Por que as pessoas se interessam tanto por mortes, desastres, desgraças? Será para alimentar mais o medo? Será para questionar algum vazio de existência (já que, para morrer, basta estar vivo)? Será pura e simples morbidez? Sadismo? A morte serve ao capitalismo: vende jornais, revistas, anúncios na televisão. A morte amortecendo as gentes.
(há beleza na morte ou morte na beleza?)
Se todo mundo pensasse seriamente no absurdo que é tudo isso de ser feito de carne, mas também olhar as estrelas, de ter um rosto, mas também ter aquele buraco fétido, se todo mundo tivesse o hábito de pensar, haveria mais piedade, mais solidariedade, mais compaixão e amor. Hilda Hilst
08 janeiro, 2010
04 janeiro, 2010
festejo
Com ar de festa desejo os sentimentos urgentes e seus momentos de pequeno alcance; a divindade das horas que despertam imagens apagadas; as considerações sobre a vida que ultrapassam palavras; as imprevisíveis liberdades conquistadas, irreparáveis e inconstantes; as simplicidades de uma consciência cintilante. Nosso devir de expressão, a nossa poética isolada contaminando a multidão.
25 dezembro, 2009
para ti
De olho no mar onde o sol aponta todas as manhãs, os azuis de água e céu e outras cores indescritíveis, celebramos as divindades da natureza, em completa congruência, porto de nossas almas. E brincamos na lama escura do mangue, rindo à boca larga das esperanças grandes, inocentes e felizes das crianças, o riso mais puro que se tem na vida. Abrigo, refúgio, descanso. O amor pulsante em cada grão de areia.
16 dezembro, 2009
da celebração da vida
Ela nos deixou esta madrugada. Nos deixou para dançar num jardim de anjos e flores e coração aberto para o mundo. Ela nos deixou e ficou também, refletida numa estrela, quem sabe, um ponto de luz. E eu, que nada sei sobre a morte, celebro com gratidão a vida, pois o que me resta, neste momento, é saber que ela virou poema, como fez de poema sua vida.
Para Madalena, pra sempre junto da gente.
Para Madalena, pra sempre junto da gente.
10 dezembro, 2009
da subjetividade do ser
Outro dia me olhei no espelho e questionei se aquilo que eu via era uma representação da minha mente, se era real ou um pensamento dominante. De tão volátil e efêmera, sem duração, me senti um personagem de ficção, uma idéia vã de uma imaginação sem fundamento. Respirei fundo, olhei de novo e só consegui chegar a uma única conclusão: eu sou um devaneio.
Depois daquele dia, nunca mais me vi.
Depois daquele dia, nunca mais me vi.
08 dezembro, 2009
paragem
Quero a próxima estada a beira-mar
- cura e repouso -
que os cantos urbanos inspiraram cansaço.
E se posso e passo, de mala em punho
pra uma paragem de céu e água,
o amor fazendo companhia,
flores na estrada,
desta vida quero eu mais nada...
Que tudo seja sonho e canção
e passarinhos pousando na janela...
- cura e repouso -
que os cantos urbanos inspiraram cansaço.
E se posso e passo, de mala em punho
pra uma paragem de céu e água,
o amor fazendo companhia,
flores na estrada,
desta vida quero eu mais nada...
Que tudo seja sonho e canção
e passarinhos pousando na janela...
07 dezembro, 2009
frustração
Tentei buscar o significado dos meus sentimentos no dicionário, mas só encontrei palavras sem sentido.
o difícil exercício da não compreensão
A alma às vezes dói e nem sempre é preciso entender por quê - deixe-a ali, esquecida e vazia como uma mariposa morta. Não compreender pode ser bonito, digno e pode poupar uma porção de inquietações, de dúvidas, de incertezas, as sofríveis perguntas sem respostas, a falha busca de conceitos vãos. Mas não compreender, para mim, é exercício difícil, é esforço homérico de abstração, e me parece muitas vezes que seja necessário o pensamento vago, a ausência de um sorriso ou uma lágrima, ou algo que me valha para não enlouquecer.
da emergência vital
Sentimentos maciços recaem sobre minha cabeça e não entram no vocabulário dos homens. Transmito meu entusiasmo de uma alma à outra por outra forma de comunicação; elas dão as mãos e se convidam: vamos tonificar a vida? Viver a experiência salutar da emergência, o pulo do impulso essencial, sendo assim, renovada, a vida se mostra por sua vivacidade quando tudo tornado poesia seja, dentro, fenômeno da nossa liberdade.
24 novembro, 2009
circunstância
Há lodo e poesia nos meus devaneios. A minha imaginação sem fundamento, vã e incoerente, me põe de pé nos dias todos. Nas noites, mesmo acordada, entrego-me às impressões de minha alma. Deixo-me por instantes. E quando volto, desvaneço depressa, pois sou caminhante transitória neste mundo, passante a vida de idéias e amores e abrigos ilusórios. Sou mera circunstância, sem motivo de ser. Aqui aconteço.
11 novembro, 2009
apagão
Apagões podem ser muito produtivos. Pela casa ressoavam os belos sons do velho piano de minha mãe. Ela empolgada em recuperar seus repertórios de memória, e eu ninando criança e cachorro com vocalises improvisadas. Para os vizinhos, funcionou como berceuse para dormir cedo, aproveitando o ensejo da escuridão. Ainda bem que piano e voz não necessitam de luz elétrica pra funcionar. A luz que eles necessitam é outra.
30 outubro, 2009
passageiro
Passa depressa, não...
o local que tu transita muda a gente.
Quero dizer, mudei eu. Sim.
Não tudo, porque não dá, né?
Mas mexeu, assim,
que nem furacão que passa na cidade.
Não devastação. Tou falando errado. Peraí.
Já sei! tipo terremoto.
Tremeu tudo aqui dentro.
Dizem que o que é bom dura pouco, mas não na cabeça,
essa dona de casa que manda e desmanda
no que a gente sente.
Não passa, não, vai. Fica aqui.
Eu sei pouco da vida, eu sei.
Ela também passa depressa, não é?
Só um pouquinho que seja, então.
Senta aqui do meu lado. Me dá a mão?
Não passa depressa, não...
o local que tu transita muda a gente.
Quero dizer, mudei eu. Sim.
Não tudo, porque não dá, né?
Mas mexeu, assim,
que nem furacão que passa na cidade.
Não devastação. Tou falando errado. Peraí.
Já sei! tipo terremoto.
Tremeu tudo aqui dentro.
Dizem que o que é bom dura pouco, mas não na cabeça,
essa dona de casa que manda e desmanda
no que a gente sente.
Não passa, não, vai. Fica aqui.
Eu sei pouco da vida, eu sei.
Ela também passa depressa, não é?
Só um pouquinho que seja, então.
Senta aqui do meu lado. Me dá a mão?
Não passa depressa, não...
janelas
Acho lindo o modo como fecha as janelas. O corpo nu recostado levemente à parede, as palmas abertas tocando o vidro, te imprimindo as digitais. O olhar perdido lá fora observando a luz negra da noite e o movimento da cidade. O respiro profundo e denso entre as cortinas.
Acho lindo o modo como fecha as janelas. O jeito que recosta a cabeça no travesseiro em doce cansaço. Da forma que me fitas carinhosamente. Como cerra os olhos à espera do dia amanhecer.
Acho lindo o modo como fecha as janelas.
Acho lindo o modo como fecha as janelas. O jeito que recosta a cabeça no travesseiro em doce cansaço. Da forma que me fitas carinhosamente. Como cerra os olhos à espera do dia amanhecer.
Acho lindo o modo como fecha as janelas.
21 outubro, 2009
(m)eu-poema
Queria ganhar um poema que dissesse algo sobre mim...
um poeminho análise.
Sem julgamentos.
Um poeminha injusto e indiferente
mas que diga de fora aquilo que não posso ver.
Pode ser um soneto,
ou um hai-kai...
denso e discreto,
discurso direto
ou indireto.
Entrelinhas são desnecessárias.
Que as sutilezas todas sejam entendidas.
Eu peço um poema pra mim.
Mas o mundo é tão vasto e louco,
a vida tão séria e sem juízo,
o universo tão infinito e incompreensível.
Por que um poema pra mim?
Justo pra mim?
Olho tudo à volta e caio na real:
não mereço um poema.
Só os poemas que me merecem.
Reduzo-me à minha insignificância,
à minha invalidez dentro disso tudo,
a minha falta de talento de ser musa,
de ser obra terminada,
pois sou a ruína de um edifício em construção.
Eu-poema?
Acordo e dou por mim
nem receio mais quando me lembro
que palavras não fazem curva
quando bate o vento.
um poeminho análise.
Sem julgamentos.
Um poeminha injusto e indiferente
mas que diga de fora aquilo que não posso ver.
Pode ser um soneto,
ou um hai-kai...
denso e discreto,
discurso direto
ou indireto.
Entrelinhas são desnecessárias.
Que as sutilezas todas sejam entendidas.
Eu peço um poema pra mim.
Mas o mundo é tão vasto e louco,
a vida tão séria e sem juízo,
o universo tão infinito e incompreensível.
Por que um poema pra mim?
Justo pra mim?
Olho tudo à volta e caio na real:
não mereço um poema.
Só os poemas que me merecem.
Reduzo-me à minha insignificância,
à minha invalidez dentro disso tudo,
a minha falta de talento de ser musa,
de ser obra terminada,
pois sou a ruína de um edifício em construção.
Eu-poema?
Acordo e dou por mim
nem receio mais quando me lembro
que palavras não fazem curva
quando bate o vento.
do risco
No embate entre desejos e possibilidades, sigo tentando, muitas vezes errante... ainda assim, prefiro o risco e suas consequências à inércia que mata vagarosamente.
dúvida
Pairam dúvidas em meu ar
e não respiro.
O coração põe-se a palpitar:
por que? por que? o quê? o quê?
Mil perguntas a pulsar.
Sou precipitada, um exagero de gente.
Chego a ser até caricata.
Mas pelo menos sou transparente...
Só que a transparência pode se confudir
com o invisível.
É aí onde morrerá meu medo,
quando terei tornado a mim
o intangível.
e não respiro.
O coração põe-se a palpitar:
por que? por que? o quê? o quê?
Mil perguntas a pulsar.
Sou precipitada, um exagero de gente.
Chego a ser até caricata.
Mas pelo menos sou transparente...
Só que a transparência pode se confudir
com o invisível.
É aí onde morrerá meu medo,
quando terei tornado a mim
o intangível.
25 setembro, 2009
indivíduo
Caminhou vagarosamente embaraçado. Pela aparência poderiam até dizer que estava embriagado. Andava tonto, pendendo para os lados. Muitos olhos o olhavam de soslaio, com desdém. Quem seria este Zé Ninguém? Zé Ninguém tem nome próprio, teve família, teve história, mas nada disso interessaria a alguém. Poucos passos trôpegos entre os passantes e seus viços nas faces, fartura de carnes, Zé Ninguém parecia perdido entre verduras brilhantes. Pensava num pequeno milagre de ser invisível por alguns instantes. Indigente e invisível, o de costume, mas ali, naquele lugar, chamava atenção, uma atenção nojosa, enjoativa. Virou motivo de queixume. O homem-pêndulo carregando desespero por entre os rótulos gritantes das prateleiras. Antes que suas mãos carregassem qualquer força furtiva, caiu por entre os carrinhos. Chamaram a segurança, a guarda civil, a polícia militar. Burburinhos surgiram por todo o espaço. A gerência mandou remover logo, atrapalha as vendas. Um indíviduo solitário, julgado por sua falta de alma, falta de amor, falta de nome. Zé Ninguém era sim alguém... era apenas um homem com fome.
