra mim?
Olho tudo à volta e caio na real:
não mereço um poema.
Só os poemas que me merecem.
Reduzo-me à minha insignificância,
à minha invalidez dentro disso tudo,
a minha falta de talento de ser musa,
de ser obra terminada,
pois sou a ruína de um edifício em construção.
Eu-poema?
Acordo e dou por mim
nem receio mais quando me lembro
que palavras não fazem curva
quando bate o vento.
um poeminho análise.
Sem julgamentos.
Um poeminha injusto e indiferente
mas que diga de fora aquilo que não posso ver.
Pode ser um soneto,
ou um hai-kai...
denso e discreto,
discurso direto
ou indireto.
Entrelinhas são desnecessárias.
Que as sutilezas todas sejam entendidas.
Eu peço um poema pra mim.
Mas o mundo é tão vasto e louco,
a vida tão séria e sem juízo,
o universo tão infinito e incompreensível.
Por que um poema pra mim?
Justo pra mim?
Olho tudo à volta e caio na real:
não mereço um poema.
Só os poemas que me merecem.
Reduzo-me à minha insignificância,
à minha invalidez dentro disso tudo,
a minha falta de talento de ser musa,
de ser obra terminada,
pois sou a ruína de um edifício em construção.
Eu-poema?
Acordo e dou por mim
nem receio mais quando me lembro
que palavras não fazem curva
quando bate o vento.
do risco
No embate entre desejos e possibilidades, sigo tentando, muitas vezes errante... ainda assim, prefiro o risco e suas consequências à inércia que mata vagarosamente.
No baú:
essência,
l´amour...,
vida
dúvida
Pairam dúvidas em meu ar
e não respiro.
O coração põe-se a palpitar:
por que? por que? o quê? o quê?
Mil perguntas a pulsar.
Sou precipitada, um exagero de gente.
Chego a ser até caricata.
Mas pelo menos sou transparente...
Só que a transparência pode se confudir
com o invisível.
É aí onde morrerá meu medo,
quando terei tornado a mim
o intangível.
e não respiro.
O coração põe-se a palpitar:
por que? por que? o quê? o quê?
Mil perguntas a pulsar.
Sou precipitada, um exagero de gente.
Chego a ser até caricata.
Mas pelo menos sou transparente...
Só que a transparência pode se confudir
com o invisível.
É aí onde morrerá meu medo,
quando terei tornado a mim
o intangível.
No baú:
essência
25 Setembro, 2009
indivíduo
Caminhou vagarosamente embaraçado. Pela aparência poderiam até dizer que estava embriagado. Andava tonto, pendendo para os lados. Muitos olhos o olhavam de soslaio, com desdém. Quem seria este Zé Ninguém? Zé Ninguém tem nome próprio, teve família, teve história, mas nada disso interessaria a alguém. Poucos passos trôpegos entre os passantes e seus viços nas faces, fartura de carnes, Zé Ninguém parecia perdido entre verduras brilhantes. Pensava num pequeno milagre de ser invisível por alguns instantes. Indigente e invisível, o de costume, mas ali, naquele lugar, chamava atenção, uma atenção nojosa, enjoativa. Virou motivo de queixume. O homem-pêndulo carregando desespero por entre os rótulos gritantes das prateleiras. Antes que suas mãos carregassem qualquer força furtiva, caiu por entre os carrinhos. Chamaram a segurança, a guarda civil, a polícia militar. Burburinhos surgiram por todo o espaço. A gerência mandou remover logo, atrapalha as vendas. Um indíviduo solitário, julgado por sua falta de alma, falta de amor, falta de nome. Zé Ninguém era sim alguém... era apenas um homem com fome.
24 Setembro, 2009
prolixamente humana
Dei-me às verbosidades, o silêncio superado por superabundâncias, nada de discurso lacônico e conciso, vou-me às palavras, ando às favas excessivamente circunstanciada, não tenho freios pra dizer o que digo e falo até sem frases, não existem sílabas suficientes às minhas significações, são minhas várias vozes gritando por meus olhos, bocas nos meus poros, cordas vocais até orelhas, vocabulário, léxico, elucidário, urro libertário! Incisivas, confusas, imaginativas, inventadas, sofridas, embargadas, orgasmáticas palavras, as minhas, aquelas e estas que posso dizer sem nem dizer, sem bem dizer, pessoa desmedida, prolixamente humana pelo que me sobra, pelo que me basta ser, pelo que nada mais me resta fazer.
No baú:
palavras
22 Setembro, 2009
o apanhador de cascavéis
Sálvio Silva, temido apanhador de cascavéis, cansado de urubuzar a vida destes pobres crotalídeos, certo dia resolveu bandonear por outras ilhas, trocar sua função de vida, quão difícil era apanhar cascavéis, essas bichas venenosas, barulhentas e cruéis. Apesar de não temê-las, achava que sua missão de apanhador havia de se encerrar, uma vez em que a prefeitura logo lhe iria exonerar, haja visto o tamanho problema que Sálvio certa hora arrumou em sua cidade, quando resolveu apanhar misteriosamente a primeira-dama, dona Getulina, perigosa cascavel de vereda, que andou se engalfinhando às escuras com um tocador de pífanos, seo Deoclécio. Pega de surpresa em sua empreitada, dona Getulina gritou com tanta força, mas tanta força, que até os mortos pularam das catacumbas, os bichos fugiram do zoológico, os padres se renderam ao diabo e a pequena população de Boiúna correu mato adentro, acreditando que o apocalipse finalmente havia chegado.
Passado o tumulto, Sálvio Silva finalmente decidiu que não servia mais para a função de apanhador de cascavéis, fugiu com a roupa do corpo com medo de linchamento, instalou-se na cidade vizinha, agora com nova função, de apanhador de galinhas.
Passado o tumulto, Sálvio Silva finalmente decidiu que não servia mais para a função de apanhador de cascavéis, fugiu com a roupa do corpo com medo de linchamento, instalou-se na cidade vizinha, agora com nova função, de apanhador de galinhas.
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