24 setembro, 2009
prolixamente humana
Dei-me às verbosidades, o silêncio superado por superabundâncias, nada de discurso lacônico e conciso, vou-me às palavras, ando às favas excessivamente circunstanciada, não tenho freios pra dizer o que digo e falo até sem frases, não existem sílabas suficientes às minhas significações, são minhas várias vozes gritando por meus olhos, bocas nos meus poros, cordas vocais até orelhas, vocabulário, léxico, elucidário, urro libertário! Incisivas, confusas, imaginativas, inventadas, sofridas, embargadas, orgasmáticas palavras, as minhas, aquelas e estas que posso dizer sem nem dizer, sem bem dizer, pessoa desmedida, prolixamente humana pelo que me sobra, pelo que me basta ser, pelo que nada mais me resta fazer.
22 setembro, 2009
o apanhador de cascavéis
Sálvio Silva, temido apanhador de cascavéis, cansado de urubuzar a vida destes pobres crotalídeos, certo dia resolveu bandonear por outras ilhas, trocar sua função de vida, quão difícil era apanhar cascavéis, essas bichas venenosas, barulhentas e cruéis. Apesar de não temê-las, achava que sua missão de apanhador havia de se encerrar, uma vez em que a prefeitura logo lhe iria exonerar, haja visto o tamanho problema que Sálvio certa hora arrumou em sua cidade, quando resolveu apanhar misteriosamente a primeira-dama, dona Getulina, perigosa cascavel de vereda, que andou se engalfinhando às escuras com um tocador de pífanos, seo Deoclécio. Pega de surpresa em sua empreitada, dona Getulina gritou com tanta força, mas tanta força, que até os mortos pularam das catacumbas, os bichos fugiram do zoológico, os padres se renderam ao diabo e a pequena população de Boiúna correu mato adentro, acreditando que o apocalipse finalmente havia chegado.
Passado o tumulto, Sálvio Silva finalmente decidiu que não servia mais para a função de apanhador de cascavéis, fugiu com a roupa do corpo com medo de linchamento, instalou-se na cidade vizinha, agora com nova função, de apanhador de galinhas.
Passado o tumulto, Sálvio Silva finalmente decidiu que não servia mais para a função de apanhador de cascavéis, fugiu com a roupa do corpo com medo de linchamento, instalou-se na cidade vizinha, agora com nova função, de apanhador de galinhas.
17 setembro, 2009
reencontro
Mexo nas gavetas do passado
e na poeira da memória me revi:
pequena, miúda criatura saltitante
daquelas noites embaladas só por ti.
Aquele seu sotaque irreverente
ainda hoje, anos depois,
pude ouvir.
Ao esperar, sem mínima esperança
de revê-lo nesta vida novamente,
o mundo presenteia num instante
um reencontro mais que irreverente.
Fizeste parte de minha história,
minha infância,
digo até que tu és parte do que sou agora,
e me emociono, neste minuto, nesta hora,
por não estares somente em minha memória!
E preencho todos os vazios desta existência
quando de alegria e de carinho
meu coração chora.
Para Severino, figura especial que carrego sempre comigo.
e na poeira da memória me revi:
pequena, miúda criatura saltitante
daquelas noites embaladas só por ti.
Aquele seu sotaque irreverente
ainda hoje, anos depois,
pude ouvir.
Ao esperar, sem mínima esperança
de revê-lo nesta vida novamente,
o mundo presenteia num instante
um reencontro mais que irreverente.
Fizeste parte de minha história,
minha infância,
digo até que tu és parte do que sou agora,
e me emociono, neste minuto, nesta hora,
por não estares somente em minha memória!
E preencho todos os vazios desta existência
quando de alegria e de carinho
meu coração chora.
Para Severino, figura especial que carrego sempre comigo.
degradação
Não tenho medo de degradar-me. Que me venham as rugas, os cabelos brancos e uma sabedoria que se compõe na medida da decomposição. Antes a degradação de sentar-me os dias em jardins floridos, de bocas abertas e ouvidos devotados aos céus espreitando pássaros, no aguardo paciente da culposa senhora ceifeira de vidas que não avisa quando vem, a rebaixar-me a dignidade e a grandeza de toda minha pequenice. Degradar-se de ser feio verbo reflexivo e suas visagens que nos causam sustos por conter nas entre-sílabas a fatalidade. Ainda não receio a ordem das coisas; os olhos flamejam por chamas dançantes que queimam calendários. Degrado-me vagarosamente, sujeita a modificar a substância das minhas estações. Dentre minhas chuvas ainda não caídas e constelações perdidas, desejo o simples das coisas. Quero apenas, ao longo, conjugar-me.
04 setembro, 2009
vontade
Me inclino e me movo a te querer,
te desejo sem pretensão nenhuma.
Apenas sorrio com tua presença,
meu peito enche feito lua cheia,
e no mundo, ao redor,
não resta coisa alguma.
Se ajo por impulso, nem percebo
e resisto em tentar entender
o que aqui dentro acontece.
Não há nada que eu possa fazer!
Eu também não conseguiria esconder
o que sinto, mesmo se quisesse.
Que me resta mesmo nesta vida?
Na efemeridade das coisas,
o sentir não pode ser pecado.
Me deixe gritar, de cima do telhado,
na sacada, na rua, no bar,
qualquer que seja o lugar:
quero ficar do teu lado!
Ah! Meu coração sarabanda
feito cata-vento...
te desejo sem pretensão nenhuma.
Apenas sorrio com tua presença,
meu peito enche feito lua cheia,
e no mundo, ao redor,
não resta coisa alguma.
Se ajo por impulso, nem percebo
e resisto em tentar entender
o que aqui dentro acontece.
Não há nada que eu possa fazer!
Eu também não conseguiria esconder
o que sinto, mesmo se quisesse.
Que me resta mesmo nesta vida?
Na efemeridade das coisas,
o sentir não pode ser pecado.
Me deixe gritar, de cima do telhado,
na sacada, na rua, no bar,
qualquer que seja o lugar:
quero ficar do teu lado!
Ah! Meu coração sarabanda
feito cata-vento...
31 agosto, 2009
coexisto
relativa
coexisto em virtude
de uma causa extrínseca
de uma cousa intrínseca
não sou essencial
mas verossímil
provável
necessária
e plausível
sou inútil
ínsipida e inodora
mas nunca incolor
uma incógnita
uma variável
em gênero, número e grau
alguma coisa de valor
independente do sinal
portanto
tornei-me inerente a mim
para nunca estar sozinha
até o final.
coexisto em virtude
de uma causa extrínseca
de uma cousa intrínseca
não sou essencial
mas verossímil
provável
necessária
e plausível
sou inútil
ínsipida e inodora
mas nunca incolor
uma incógnita
uma variável
em gênero, número e grau
alguma coisa de valor
independente do sinal
portanto
tornei-me inerente a mim
para nunca estar sozinha
até o final.
24 agosto, 2009
rito
Em face de tua face
serena e terna
mantive-me entregue
ao rito de Eros
- este culto especial -
nosso deleitoso desígnio.
Na dramaturgia das horas
perdi-me preenchida
de teus caminhos,
inundada fartamente
por teus rastros
que dentro de mim seguiam.
De emoção terna
fui tomada
ao alcançar o cume.
E o mundo lá fora era um vazio,
pois construímos um universo
entre as paredes
que por nós sorriam, suadas
por tantos deslocamentos
de carícias e carinho.
De sensações, compusemos
grande peça orquestral:
doçura deliciosa de nossos sons,
como assim conjugo agora
tal obra em verso,
inspirada por delicados sentimentos.
Da dedicação íntima destes anseios,
resta a cerimônia suave e demorada
que não cansa.
Que não cansa.
E não cessa.
serena e terna
mantive-me entregue
ao rito de Eros
- este culto especial -
nosso deleitoso desígnio.
Na dramaturgia das horas
perdi-me preenchida
de teus caminhos,
inundada fartamente
por teus rastros
que dentro de mim seguiam.
De emoção terna
fui tomada
ao alcançar o cume.
E o mundo lá fora era um vazio,
pois construímos um universo
entre as paredes
que por nós sorriam, suadas
por tantos deslocamentos
de carícias e carinho.
De sensações, compusemos
grande peça orquestral:
doçura deliciosa de nossos sons,
como assim conjugo agora
tal obra em verso,
inspirada por delicados sentimentos.
Da dedicação íntima destes anseios,
resta a cerimônia suave e demorada
que não cansa.
Que não cansa.
E não cessa.
18 agosto, 2009
liaison
À procura de um rumo profundo, penetrante no interior dos corpos e suas moléculas, ela o convida a caminhar por sobre o bruto artefato de sua couraça animal, fina e macia, feito tecido de algodão. Ele, em toda graça de sua imaginação, tateia o invólucro como uma aventureiro em exploração, e ela se arrepia por toda eletricidade de suas mãos, duas estrelas irradiando energia em seus volumes, transfigurando a abundância de sua formas. Sobrepostos e invertidos, imprimem nos lençóis rastros luminosos em pura revolução orbital, e os olhos fixos em firmamento cintilam, até Vênus despir-se para eles, pouco antes do amanhecer, despreocupadamente nesta verve pululante do querer.
12 agosto, 2009
folguedo
Como se fora música, a coisa descrita
não se calça de meros adjetivos.
De fato memorável a ousadia grita
sem delongas racionais:
prazer inopinado que nos causa a vista,
coisa que surpreende, espanta e agita.
É substância pura e inamovível,
em sua conjugação de ser verbo defectível.
Tão tomados pelo labor, tão distraídos
não percebiam, no calor da movimentação,
olhares curiosos que no entorno não abatiam
em momento algum tal grau de excitação.
Ao céu o corpo celeste em órbita elíptica,
a iluminar alma e matéria em conexão plena,
arrebatadas por excessiva inspiração.
Da ligadura entre dois corpos que comunicam
júbilo, deleite e satisfação;
deste lugar onde se passa de um ponto a outro
como acordes formados em sucessão,
evocação agradável aos ouvidos, pele, mãos,
que em regozijo lascivo fez-se canção.
Dois artistas em ruidosa alegria
exaltados em intensa e sublime criação.
não se calça de meros adjetivos.
De fato memorável a ousadia grita
sem delongas racionais:
prazer inopinado que nos causa a vista,
coisa que surpreende, espanta e agita.
É substância pura e inamovível,
em sua conjugação de ser verbo defectível.
Tão tomados pelo labor, tão distraídos
não percebiam, no calor da movimentação,
olhares curiosos que no entorno não abatiam
em momento algum tal grau de excitação.
Ao céu o corpo celeste em órbita elíptica,
a iluminar alma e matéria em conexão plena,
arrebatadas por excessiva inspiração.
Da ligadura entre dois corpos que comunicam
júbilo, deleite e satisfação;
deste lugar onde se passa de um ponto a outro
como acordes formados em sucessão,
evocação agradável aos ouvidos, pele, mãos,
que em regozijo lascivo fez-se canção.
Dois artistas em ruidosa alegria
exaltados em intensa e sublime criação.
01 agosto, 2009
ancestral
moço robusto de olhos verdes
carregando peso de sacos de farinha
a vender sábado na feira
pé descalço na estrada quente
pés de areia
em seu andar depressa no interior das alagoas
deu-se a topar com meia dúzia de cangaceiros
de lamparina acesa a tropa de lampião
corrida a fuga a deixar os seus lá atrás
atravessando brasis a procurar outro verão.
Para meu avô Ilídio, olhar de mar de saudades.
carregando peso de sacos de farinha
a vender sábado na feira
pé descalço na estrada quente
pés de areia
em seu andar depressa no interior das alagoas
deu-se a topar com meia dúzia de cangaceiros
de lamparina acesa a tropa de lampião
corrida a fuga a deixar os seus lá atrás
atravessando brasis a procurar outro verão.
Para meu avô Ilídio, olhar de mar de saudades.
férias

de tanto em tanto fiz-me agora
firmando, a mim, o olhar de fora
céu recheado a me acalantar
de estrelas velando o sono
e bando de cigarras a me ninar
meu peito enchido em canto mareia
e eu reclamo olhando pra lua cheia
sobre as dunas de meus sonhos de areia
a noite grita em caruaru
em mamanguape me espero como tal
abri meus olhos de mel pro verde de maceió
e chorei de saudades sentindo o cheiro de natal.
06 julho, 2009
equilibrista
Equilibrista
nas pontas dos pés
revolve a linha da vida
que bambeia e bambeia
e o coração da aramista
aos pulos, no susto bombeia
mas ela é equilibrista
e não titubeia
faz juz ao sangue
que percorre tuas veias
Equilibrista
a dor no peito
pede um movimento arriscado
sofrendo, pende-se para um lado
amando, pende-se para outro
é sua alma em equilíbrio
num corpo cansado
mas ela é equilibrista
e não caminha errado
Equilibrista
segue na corda bamba
de braços abertos
celebrando o existir
a vicissutude, a instabilidade
seus portos do devir
Em antagônicas tendências,
ela não se abate
pois é equilibrista
entre a dureza e a alegria,
sorri, mesmo sem platéia,
celebrando sua essência de artista.
nas pontas dos pés
revolve a linha da vida
que bambeia e bambeia
e o coração da aramista
aos pulos, no susto bombeia
mas ela é equilibrista
e não titubeia
faz juz ao sangue
que percorre tuas veias
Equilibrista
a dor no peito
pede um movimento arriscado
sofrendo, pende-se para um lado
amando, pende-se para outro
é sua alma em equilíbrio
num corpo cansado
mas ela é equilibrista
e não caminha errado
Equilibrista
segue na corda bamba
de braços abertos
celebrando o existir
a vicissutude, a instabilidade
seus portos do devir
Em antagônicas tendências,
ela não se abate
pois é equilibrista
entre a dureza e a alegria,
sorri, mesmo sem platéia,
celebrando sua essência de artista.
02 julho, 2009
24 junho, 2009
mon cœur
Paciente e esforçado, não tão benevolente, nem tampouco compassivo, ele se retrai em cansaço. Mergulhado em larga franqueza, já disse tudo o que sentia, foi generoso, responsável, reinventou-se e refletiu, variante sem designação, ficou farto, amou incondicionalmente e foi amado, feriu-se pulsionado em sua dinâmica, esta de pulsar sem freio nem pouso, de ser sempre o centro motor de impulsos e, mesmo repetitivo em suas ações, quis expurgar suas faculdades afetivas, sentiu-se vago, extremado e enfraquecido, perdeu o brio e a coragem, resignou-se de seu próprio destino... enfastiado de tudo e todos, recriou-se em sua imaginação, pegou o primeiro vôo para longe e agora, sossegado e feliz, solitário porém preenchido de novas sensações, transfigura-se belo dançarino que, sem vontade de ser encontrado, chora a calma das madrugadas ao contemplar a vida transcendida pelo toque suavemente intenso de guitarras e castanholas, sentado à mesa de um café cantante, e sorri à sua volta pelos espíritos desesperados, perdidos na Andaluzia dos poemas de Garcia Lorca.
16 junho, 2009
insensata
Perdoem-me a minha insensatez. Ando pra frente procurando o horizonte que se encontra atrás de mim, volto-me a mim mesma procurando as direções que tracei à lápis, um sol na diagonal brilhando me faz cerrar os olhos, e cega de sentidos apalpo obstáculos que me rondam, pulo um, tropeço em outro, errando e acertando sempre, posso cair e levantar numa única fração de segundo, e quando a luz da lua me colore com aroma de patchuli, eu danço o fim e início de meus tempos, brinco de ciranda agarrando fortemente os que me apertam e se distanciam aos poucos, imutável e espontânea perco a faculdade de julgar, exalo por meus poros um espírito cuja forma reflexa é razão e emoção, é tudo e nada... a minha insensatez é a minha criança que brinca de bilboquê à espera de que a bola flutue para o céu e desça feito um meteoro que me atinja a fronte, abrindo minha mente para o mundo e espalhando pedaços de mim pelos lugares por onde ainda não passei.
29 maio, 2009
dunas
meu coração é beira de mar
bordejado por dunas
de medos, de amores
esses montes de areia
que a vida, feito vento
carrega pra algum lugar.
bordejado por dunas
de medos, de amores
esses montes de areia
que a vida, feito vento
carrega pra algum lugar.
pássaros
há pessoas que são como pássaros
pousam em minha mão
e voam, num piscar de olhos
simplesmente, se vão.
pousam em minha mão
e voam, num piscar de olhos
simplesmente, se vão.
28 maio, 2009
o poeta
E era assim que ele seguia em suas primitivas interpretações, senhor de tantas fabulações sobre o mundo, sempre tão incompreendido, porém nunca ingênuo, não era louco, apenas gostava de alegorias, expunha fatos através de símbolos criados com tanta maestria, divididos entre a realidade e o enigma, a dúvida e a certeza. Sentava-se à beira de calçadas para contar suas histórias, incríveis, fantásticas, a quem gostava de ouvir, perambulava por aí, vaticinando seu próprio futuro, "morrerei ao final de outro dia!", arrancando gargalhadas pelo óbvio... porém o óbvio não aconteceu, os séculos se foram e este senhor não morreu, ficou doente, foi preso, torturado, mas sobreviveu, e hoje vive a andar pelas ruas das cidades, a contar as histórias das gerações, uns acreditam, outros nem escutam, já tentaram interná-lo, perturbá-lo com falsas verdades, mas nada atinge de fato este imortal poeta, que tem o nome de Liberdade.
24 maio, 2009
22 maio, 2009
brinde
No fundo
toca a música
do mundo,
tilintar de copos,
gente a gargalhar.
Eu, aqui, pensando
com meus pontos
brindo com poesia
na mesa do bar.
toca a música
do mundo,
tilintar de copos,
gente a gargalhar.
Eu, aqui, pensando
com meus pontos
brindo com poesia
na mesa do bar.
tela
Minhas pálpebras
abrem e fecham
feito leque
se vejo a vida
pintada numa tela
registro de alma em cor,
vibrante e bela,
que deixa minha vista enternecida.
E quando, ao penetrar
por tal janela,
meus olhos procurarão
razão que eu sinta,
mas descubro que o sentir
não se interpela
e uma lágrima escorre
e me mancha
feito tinta.
Para Hugo Perucci, alma que colore o mundo.
abrem e fecham
feito leque
se vejo a vida
pintada numa tela
registro de alma em cor,
vibrante e bela,
que deixa minha vista enternecida.
E quando, ao penetrar
por tal janela,
meus olhos procurarão
razão que eu sinta,
mas descubro que o sentir
não se interpela
e uma lágrima escorre
e me mancha
feito tinta.
Para Hugo Perucci, alma que colore o mundo.
20 maio, 2009
distância
esta extensão que separa corpos
que separa afetos
que separa passos
não diminui a grandeza de nossos laços
te encontro nas músicas,
nos livros, nos retratos,
pensando no que contigo vivi
lembranças das nossas pequenas alegrias
que não me deixam perder-me de ti
mas o que há é apenas distância física
outros abrigos
amigos que vão e vem
amores vãos
mantemos dadas nossas mãos
e, representando graficamente o que me dói,
unindo pra sempre nossas verdades,
rascunho este penoso sentimento
traduzido na palavra SAUDADE.
Para Bruno, meu irmão.
que separa afetos
que separa passos
não diminui a grandeza de nossos laços
te encontro nas músicas,
nos livros, nos retratos,
pensando no que contigo vivi
lembranças das nossas pequenas alegrias
que não me deixam perder-me de ti
mas o que há é apenas distância física
outros abrigos
amigos que vão e vem
amores vãos
mantemos dadas nossas mãos
e, representando graficamente o que me dói,
unindo pra sempre nossas verdades,
rascunho este penoso sentimento
traduzido na palavra SAUDADE.
Para Bruno, meu irmão.
nublada
dias cinzas sempre me dão melancolia
o sol se pôs como todo dia
e não vejo tanto sua luz
um raio atravessa a janela
o vento corta minha espinha
minha pupila não dilata
feixes derretem meus brios
sinto frio e fome em meus vazios...
lá fora está tudo azul
céu azul de meio de dia
e, no chão, só meu vulto sorri
algo nublou dentro de mim.
o sol se pôs como todo dia
e não vejo tanto sua luz
um raio atravessa a janela
o vento corta minha espinha
minha pupila não dilata
feixes derretem meus brios
sinto frio e fome em meus vazios...
lá fora está tudo azul
céu azul de meio de dia
e, no chão, só meu vulto sorri
algo nublou dentro de mim.
via
Qual percurso segue esta pobre alma, inflada em suas presunções, que carrega a crença malfundada de si mesma, atropelando seres com o peso de sua arrogância descendo a ladeira feito trator sem freio, pobre alma esta, pobreza que se faz em falta de humildade, em falta de olhar para si e ver que seu sangue misturado ao de outros possui a mesma cor, a cadeira em que hoje se senta não lhe faz digna nem soberana, vá em frente, pobre alma, engate a quinta marcha da bazófia na corrida desta competição sempre desnecessária... a rodovia da experiência é via de mão dupla, numa arriscada ultrapassagem fará com que se choque de frente com o poste da realidade e, só assim, verás que se desintegras facilmente em milhares de partículas, sem privilégio de levantar vôo, pois és feita desta mesma matéria de onde surge uma espécie inteira, nem menos, nem mais, somente ser humana e, portanto, que sejas humana com os demais.
15 maio, 2009
o universo em mim
Na movimentação do tórax, não é apenas o ar que me invade, preencho uma existência harmonicamente disposta, me ocupo de muitas realidades, gêneros humanos e instintos animais, rumino galáxias inteiras dentro de meu corpo que iluminam meu espírito, dilato meus talentos, estabeleço conexões entre o céu e a terra, entre olhos e coração, entre eu e outro, e transbordo o todo em pedaços, de meu centro às extremidades... carrego um universo em mim.
13 maio, 2009
depoimento pessoal
Difícil conciliar a minha alma feminina, quando esta ultrapassa todo esteriotipo criado para tal gênero em tempos pós-modernos, século 21 e homens afoitos por capas de revistas, assim caminho, sandália rasteira e pé no chão, que não suporta o bico fino salto Luís XV torturante matando aos poucos, sigo em frente, olhando para o céu sem sombra nem rímel, só quando tem lua e quando lua cheia de amante com perfume delicado, batom esporádico marcando estes lábios juvenis que tem sede de vida e fome de expressão, ando um pouco, capaz de chorar com o colorido das flores de jardim e de rir histericamente com cerveja e torresmo à pururuca no botequim, dou um passo, e vivo a poesia, a sutileza e a escatologia numa mesma cadência, me jogo, um longo pulo na arte e um chute no saco da caixinha de tantas polegadas hipnotizadoras de seres e sonhos, me levo, carrego marcas da maternidade nas linhas finas e longas curvas do meu corpo, este corpo feminino pequeno mas nunca miúdo que sofre e sente e se comunica e pensa e sobe nas alturas, me movimento, de um lado a outro procurando sanar as dores e rimá-las com meus amores, todos e tantos, tantos e todos que tudo a mim significa, verbo reflexivo de ser, de ser eu, somente soul, assim, afinada na música do mundo canto a mim, e canto por todos, e por tudo, até o fim.
11 maio, 2009
tempo

Um longo lapso, marcado no mesmo compasso, desfaz-se no curso dos anos, determinado ainda que não exato. Resiste próprio de certos atos e, implacável, muda sua substância, dilata e tem um prazo, transtorna sua atmosfera, é um fenômeno e um passo, contado, medido, até entrar em colapso. No giro imaginário do Sol, permanece gasto, incontrolável e oportuno, metáfora prematura da ação dos verbos que, distraído de suas ocupações, trabalha em vão... e existe, apenas existe, veloz porém sem pressa, numa dada ocasião.
visita
Um dia acordou de repente com uma visita inesperada tocando a campanhia. Se arrependeu de tê-la deixado entrar. Sem saber o que fazer, ficou dias a fio tentando escondê-la dentro da gaveta, não queria olhar para ela, trancou com cadeado e fez questão de jogar a chave no lixo. Ela incomodava, falava alto, perturbava o sono. Mas não teve jeito. A dor estava ali, se encontrando com ela face a face para onde ia, olhando profundamente em seus olhos grandes e deixando bem claro que ela não poderia fugir. Não tinha jeito. Ela teve que encarar sua dor, teve que olhar para ela, teve que gritar com ela, tentou expulsá-la, expurgá-la, exorcizá-la, mas parecia que fazer isso se tornava pior, porque tudo aumentava de tamanho a cada tentativa.
Até que ficaram frente à frente, como num duelo. Ao invés de tentar matá-la, abraçou sua dor, beijou-a, e convidou-a para um café, conversaram a tarde toda, se entenderam e ficaram amigas... E não era tarde quando a dor se despediu, abriu a porta, e foi embora, feliz, sem saber, exatamente, quando estaria de volta.
Até que ficaram frente à frente, como num duelo. Ao invés de tentar matá-la, abraçou sua dor, beijou-a, e convidou-a para um café, conversaram a tarde toda, se entenderam e ficaram amigas... E não era tarde quando a dor se despediu, abriu a porta, e foi embora, feliz, sem saber, exatamente, quando estaria de volta.
08 maio, 2009
espetacularizada
Em meio ao cansaço, esparramada entre almofadas de linho e colchas de cetim, ela se rende à sua total infelicidade. Carrega na cara bolsa todo maquinário rebordoso para manter seu requinte, entre a maquiagem e o peeling, a plástica e o verniz luxuoso reluzente de sua fala, ela dá falta de si mesma, procura incessantemente algo que lhe valha destaque, brilho e glamour, ela se espetaculariza a fim de que seja vista e ouvida por muitos, ainda que isso, no fundo, nada tenha de real valor. Ela pensa e crê fielmente, que na sua verdade aparente, conseguirá profundamente encontrar amor... mas por dentro ela chora pesado, carrega no peito tamanho fardo de não saber escolher o sapato ou a dor, ela se rende e abre o armário, ela solta um urro desesperado, põe fogo em tudo ao seu lado, se deixa levar no arder da chama, acreditando que assim, talvez, apareça alguém que reclama, alguém que por sua vida clama, alguém que realmente lhe ama... e tudo queima e corrói, o que sobra é só resto de tristeza e cinzas, e o silêncio mortal e profundo que, ao final, ninguém quebrou... Ela também não se amou.
04 maio, 2009
banquete
Cheia de voluptuosidade, avançando sobre os mais belos e pobres mortais e devorando-os com tal sagacidade, ela se encontra neste banquete com sua própria nudez. Despe-se de carne e de espírito, dissoluta e libertina, entre línguas, pernas e abdômens, mãos tateando numa busca voraz, ela, deusa encantadora de almas e homens, entrega-se com tal devoção ao banquete que, entre o devorar e ser devorada, torna tal ritual como uma reza, um mantra, e dá seu grito de redenção, deixando-os lívidos porém ávidos e sedentos, abatidos pelo cansaço do mais farto entendimento destes mistérios gozozos e divinos, constantes e corajosos, e essencialmente primordiais.
30 abril, 2009
o sentido da vida
O sentido da vida não traça linha reta nem caminha pela mesma superfície, é ar e matéria de dor e prazer, ação e imaginação, está sempre exposto e escondido ao mesmo tempo em que uma consciência corre em sua procura.
O sentido da vida não tem sentido nem razão, apenas forma e volume de desentendimento, etéreo pensamento, onde tantos fracassaram em sua incessante e inocente busca...
O sentido da vida não é uma conclusão séria que se finaliza. O sentido da vida é, apenas, um filme do Monty Phyton.
O sentido da vida não tem sentido nem razão, apenas forma e volume de desentendimento, etéreo pensamento, onde tantos fracassaram em sua incessante e inocente busca...
O sentido da vida não é uma conclusão séria que se finaliza. O sentido da vida é, apenas, um filme do Monty Phyton.
26 abril, 2009
o amor em seu caminho

Quando aparecer amor em seu caminho, não desvie, não mude o horizonte, não o deixe ali, sozinho, estático, procurando um olhar iluminado que o receba... o amor que aparecer em seu caminho, ainda que ínfimo, mínimo, imperceptível, é amor, e em amor não se pisa, amor não se destrói, amor tem alma própria que, a qualquer momento, pode se desprender e se degradar aos poucos, rendido à atmosfera do vem-vai do mundo, do ir e vir de hoje e amanhã, pois amor nasce e morre na mesma cadência em que tudo se move e comove, enquanto a vida pulsar dentro da gente.
Goya
por Hugo Perucci
http://www.flickr.com/photos/hugoperucci/
por Hugo Perucci
http://www.flickr.com/photos/hugoperucci/
23 abril, 2009
ano novo
Geralmente quando dizem "ano novo, vida nova", fico pensando se a vida há de ser nova a cada ano novo ou se a vida há de ser renovada a cada dia novo.
Pensando bem, fico com a última opção.
Pensando bem, fico com a última opção.
22 abril, 2009
convidativa
Dê-me tua mão, devagarinho. O tempo corre e escorre, mas não é preciso pressa, apenas dê-me tua mão, devagarinho, onde tudo é superfície e profundeza, onde tudo é eterno e fugaz, dê-me tua mão, devagarinho, e diga-me uma frase ao pé do ouvido, e devagarinho, andemos numa via de mão dupla, abrimos um caminho, dê-me tua mão, devagarinho, nos enrosquemos em membros e lábios, devagarinho, respiremos, transpiremos e ofegantes, nos afoguemos em nós mesmos, e devagarinho, um longo mergulho, um salto mortal de carne e desejo, mas sempre devagarinho, estafante porém leve, mansinho, devagarinho, faço um carinho em seus cachos até que, devagarinho, adormeças como criança em meus braços.
17 abril, 2009
crisálida

Em seu apelo constante, insistente atenção à tentativa de ser coesa num mundo incoerente, ela se dissocia do todo em silêncio. Liberta, porém, ainda presa e dividida, na batalha diária desta vida, ela grita calada em sua rotina, rotina de guerrilha pelo pão da cria, ela exala perfume doce de flor, na rotina de ser inventiva, alquimista e dançarina, ela se reinventa artista, menina-mulher, fêmea selvagem, primitiva e pós-moderna, camponesa e cosmopolita, ela se aprisiona em si mesma, pela salvação de sua consciência... e se transmuta, transforma, transcende a solidez de seu corpo como arma, sua alma, até que se abra novamente e, generosa, linda, persiga estrelas e vagalumes, e se perceba, de repente, mais leve e intensa de amor.
Crisálida - obra de arte contemporânea
por Hugo Perucci
14 abril, 2009
08 abril, 2009
07 abril, 2009
melagkholikós

Apareceste assim, rosto abatido, coração desconsolado, olhar vago e triste, sem persistir, sem me procurar. Eu te iluminava, persistente, mas não te voltavas a mim, você não me via, não me olhava, eu refletia numas águas e, ainda assim, teu pensamento era morto, eu existia ali sem exisitir. E você, sem querer, sem perseguir... não bastava que eu fosse ensolarada, não bastava que tivesse a mim antes de findar o dia, antes deste horizonte ter um fim.
o mundo em suas mãos

Quando a vida atrofia, o titeriteiro chora. Procura desesperado por seus dedos maleáveis, seus olhos ágeis fitam os que conduziam movimentos e emoções. O tempo escorre pelos fios, páram as articulações como se, assim, parassem seu próprio coração. Seus filhos, outrora desencadeadores de tristezas, alegrias, sofrem esquecidos num depósito. Quando a vida atrofia, o titeriteiro chora o que não mais existe: o mundo em suas mãos.
03 abril, 2009
sussurro
O sussurro da tua voz era doce, caramelo melando meus ouvidos, cansados dos ruídos, cansados das lamentações. O sussurro de tua voz era meigo, um afago no rosto, mão macia em pêlo de gato, mão macia na minha mão. O sussurro de tua voz era limpo, claro e transparente, como a lágrima que em meu rosto escorre. O sussurro de tua voz me atravessa, eu tremulo, me arrepio inteira, e aguardo ansiosamente pelo momento de saber, afinal, quem és e o que queres realmente me dizer.
01 abril, 2009
31 março, 2009
30 março, 2009
costureira

que sejam sempre incompreensíveis minhas palavras, meus retalhos, ora bem costurados, ora bordados, ora adornados, cheios de adereço, pontos, tranças e fuxicos, essa colcha de palavras são mosaicos, não tentem compreendê-las sempre, apenas compreenda que há o caos, é meu novelo de vida, puxo um fio, dois, três, dou um ponto, em cruz, trançado, sonho no meio, um bordado, de repente tudo desfaço, refaço no tear dos dias, me repenso, desligo a máquina, abro buracos com agulhas, furo um dedo, choro, depois rio um rio de risos, pra vida ficar macia que nem algodão, tecer, tecido, ter sido, aqui sigo, costureira de minhas atitudes, pensamentos, fabulações, artesã de mim desfio minhas linhas, minhas curvas, há o novelo, é meu caos de vida, cosendo, correndo, páro de arfar porque tudo, afinal, ficará guardado dentro da caixinha.
realidade
Cinzenta, suja, poeirenta, barulhenta, o entorno urbano desta realidade às vezes me atormenta. Sobre as várias rodas pela via vou buscando outras formas, volumes e cores desta realidade, realidade minha, vista somente por estes grandes olhos que a podem perceber. Sigo pela via esperançada de que há em próximos quilômetros de estrada outro universo a ser explorado, outras gentes, outro ar. Busquei nas lonas o meu refúgio, encontrei pessoas que gostaria de ter encontrado noutras realidades que vivi, se me fosse possível criar diferente relação de tempo-espaço, anteriormente, já deveria estar ali. De fato, o tanto que vi, quanta gente interessante conheci, é outra realidade ainda que minha sempre, onde eu vá e para onde a carregue.
São meus olhos, cores, volumes, formas, o mel de meus olhos. Mil corações num único. Alma leve. E o lamento de tudo parecer sempre tão breve.
São meus olhos, cores, volumes, formas, o mel de meus olhos. Mil corações num único. Alma leve. E o lamento de tudo parecer sempre tão breve.
27 março, 2009
Dia Nacional do Circo

Minha cidade amanheceu risonha
Chegou o circo, está a anunciar,
Grita o palhaço da perna de pau,
Minha gente acorda para ouvir cantar.
E eu, menino, moleque de rua,
Vou bem na frente prá chamar atenção,
Talvez me vendo assim animado,
Me dê entrada o dono da função.
Oh! Raia o sol, suspende a lua,
Olha o palhaço no meio da rua.
Quanta alegria. Foi armado o circo!
Está em festa o largo da matriz.
Em volta dele corre a meninada,
E eu brincando junto também sou feliz.
"Zé Fogueteiro" hoje vai ao circo
"Todo exibido", veio me contar.
Prá queimar fogos, já ganhou bilhete,
No camarote diz que vai sentar.
Oh! Raia o sol, suspende a lua,
Olha o palhaço que está na rua.
Para juntar dinheiro eu vou depressa,
Vender cocadas que a doceira fez;
Vou lavar vidros, vou vender garrafa,
Ou engraxar sapatos prá qualquer freguês.
E se de noite, prá meu desengano,
Eu não puder sentar na arquibancada,
Eu, de "gaiato" vou "forçando" entrada,
Bem escondido por baixo do pano.
Oh! Raia o sol, suspende a lua,
Olha o palhaço no meio da rua.
Chegou o circo, está a anunciar,
Grita o palhaço da perna de pau,
Minha gente acorda para ouvir cantar.
E eu, menino, moleque de rua,
Vou bem na frente prá chamar atenção,
Talvez me vendo assim animado,
Me dê entrada o dono da função.
Oh! Raia o sol, suspende a lua,
Olha o palhaço no meio da rua.
Quanta alegria. Foi armado o circo!
Está em festa o largo da matriz.
Em volta dele corre a meninada,
E eu brincando junto também sou feliz.
"Zé Fogueteiro" hoje vai ao circo
"Todo exibido", veio me contar.
Prá queimar fogos, já ganhou bilhete,
No camarote diz que vai sentar.
Oh! Raia o sol, suspende a lua,
Olha o palhaço que está na rua.
Para juntar dinheiro eu vou depressa,
Vender cocadas que a doceira fez;
Vou lavar vidros, vou vender garrafa,
Ou engraxar sapatos prá qualquer freguês.
E se de noite, prá meu desengano,
Eu não puder sentar na arquibancada,
Eu, de "gaiato" vou "forçando" entrada,
Bem escondido por baixo do pano.
Oh! Raia o sol, suspende a lua,
Olha o palhaço no meio da rua.
25 março, 2009
A gente se vê

A gente se viu ao pé duma escadaria, no meio do sobe e desce, loucura de fim de tarde de sexta-feira. A gente se viu na porta do cinema, no bar, na bilheteria, a gente se viu vendo filme sem ver o momento de chegar o fim. A gente se viu com frio na barriga, na garoa, descendo a rua. A gente se viu num beijo, é como se víssemos o que queríamos ver ali. E a gente se viu várias vezes, era vontade de se ver o tempo todo todo o tempo, a gente se viu de alma leve e límpida, a gente viu que era possível. Mas aí a gente se viu sem querer ver, a gente viu que possível era impossível também. "A gente se vê", hoje, a gente diz.
18 março, 2009
exercício segundo
Para Lili
Ela recebe flores e velas. Todos choram. Olhos se transformam em ilhas, rostos de crepúsculo, espinhos atravessando no peito. Ela brilha como estrela. E recebe flores e velas. Enquanto isso, no jardim, os deuses a convidam para dançar.
Ela recebe flores e velas. Todos choram. Olhos se transformam em ilhas, rostos de crepúsculo, espinhos atravessando no peito. Ela brilha como estrela. E recebe flores e velas. Enquanto isso, no jardim, os deuses a convidam para dançar.
17 março, 2009
exercício primeiro
Acordar de manhã e não precisar abrir o armário, num pulo da cama pra dentro de uma calça, blusa ou vestido, sem precisar escolhê-lo no dia anterior e em nenhum outro momento qualquer. Fazer tranças no cabelo curtíssimo e lançá-las pela janela. Ao lance de um pensamento elas se alongam até o chão. Lá debaixo não há princípe, nem sapo, talvez um doido, um palhaço. Quando ele subir pelas minhas tranças eu já não terei cabelos, apenas asas. E o deixo ali mesmo, a me olhar voando mundo afora, feito libélula afoita por uma pétala de flor.
minha voz

Tenho uma voz que soa no mundo, que ecoa pelo mundo. Com meu peso, meu equilíbrio, meu movimento, é minha voz que por aí caminha, a passos lentos. A voz que fala pelo texto, é a voz que cala a palavra, voz que soa pelo vento. Minha voz, meu movimento. Mensagem de dor, de sofrimento. Aconchego, amor e sonho. Ritmo e talento. Minha voz é meu corpo. Minha voz, meu tempo. Sentimento.
04 março, 2009
03 março, 2009
19 fevereiro, 2009
momento
Ainda não era momento de ouvir sua voz de novo.
Mas não tive a sorte de estar longe da sala quando tocou o telefone.
Não era momento de dizer "tudo bem" quando, na verdade, está tudo uma merda.
Não, eu não estou bem.
Tou achando tudo um saco, pra dizer a verdade.
Minha vontade de ir embora não é só pra fugir da cidade.
É pra fugir de tudo.
Fugir de tudo em que me apeguei por aqui.
Isso inclui você.
Não é só você.
Mas inclui você.
Tudo bem que eu posso fugir por aqui mesmo.
O problema é que onde eu vivo
e com quem eu convivo
não é uma zona neutra.
Não é um lugar onde não haja resquício de lembrança sua.
Isso vai desde o trajeto de casa até o trabalho,
e outros lugares mais.
Os ônibus que vão pra sua casa.
E tem pessoas.
E as relações todas minhas e das pessoas
e, mesmo que eu não pergunte,
e realmente eu não pergunto,
de alguma forma, vou saber sobre você.
O mínimo do mínimo, mas vou saber.
De toda forma, parece maldição
ou praga que alguém rogou em mim:
por mais que eu fuja para um lugar distante
você ainda está em mim.
Eu sonho contigo todos os dias
e os sonhos sempre são bons.
Aí eu acordo
e vejo uma realidade muito diferente.
Não, não está tudo bom.
Aí, me sinto com uma coisa
que uma vez alguém chamou de lepra espiritual.
Cada dia cai um pedaço da alma.
Eu queria falar com você
mas não neste momento.
Porque, nesse momento, eu ainda estou morrendo aos poucos
e quando acho que não estou mais morrendo
a vida me dá um sinal: está sim.
Desliguei o telefone e corri para o banheiro chorar.
E senti de novo uma dor profunda no peito,
na garganta,
no estômago.
Me senti ridícula,
idiota,
fraca,
impotente,
incapaz de não sentir dor nenhuma.
Não, não era momento de falar com você.
Mas eu não pude evitar
e se assim aconteceu
talvez seja a vida me dando um outro sinal: era sim.
Era momento de eu entender que
lhe dizendo que tá tudo bem
ou tá tudo uma merda,
não faz a menor diferença.
Você não vai se importar.
Mas não tive a sorte de estar longe da sala quando tocou o telefone.
Não era momento de dizer "tudo bem" quando, na verdade, está tudo uma merda.
Não, eu não estou bem.
Tou achando tudo um saco, pra dizer a verdade.
Minha vontade de ir embora não é só pra fugir da cidade.
É pra fugir de tudo.
Fugir de tudo em que me apeguei por aqui.
Isso inclui você.
Não é só você.
Mas inclui você.
Tudo bem que eu posso fugir por aqui mesmo.
O problema é que onde eu vivo
e com quem eu convivo
não é uma zona neutra.
Não é um lugar onde não haja resquício de lembrança sua.
Isso vai desde o trajeto de casa até o trabalho,
e outros lugares mais.
Os ônibus que vão pra sua casa.
E tem pessoas.
E as relações todas minhas e das pessoas
e, mesmo que eu não pergunte,
e realmente eu não pergunto,
de alguma forma, vou saber sobre você.
O mínimo do mínimo, mas vou saber.
De toda forma, parece maldição
ou praga que alguém rogou em mim:
por mais que eu fuja para um lugar distante
você ainda está em mim.
Eu sonho contigo todos os dias
e os sonhos sempre são bons.
Aí eu acordo
e vejo uma realidade muito diferente.
Não, não está tudo bom.
Aí, me sinto com uma coisa
que uma vez alguém chamou de lepra espiritual.
Cada dia cai um pedaço da alma.
Eu queria falar com você
mas não neste momento.
Porque, nesse momento, eu ainda estou morrendo aos poucos
e quando acho que não estou mais morrendo
a vida me dá um sinal: está sim.
Desliguei o telefone e corri para o banheiro chorar.
E senti de novo uma dor profunda no peito,
na garganta,
no estômago.
Me senti ridícula,
idiota,
fraca,
impotente,
incapaz de não sentir dor nenhuma.
Não, não era momento de falar com você.
Mas eu não pude evitar
e se assim aconteceu
talvez seja a vida me dando um outro sinal: era sim.
Era momento de eu entender que
lhe dizendo que tá tudo bem
ou tá tudo uma merda,
não faz a menor diferença.
Você não vai se importar.
04 fevereiro, 2009
resquícios
Achar felicidade nas quinas, esquinas, cantos e rodapés, rodopiando dentro do quarto ao som de samba, na cadência iluminada pela luz quente, amarela, dentro do lustre que carrega mosquitos mortos. Encontrar alegria nos livros já lidos e nos que ainda não foram explorados, sentir cheiro de papel envelhecido, amassado, dos bilhetes de outrora. Abrir a janela e não ver a aurora, nem crepúsculo, apenas olhar pra cima e ver o céu lá fora. A tontura dos rodopios embaça a vista que tenta ler os encartes dos vinis esparramados pelo quarto, uma vez que se quebrou a agulha da vitrola. Um violão, um pandeiro, uma gaita, um caxixi e um chocalho, adormecidos no armário esperando a próxima oportunidade para serem acordados. Um quarto que carrega um inteiro de memória e amor que nunca foi quarto nem metade. Amor único e inteiro, espalhado numa cama de solteiro. Amor e dois travesseiros. Um deles, hoje, chora o vazio da solidão.
03 fevereiro, 2009
Dores do mundo
por Xico Sá
Uma das grandes vantagens das mulheres sobre nós é a coragem, o destemor, de chorar em público. Se o choro vem, as mulheres não congelam as lágrimas, como os moços,pobres moços... Não guardam as lágrimas para depois, como sempre adiamos, não levam as lágrimas para chorar escondidos em casa.
Pior ainda é o homem que não chora nunca. Além de fazer mal ao coração, esse tipo não merece muita confiança. As mulheres não, falo da maioria das moças, desabam em qualquer canto e hora. Se estão mal de amor, choram na firma, no escritório mesmo, na fábrica, choram no trânsito, choram no metrô, simplesmente choram.
Como invejo as lágrimas sinceras das fêmeas.
Quantas vezes a gente não se preserva, por fraqueza, enquanto as lágrimas, em cachoeira, batem forte no peito machista e viram apenas pedras do gelo do uísque.
Como invejo as mulheres que misturam sim o trabalho com o drama heavy metal da existência. Desconfio da frieza profissional, das icebergs de tailleur, que imitam os piores homens e guardam tudo para molhar o travesseiro solitário numa noite de inverno.
Ora, as mulheres podem ser infinitamente poderosas, administrarem plataformas de petróleo nos mares... e chorarem um atlântico diante de uma alma perra e sem cuidados.
Lindas e comoventes as mulheres que choram em público, nas ruas, nos bares, nos restaurantes, nas malocas, no táxi. São antes de tudo umas fortes. Tristes dos que estranham ou ficam envergonhados com o mais verdadeiro dos choros. O medinho do macho diante do pênalti que vale uma vaga no torneio da dignidade.
Uma das grandes vantagens das mulheres sobre nós é a coragem, o destemor, de chorar em público. Se o choro vem, as mulheres não congelam as lágrimas, como os moços,pobres moços... Não guardam as lágrimas para depois, como sempre adiamos, não levam as lágrimas para chorar escondidos em casa.
Pior ainda é o homem que não chora nunca. Além de fazer mal ao coração, esse tipo não merece muita confiança. As mulheres não, falo da maioria das moças, desabam em qualquer canto e hora. Se estão mal de amor, choram na firma, no escritório mesmo, na fábrica, choram no trânsito, choram no metrô, simplesmente choram.
Como invejo as lágrimas sinceras das fêmeas.
Quantas vezes a gente não se preserva, por fraqueza, enquanto as lágrimas, em cachoeira, batem forte no peito machista e viram apenas pedras do gelo do uísque.
Como invejo as mulheres que misturam sim o trabalho com o drama heavy metal da existência. Desconfio da frieza profissional, das icebergs de tailleur, que imitam os piores homens e guardam tudo para molhar o travesseiro solitário numa noite de inverno.
Ora, as mulheres podem ser infinitamente poderosas, administrarem plataformas de petróleo nos mares... e chorarem um atlântico diante de uma alma perra e sem cuidados.
Lindas e comoventes as mulheres que choram em público, nas ruas, nos bares, nos restaurantes, nas malocas, no táxi. São antes de tudo umas fortes. Tristes dos que estranham ou ficam envergonhados com o mais verdadeiro dos choros. O medinho do macho diante do pênalti que vale uma vaga no torneio da dignidade.
20 janeiro, 2009
desconcertada
Teria que pegar tudo aquilo e jogar dentro da mochila. Fazia uma semana que tinham se separado, e reunir os objetos dele não estava sendo fácil. A cada livro dele que mexia, uma lágrima caía. Sentia uma dor profunda no peito, um vazio, vontade de morrer e nascer de novo num mesmo instante.
Tinha que jogar tudo na mochila e assim o fez. Saiu desconcertada pela rua, como se caminhasse por um buraco negro, por uma paisagem sem paisagem. As ruas não tinham nada, nem edifícios, nem carros, nem fumaça, nem semáforos, nem pessoas, só ela e as imagens desse amor que passavam como um filme.
Pegou o ônibus, desconcertada, e lá dentro bateu a dúvida de ter pego a condução errada, sem atenção, de parar em algum outro lugar que não o que haviam combinado. Não queria se atrasar para aquele que seria, talvez, um último encontro de se desencontrarem definitivamente.
Chegou antes do horário, pegou uma cerveja no bar. Suas mãos tremiam que nem vara verde. Antes de acabar a cerveja ele chegou, de ar tranquilo, mas ela não conseguiu sorrir.
Em momento nenhum ela conseguiu sorrir.
Nem ao ouvir que ele ainda a amava, apesar de tudo.
Deram um último abraço.
Ele se foi.
Ela voltou pra casa, com o andar trôpego, meio bêbado de dor, desconcertada. Pensava naquele caminho, naquela linha de ônibus que pegou tantas vezes pra voltar da casa dele, pensava nele, pensava neles, no que viveram e no que um dia, juntos, sonharam viver.
Desconcertada, não dormiu aquela noite. Fumou um maço de cigarros, olhando fotos e bilhetes dele, meu deus, como se amaram até a última gota e se queriam bem.
Chorou por muitos dias seguidos, sempre rezando no fundo de sua alma para que aquela dor passar, para aquela culpa passar, para se sentir mulher de novo, ter sua paz de espírito de volta. Para poder sentir saudades sem chorar, sentir saudades com um sorriso maroto de olhar pra trás e se orgulhar do que passaram juntos.
E como há dores que só o tempo cura, ela hoje vive seus dias, um após o outro, sem sonhos, sem desejos.
Segue a vida ainda desconcertada, e com o coração partido ao meio.
Tinha que jogar tudo na mochila e assim o fez. Saiu desconcertada pela rua, como se caminhasse por um buraco negro, por uma paisagem sem paisagem. As ruas não tinham nada, nem edifícios, nem carros, nem fumaça, nem semáforos, nem pessoas, só ela e as imagens desse amor que passavam como um filme.
Pegou o ônibus, desconcertada, e lá dentro bateu a dúvida de ter pego a condução errada, sem atenção, de parar em algum outro lugar que não o que haviam combinado. Não queria se atrasar para aquele que seria, talvez, um último encontro de se desencontrarem definitivamente.
Chegou antes do horário, pegou uma cerveja no bar. Suas mãos tremiam que nem vara verde. Antes de acabar a cerveja ele chegou, de ar tranquilo, mas ela não conseguiu sorrir.
Em momento nenhum ela conseguiu sorrir.
Nem ao ouvir que ele ainda a amava, apesar de tudo.
Deram um último abraço.
Ele se foi.
Ela voltou pra casa, com o andar trôpego, meio bêbado de dor, desconcertada. Pensava naquele caminho, naquela linha de ônibus que pegou tantas vezes pra voltar da casa dele, pensava nele, pensava neles, no que viveram e no que um dia, juntos, sonharam viver.
Desconcertada, não dormiu aquela noite. Fumou um maço de cigarros, olhando fotos e bilhetes dele, meu deus, como se amaram até a última gota e se queriam bem.
Chorou por muitos dias seguidos, sempre rezando no fundo de sua alma para que aquela dor passar, para aquela culpa passar, para se sentir mulher de novo, ter sua paz de espírito de volta. Para poder sentir saudades sem chorar, sentir saudades com um sorriso maroto de olhar pra trás e se orgulhar do que passaram juntos.
E como há dores que só o tempo cura, ela hoje vive seus dias, um após o outro, sem sonhos, sem desejos.
Segue a vida ainda desconcertada, e com o coração partido ao meio.
09 janeiro, 2009
Amar
é mergulhar de cabeça
sem saber nada
sem saber de nada
ao seu encalço
numa piscina
como um camicase
pulando do último
do mais alto trampolim
de mim
sem asa delta
salva-vidas, pára-quedas
sem perguntar
sem sequer pensar
se lá embaixo
vou encontrar água
ou o ladrilho do vazio
Armando Freitas Filho
sem saber nada
sem saber de nada
ao seu encalço
numa piscina
como um camicase
pulando do último
do mais alto trampolim
de mim
sem asa delta
salva-vidas, pára-quedas
sem perguntar
sem sequer pensar
se lá embaixo
vou encontrar água
ou o ladrilho do vazio
Armando Freitas Filho
08 janeiro, 2009
24 novembro, 2008
enfeites
Ah, e como sinto falta! As cartas todas escritas à mão. Tenho guardadas até hoje as cartas que minhas amigas trocavam comigo. Isso com nove, dez, até uns treze anos. Escrevia cartas quase todo dia pra elas. Aquelas vizinhas, eu corria e colocava por baixo da porta do apartamento. Não precisava tocar a campainha e dizer "você é minha amiga, como gosto de você!". Eu fazia isso através das cartas. E eram muitas. Todas escritas à mão. As da escola eu guardava pra levar no dia seguinte, era só dar bobeira, eu colocava dentro da mochila. Era legal. Gostoso abrir a mochila e ver um envelope com meu nome. Elas também faziam isso. Eu fazia desenhos também. Nas cartas. Pra enfeitar, sabe?
Tive uma infância enfeitada.
Eu quis escrever um livro. Mais de uma vez. Minha mãe me ensinou a usar a máquina de escrever. Eu devia ter uns oito anos. Achei legal essa coisa de máquina de escrever, sentia importância no que eu escrevia. Na verdade, isso também era só um enfeite. Máquina nenhuma mudaria a força das palavras. E nunca vão mudar. A força da palavra se encontra nela mesma.
Tive uma infância enfeitada.
Compunha umas músicas com meu irmão e depois ficava inventando coreografias para elas. Porque só cantar a música não bastava - eu tinha que dançá-las. E mais que dançar, eu e meu irmão gravavámos tudo num aparelho portátil de fita cassete. Horas e horas de fita cassete, com músicas e programas de rádio que nós inventávamos. A gravação era só um enfeite.
Tive uma infância enfeitada.
Os enfeites todos se foram, com o tempo. A criatividade exercitada a cada minuto sumiu. Abro pastas e gavetas e encontro entre poeira e papéis amarelados, as mais enfeitadas lembranças.
Essas lembranças me enfeitam a vida, com cores e sons, sempre que penso nelas.
Tive uma infância enfeitada.
Eu quis escrever um livro. Mais de uma vez. Minha mãe me ensinou a usar a máquina de escrever. Eu devia ter uns oito anos. Achei legal essa coisa de máquina de escrever, sentia importância no que eu escrevia. Na verdade, isso também era só um enfeite. Máquina nenhuma mudaria a força das palavras. E nunca vão mudar. A força da palavra se encontra nela mesma.
Tive uma infância enfeitada.
Compunha umas músicas com meu irmão e depois ficava inventando coreografias para elas. Porque só cantar a música não bastava - eu tinha que dançá-las. E mais que dançar, eu e meu irmão gravavámos tudo num aparelho portátil de fita cassete. Horas e horas de fita cassete, com músicas e programas de rádio que nós inventávamos. A gravação era só um enfeite.
Tive uma infância enfeitada.
Os enfeites todos se foram, com o tempo. A criatividade exercitada a cada minuto sumiu. Abro pastas e gavetas e encontro entre poeira e papéis amarelados, as mais enfeitadas lembranças.
Essas lembranças me enfeitam a vida, com cores e sons, sempre que penso nelas.
28 outubro, 2008
correspondência
"Querida,
sei que nesse momento precisa, por isso escrevo essa carta. Não sinta medo, nem culpa, nem raiva. Sei que adoeces de culpas que não deveria ter. Devo lhe dizer que já te vi adoecer inúmeras vezes simplesmente por ser ingênua. Não boba, ingênua. Já te vi sentir a fome dos outros com tua barriga. Minha querida, não faça mais isso com você. O excesso de altruísmo lhe faz mal. Por que se desacreditou? Vi você se largar e se desprezar por medo. Que buraco foi esse onde se enfiou? Para onde isso te levou? Repito, não sinta culpa. Se conhecer às vezes é difícil e doloroso. Quando você se ouviu pela última vez? Sei que faz tempo. Mas também sei que há aí dentro uma voz que ecoa com força o tempo todo. Essa voz implora por ser ouvida. Você só tem dois braços que não são suficientes para um mundo deste tamanho. Mas os seus ouvidos são suficientes para você. É simples. Não estou lhe impondo verdades. Apenas te sugiro um caminho. Você pode escolher. E pode não escolher. Apesar que não escolher também é uma escolha. A voz está gritando. Vai se fazer de surda? Boa sorte, minha querida. Você é mesmo muito querida."
Postou a carta na agência de correios. O destino? Seu antigo endereço. Pegou um táxi rumo ao aeroporto. O destino? Algum lugar.
sei que nesse momento precisa, por isso escrevo essa carta. Não sinta medo, nem culpa, nem raiva. Sei que adoeces de culpas que não deveria ter. Devo lhe dizer que já te vi adoecer inúmeras vezes simplesmente por ser ingênua. Não boba, ingênua. Já te vi sentir a fome dos outros com tua barriga. Minha querida, não faça mais isso com você. O excesso de altruísmo lhe faz mal. Por que se desacreditou? Vi você se largar e se desprezar por medo. Que buraco foi esse onde se enfiou? Para onde isso te levou? Repito, não sinta culpa. Se conhecer às vezes é difícil e doloroso. Quando você se ouviu pela última vez? Sei que faz tempo. Mas também sei que há aí dentro uma voz que ecoa com força o tempo todo. Essa voz implora por ser ouvida. Você só tem dois braços que não são suficientes para um mundo deste tamanho. Mas os seus ouvidos são suficientes para você. É simples. Não estou lhe impondo verdades. Apenas te sugiro um caminho. Você pode escolher. E pode não escolher. Apesar que não escolher também é uma escolha. A voz está gritando. Vai se fazer de surda? Boa sorte, minha querida. Você é mesmo muito querida."
Postou a carta na agência de correios. O destino? Seu antigo endereço. Pegou um táxi rumo ao aeroporto. O destino? Algum lugar.
a menina que queria comer nuvens
Eu gosto de brincar sozinha no meu quarto. Às vezes a dinda entra aqui, pergunta se vou almoçar. Eu não sinto muita fome. Eu nunca sinto fome. Eu cozinho pras minhas bonecas e elas sim, gostam de comer. Eu não gosto de comer, sabe. Não assim, de verdade verdadeira. Comida de mentirinha é mais gostosa. Comida de brincadeira. Minha mãe fica preocupada, ralha comigo toda hora. Mas, ah, eu não ligo pra isso. Eu não ralho com as minhas bonecas quando elas não querem comer a minha comidinha. Minha mãe não entende. Eu só quero comer nuvens. Elas são tão branquinhas e fofinhas! Cada hora é uma coisa. Nuvem de coelhinho. Nuvem de bolinho. Aí sim eu sinto fome. Eu vou lá pro quintal. Minha mãe ralha porque eu me sujo toda deitada na grama. Mas eu não ligo. Eu gosto do cheirinho da grama. E dos tatus-bola do jardim. Eu fico com fome das minhas nuvenzinhas lá do céu. O céu azulzinho, azulzinho, que nem o mar. Se bem que eu nunca vi o mar, assim, não de verdade. Só vi na fotografia. Mas eu não ligo. Eu tenho esse mar maior em cima de mim, e as minhas nuvens. É só delas que eu gosto. Minha mãe chora toda vez que eu digo que vou subir lá no céu pra comer as nuvens. Sei lá por quê. Ela fala que eu tenho que comer. Mas eu não sinto muita fome, ela sabe. Eu nunca sinto fome. Eu não gosto quando a mamãe chora, eu fico triste. Eu falo pra ela não chorar, porque o céu é bonito que nem o mar. Eu sei que a mamãe se preocupa comigo, mais ainda depois que eu não pude mais ir pra escola. Mas eu não ligo de não ir mais pra escola. Eu gosto do meu quarto. Eu gosto de deitar na grama do quintal. Eu gosto de todos os tatus-bola. Às vezes vem umas borboletas me visitar! Eu também gosto muito delas. Eu falo pra mamãe não chorar, eu falo pra ela vir deitar comigo pra ver o mar-céu. Eu queria que a mamãe também tivesse fome de comer nuvens, acho que aí ela ia ficar feliz. É sim, porque eu sempre fico feliz quando tenho vontade de comer as nuvens. Ah, mas ela só fica preocupada. E fica triste. Não sei por que mamãe anda tão triste. A gente não pode ficar triste assim, né, se a gente tem tatu-bola, e tem borboletas nos visitando! A gente tem as nuvenzinhas. Eu falo pra ela mas não adianta. Eu gosto do meu quarto. Eu peço pra mamãe abrir a janela. Eu não posso mais deitar na grama, mas eu não ligo. Eu posso ver o mar-céu da minha janela. As minhas nuvens! Elas estão me esperando. Eu vi lá fora as borboletas nos visitando. Eu gosto muito delas. Eu estou com fome de comer as nuvenzinhas. Acho que eu vou até elas. A mamãe tá chorando. Mas eu tou feliz, pois agora vou sentir o gosto delas.
27 outubro, 2008
sem título 2
não preciso de paredes
para te encontrar.
nem templos fechados
nem casas, nem prédios
arquitetura e belos vitrais.
te encontro em mim
olhando o luar.
te encontro nos olhos
daquele que me faz amar.
posso ver-te sem te olhar.
posso sentí-lo sem te tocar.
paisagem revelada.
deus.
além da minha matéria
de ser eu, e de ser nada.
para te encontrar.
nem templos fechados
nem casas, nem prédios
arquitetura e belos vitrais.
te encontro em mim
olhando o luar.
te encontro nos olhos
daquele que me faz amar.
posso ver-te sem te olhar.
posso sentí-lo sem te tocar.
paisagem revelada.
deus.
além da minha matéria
de ser eu, e de ser nada.
monstro
o monstro tem olhos largos.
olhos mais sombrios
que a névoa sobre o pântano
em noite de eclipse lunar.
são olhos frios e gordos
que se projetam sobre luzes de felicidade
emanadas nas auras dos bem amados.
não há amor nesses olhos.
nem pupilas dilatadas pelo amanhecer.
olhos duros e vazios,
sem profundidade,
sem sonho e sem querência.
olhos que desejam mal e morte
e dor e sofrimento.
encontrei-me com mil monstros
muitas vezes, sem saber.
a desilusão com a raça humana passa
como filme de terror.
olhos mais sombrios
que a névoa sobre o pântano
em noite de eclipse lunar.
são olhos frios e gordos
que se projetam sobre luzes de felicidade
emanadas nas auras dos bem amados.
não há amor nesses olhos.
nem pupilas dilatadas pelo amanhecer.
olhos duros e vazios,
sem profundidade,
sem sonho e sem querência.
olhos que desejam mal e morte
e dor e sofrimento.
encontrei-me com mil monstros
muitas vezes, sem saber.
a desilusão com a raça humana passa
como filme de terror.
21 outubro, 2008
sem título
Definitivamente te encontrei.
Olhava estrelas e pastos,
sonhava em decifrar sonhos
e os mistérios de outrem.
Te encontrei.
Não tens forma e não te vejo.
É como o vento, como um sopro,
como o ar.
Movimento.
Energia e sinergia
sinestesia
e tudo isso que me anestesia.
Te encontrei.
Deus.
Te decifrei.
Olhava estrelas e pastos,
sonhava em decifrar sonhos
e os mistérios de outrem.
Te encontrei.
Não tens forma e não te vejo.
É como o vento, como um sopro,
como o ar.
Movimento.
Energia e sinergia
sinestesia
e tudo isso que me anestesia.
Te encontrei.
Deus.
Te decifrei.
Não contem com isso
a.ban.do.no
sm (de abandonar) 1 Ação ou efeito de abandonar. 2 Desamparo, desprezo. 3 Desistência, renúncia. 4 Imobilidade, indolência, moleza. Antôn (acepções 1 e 2): amparo, proteção. A. de emprego, Dir trab: descumprimento continuado e definitivo, por parte do empregado, da obrigação de prestar serviço; fato de deixar a relação de emprego sem qualquer comunicação ao empregador. A. de serviço, Dir trab: descumprimento da obrigação de trabalhar. Pode configurar-se tanto na ausência continuada ao serviço como na acintosa inexecução de trabalho a que esteja obrigado o empregado. A. do lar, Dir: afastamento voluntário de um dos cônjuges, por dois anos, um dos motivos de desquite. Ao abandono: sem amparo, sem cuidados.
ABANDONAR-ME? NUNCA.
PREFIRO MORRER LUTANDO COMIGO MESMA!
sm (de abandonar) 1 Ação ou efeito de abandonar. 2 Desamparo, desprezo. 3 Desistência, renúncia. 4 Imobilidade, indolência, moleza. Antôn (acepções 1 e 2): amparo, proteção. A. de emprego, Dir trab: descumprimento continuado e definitivo, por parte do empregado, da obrigação de prestar serviço; fato de deixar a relação de emprego sem qualquer comunicação ao empregador. A. de serviço, Dir trab: descumprimento da obrigação de trabalhar. Pode configurar-se tanto na ausência continuada ao serviço como na acintosa inexecução de trabalho a que esteja obrigado o empregado. A. do lar, Dir: afastamento voluntário de um dos cônjuges, por dois anos, um dos motivos de desquite. Ao abandono: sem amparo, sem cuidados.
ABANDONAR-ME? NUNCA.
PREFIRO MORRER LUTANDO COMIGO MESMA!
09 outubro, 2008
S o b r a
O tempo passa, os ponteiros giram,
e eu nada deixo por aqui?
Envelhecendo nesse mundo louco e ficando louca.
Não deixando nada por aqui.
Não tenho nenhuma obra pra deixar.
Não componho
não escrevo
não pinto nem desenho.
Atuo e danço,
mas nisso meu corpo tem que estar vivo,
é efêmero,
passa logo, dali a pouco ninguém mais vai lembrar.
Nao caibo numa prateleira
nem posso me pendurar numa parede.
Não giro dentro do aparelho de som.
Eu nada deixo por aqui.
Não tenho nenhuma obra pra deixar no mundo.
Talvez não tenha sido criativa o suficiente.
Ou ousada o suficiente.
Não sei.
Cada dia sei que sei menos do que achava que sabia.
O mundo sujo tem me aborrecido, quando não emburrecido.
Tou cansada.
O que deixarei para os meus filhos?
Meu DNA e algum valor que não sei se tem valor.
Nem mais valia.
Posso olhar pra Deus? E ser cega?
Enxergar e não ver?
Não posso ter asas, ao invés de braços?
Onde vaga a liberdade que disseram que eu teria?
Por que meus sonhos moram longe,
e eu não sei que condução pegar?
Tou cansada.
Não tenho nenhuma obra pra deixar.
De mim, não sei nem se há algo pra sobrar.
e eu nada deixo por aqui?
Envelhecendo nesse mundo louco e ficando louca.
Não deixando nada por aqui.
Não tenho nenhuma obra pra deixar.
Não componho
não escrevo
não pinto nem desenho.
Atuo e danço,
mas nisso meu corpo tem que estar vivo,
é efêmero,
passa logo, dali a pouco ninguém mais vai lembrar.
Nao caibo numa prateleira
nem posso me pendurar numa parede.
Não giro dentro do aparelho de som.
Eu nada deixo por aqui.
Não tenho nenhuma obra pra deixar no mundo.
Talvez não tenha sido criativa o suficiente.
Ou ousada o suficiente.
Não sei.
Cada dia sei que sei menos do que achava que sabia.
O mundo sujo tem me aborrecido, quando não emburrecido.
Tou cansada.
O que deixarei para os meus filhos?
Meu DNA e algum valor que não sei se tem valor.
Nem mais valia.
Posso olhar pra Deus? E ser cega?
Enxergar e não ver?
Não posso ter asas, ao invés de braços?
Onde vaga a liberdade que disseram que eu teria?
Por que meus sonhos moram longe,
e eu não sei que condução pegar?
Tou cansada.
Não tenho nenhuma obra pra deixar.
De mim, não sei nem se há algo pra sobrar.
25 setembro, 2008
04 setembro, 2008
sentido
encontrar seus olhos pelas manhãs todas
ensolaradas e nubladas, todas
ouvir o canto dos pássaros
voando em bando
e a dança das folhas nas árvores
o vento suspira
as folhas e secas flores criam um manto colorido no telhado
o cheiro da terra molhada invade a casa,
depois que chove
as crianças correm pela grama verde
brincam na lama
comem as frutas dos pés
e nossos pés
sempre descalços
entrelaçados ao luar
não tocam o chão quando nos amamos
não cansamos das mesmas canções
todos os sentidos
são sentidos
quando estou contigo, meu amor.
ensolaradas e nubladas, todas
ouvir o canto dos pássaros
voando em bando
e a dança das folhas nas árvores
o vento suspira
as folhas e secas flores criam um manto colorido no telhado
o cheiro da terra molhada invade a casa,
depois que chove
as crianças correm pela grama verde
brincam na lama
comem as frutas dos pés
e nossos pés
sempre descalços
entrelaçados ao luar
não tocam o chão quando nos amamos
não cansamos das mesmas canções
todos os sentidos
são sentidos
quando estou contigo, meu amor.
03 setembro, 2008
última notícia quente
"Serra confirma plano de nova estrada entre Rio e SP "
Que ótimo!
Assim a droga chega mais rápido!!
Quem precisa de metrô, não é mesmo?
Vamos construir mais estradas para que mais carros andem nelas! É isso aí!
E viva a indústria automobilística!
Os traficantes agradecem a colaboração.
Obrigada e volte sempre!
Que ótimo!
Assim a droga chega mais rápido!!
Quem precisa de metrô, não é mesmo?
Vamos construir mais estradas para que mais carros andem nelas! É isso aí!
E viva a indústria automobilística!
Os traficantes agradecem a colaboração.
Obrigada e volte sempre!
28 agosto, 2008
Fome
sinto fome
das coisas grandes
e pequenas
fome de abraço
dos braços que longe estão
fome de olhar nos olhos
de apertar a mão
fome da presença dos amigos
que é saudade
fome da vida plena
que é felicidade
fome de beijo demorado
fome de ter ao lado
o tempo todo, meu amado
fome dos sorrisos que não se fecham
fome de lágrimas que não escorrem
fome de sonhos ainda não sonhados
fome das flores que não morrem
fome das inquietações que me movem
sinto fome
fome também é sentimento
e assim, faminta sigo,
até que a fome se esgote
ao final de meu próprio tempo.
das coisas grandes
e pequenas
fome de abraço
dos braços que longe estão
fome de olhar nos olhos
de apertar a mão
fome da presença dos amigos
que é saudade
fome da vida plena
que é felicidade
fome de beijo demorado
fome de ter ao lado
o tempo todo, meu amado
fome dos sorrisos que não se fecham
fome de lágrimas que não escorrem
fome de sonhos ainda não sonhados
fome das flores que não morrem
fome das inquietações que me movem
sinto fome
fome também é sentimento
e assim, faminta sigo,
até que a fome se esgote
ao final de meu próprio tempo.
19 agosto, 2008
Filhos
Filhos são criaturas danadas.
Vou dizer: dão um trabalho do cacete. A gente nunca mais dorme direito. Pelo menos até a figurinha atingir determinada idade, não. Bem, sei lá. As preocupações vão mesmo mudando. Talvez a gente também não durma direito com filhos adolescentes saindo pras baladas.
O investimento é alto: escola, remédio, roupa, lanche, passeio, etc. E tempo. Muito tempo.
Filhos são criaturas engraçadas.
Fazem cada pergunta! Inventam as coisas mais doidas do mundo, histórias, amigos imaginários, lugares, pessoas, bichos, situações inusitadas. Inventam e se reinventam. Tudo para um filho é brincadeira. E quando a bronca também vira brincadeira, a coisa fica séria e você tem mesmo que se preocupar.
Na verdade,o que eu quero mesmo dizer, é que ter filho é tudo de bom.
Talvez o único problema, se é que é problema, é que filho cresce.
Aquele fofinho, lindinho e cheiroso logo mais estará espinhento, com cecê e chulé e milhares de indagações. Aquela coisinha, ontem frágil, vai te enfrentar, te contrariar e te deixar, definitivamente, com os cabelos em pé.
Ou não!
Acho que eles podem ser adolescentes interessantes também. A gente pode (e deve) contar com isso.
Tudo vai depender de você, do meio em que ele vive e claro, da sua própria personalidade.
Pode contar com alguma carga genética. Se seu filho puxar aquela tia chata, você tá na roça e não tem muito pra onde correr. Mas ele também pode puxar o melhor de você, do pai ou de algum parente interessante. Ou o pior e o melhor de cada um.
Enfim. Ninguém é perfeito também.
Filhos também não são perfeitos, como pais também não são.
Independente disso, tenha consciência que filho é laço pra vida toda. Mas não é sua propriedade particular.
Uma hora eles vão querer voar mesmo por aí.
Você não quis?
Então.
Eles também vão querer.
Eles também vão ter opinião própria (às vezes, desde cedo).
Eles vão ter desejos e sonhos.
Muitas vezes, o que eles desejam e sonham pode ser algo completamente diferente daquilo que você pensa que é bom.
Acho que não devemos pensar por eles.
Devemos sim, ensiná-los a pensar.
Acho não, tenho certeza.
Não projete as suas frustrações.
Eles não merecem.
Eles merecem ser respeitados pelo que são.
Assim como você sempre quis que seus pais te respeitassem.
Isso é uma coisa doida.
Eu sou mãe e sou filha.
Quando a gente é só filho pensa de um jeito, mas quando o quadro muda, tudo muda.
Aliás, ter um filho muda tudo na vida da gente.
Ter um filho muda mesmo a gente.
No meu caso, acredito que pra melhor.
Pra muito melhor.
Eu sou uma pessoa muito mais consciente, responsável (sem perder a minha própria essência).
Eu sou uma pessoa muito mais bonita.
Eu sou uma pessoa muito mais realizada e satisfeita.
Eu sou uma pessoa muito, muito, muito mais feliz.
Isso não é cartilha.
Isso é só um pedaço de como me sinto, sendo mãe.
Quero aproveitar pra homenagear a pequena Alice que chegou neste domingo.
Quero homenagear também a nova mãezinha e o novo paizinho, Amanda e Marcus.
A pequenina é que nem sobrinha, pra mim.
Ela nasceu numa famíliona maravilhosa.
Foi muito esperada por todos.
Só quero acrescentar, nisso tudo, o quanto é bom carinho espontâneo do filho, quando ele diz "te amo".
Não é preciso mais nada.
Te ama, pura e simplesmente, por você existir.
Vou dizer: dão um trabalho do cacete. A gente nunca mais dorme direito. Pelo menos até a figurinha atingir determinada idade, não. Bem, sei lá. As preocupações vão mesmo mudando. Talvez a gente também não durma direito com filhos adolescentes saindo pras baladas.
O investimento é alto: escola, remédio, roupa, lanche, passeio, etc. E tempo. Muito tempo.
Filhos são criaturas engraçadas.
Fazem cada pergunta! Inventam as coisas mais doidas do mundo, histórias, amigos imaginários, lugares, pessoas, bichos, situações inusitadas. Inventam e se reinventam. Tudo para um filho é brincadeira. E quando a bronca também vira brincadeira, a coisa fica séria e você tem mesmo que se preocupar.
Na verdade,o que eu quero mesmo dizer, é que ter filho é tudo de bom.
Talvez o único problema, se é que é problema, é que filho cresce.
Aquele fofinho, lindinho e cheiroso logo mais estará espinhento, com cecê e chulé e milhares de indagações. Aquela coisinha, ontem frágil, vai te enfrentar, te contrariar e te deixar, definitivamente, com os cabelos em pé.
Ou não!
Acho que eles podem ser adolescentes interessantes também. A gente pode (e deve) contar com isso.
Tudo vai depender de você, do meio em que ele vive e claro, da sua própria personalidade.
Pode contar com alguma carga genética. Se seu filho puxar aquela tia chata, você tá na roça e não tem muito pra onde correr. Mas ele também pode puxar o melhor de você, do pai ou de algum parente interessante. Ou o pior e o melhor de cada um.
Enfim. Ninguém é perfeito também.
Filhos também não são perfeitos, como pais também não são.
Independente disso, tenha consciência que filho é laço pra vida toda. Mas não é sua propriedade particular.
Uma hora eles vão querer voar mesmo por aí.
Você não quis?
Então.
Eles também vão querer.
Eles também vão ter opinião própria (às vezes, desde cedo).
Eles vão ter desejos e sonhos.
Muitas vezes, o que eles desejam e sonham pode ser algo completamente diferente daquilo que você pensa que é bom.
Acho que não devemos pensar por eles.
Devemos sim, ensiná-los a pensar.
Acho não, tenho certeza.
Não projete as suas frustrações.
Eles não merecem.
Eles merecem ser respeitados pelo que são.
Assim como você sempre quis que seus pais te respeitassem.
Isso é uma coisa doida.
Eu sou mãe e sou filha.
Quando a gente é só filho pensa de um jeito, mas quando o quadro muda, tudo muda.
Aliás, ter um filho muda tudo na vida da gente.
Ter um filho muda mesmo a gente.
No meu caso, acredito que pra melhor.
Pra muito melhor.
Eu sou uma pessoa muito mais consciente, responsável (sem perder a minha própria essência).
Eu sou uma pessoa muito mais bonita.
Eu sou uma pessoa muito mais realizada e satisfeita.
Eu sou uma pessoa muito, muito, muito mais feliz.
Isso não é cartilha.
Isso é só um pedaço de como me sinto, sendo mãe.
Quero aproveitar pra homenagear a pequena Alice que chegou neste domingo.
Quero homenagear também a nova mãezinha e o novo paizinho, Amanda e Marcus.
A pequenina é que nem sobrinha, pra mim.
Ela nasceu numa famíliona maravilhosa.
Foi muito esperada por todos.
Só quero acrescentar, nisso tudo, o quanto é bom carinho espontâneo do filho, quando ele diz "te amo".
Não é preciso mais nada.
Te ama, pura e simplesmente, por você existir.
11 agosto, 2008
Eu (em tópicos)
eu não nasci há dez mil anos atrás. Mamãe me encomendou na geração mais brega do século XX;
se você não sabe qual a geração mais brega do século XX, adivinhe;
minha vida é um livro aberto (mas só até o terceiro capítulo);
eu tenho medo do cidadão de bem;
eu tenho medo da Narcisa Tamborindeguy, da Vera Loyola e da Hebe Camargo;
eu sinto vergonha alheia (principalmente ao ver Maluf e Clodovil como os mais votados em São Paulo, pra deputado federal);
eu acho que paulista consegue ser muito burro (vide constatação acima, dentre outros);
eu acredito que o inferno é aqui (o céu, de vez em quando, também é);
eu não acredito em instituições;
eu adoro bocejar em reunião;
eu tenho o nariz grande e me orgulho disso;
eu sonho, principalmente, quando não estou dormindo;
nem sempre eu acordo quando estou acordada;
eu odeio ter que escolher o que vestir, toda manhã;
eu nunca vi um chester;
meu cérebro só estabelece sinapses após 11h da manhã;
em muitos casos, títulos tem o mesmo valor que papel higiênico (cagado);
eu acredito que o futebol, em alguns níveis, causa demência séria nas pessoas;
o Big Brother, idem;
a TV aberta, então, nem se fala;
eu acredito que homem vidrado em comprar carrão tem o pau pequeno;
eu odeio shopping center;
é insuportável trabalhar num ambiente com mais de duas mulheres;
eu acredito que metrô na cidade inteira de São Paulo é a única solução para este trânsito caótico;
isso, contanto que o carro deixe de ser símbolo de status;
status de cu é rola;
eu vou pra Cuba antes do Fidel bater as botas;
eu quero que a Telefônica vá pra casa do caralho;
eu acho que a revista Veja é ótima e útil (para meu cachorro cagar em cima);
eu não tenho síndrome de vira-lata;
por isso, quem tem síndrome de vira-lata acha que sou chata e revoltada;
eu sou mesmo revoltada, e daí?
pra mim, beleza é relativa e estética não significa beleza;
eu mando recado para os burros nas entrelinhas;
eu sei que os burros, por serem burros, não vão entender as entrelinhas;
eu falo diretamente para os burros que, de tão burros, ainda assim não entendem;
às vezes eu me sinto um alien perdido nesse mundo;
a maioria das pessoas não me entende;
nem sempre eu me entendo;
eu estou falando um monte de coisas esquisitas que só eu acho que não são esquisitas;
então eu vou falar como alguém normal;
pra mim, loucura e normalidade estão no mesmo nível;
eu não sei o que é ser normal;
eu amo minha filha, muito, muito multiplicado por milhões;
eu amo minha mãe, sempre;
eu amo meus irmãos (quando não estão em casa);
eu sou ciumenta;
eu sou territorialista (mas não mijo pelos cantos);
eu detesto ter cachorro em apartamento;
meus amigos do peito são poucos, e eu os amo muito;
eu amo cozinhar;
eu amo cozinhar para os meus amigos;
eu amo ficar 5 horas cozinhando para ver todos devorarem tudo em 30 segundos;
pra mim, valor e preço são coisas totalmente distintas;
eu adoro o sanduíche de mortadela do Mercadão;
o sanduíche de mortadela do Mercadão me dá dor de barriga;
leite me dá dor de barriga;
eu sou viciada em café;
eu estou tomando café e comendo brownie enquanto escrevo essas linhas;
eu sou viciada em comprar livros;
eu sou viciada em música;
já deu pra perceber que eu sou revoltada, mas uma revoltada feliz;
eu já estou cansando de falar de mim;
eu já fiquei cansada e vou publicar a postagem;
eu não sei de muita coisa;
o pouco que eu sei eu não sei se sei;
eu não sei o que é saber;
eu não desejo muita coisa pra minha vida;
eu gosto das coisas simples;
meus sonhos e anseios são simples;
eu quero uma casa no campo, onde eu possa compor muitos rock´s rurais.
se você não sabe qual a geração mais brega do século XX, adivinhe;
minha vida é um livro aberto (mas só até o terceiro capítulo);
eu tenho medo do cidadão de bem;
eu tenho medo da Narcisa Tamborindeguy, da Vera Loyola e da Hebe Camargo;
eu sinto vergonha alheia (principalmente ao ver Maluf e Clodovil como os mais votados em São Paulo, pra deputado federal);
eu acho que paulista consegue ser muito burro (vide constatação acima, dentre outros);
eu acredito que o inferno é aqui (o céu, de vez em quando, também é);
eu não acredito em instituições;
eu adoro bocejar em reunião;
eu tenho o nariz grande e me orgulho disso;
eu sonho, principalmente, quando não estou dormindo;
nem sempre eu acordo quando estou acordada;
eu odeio ter que escolher o que vestir, toda manhã;
eu nunca vi um chester;
meu cérebro só estabelece sinapses após 11h da manhã;
em muitos casos, títulos tem o mesmo valor que papel higiênico (cagado);
eu acredito que o futebol, em alguns níveis, causa demência séria nas pessoas;
o Big Brother, idem;
a TV aberta, então, nem se fala;
eu acredito que homem vidrado em comprar carrão tem o pau pequeno;
eu odeio shopping center;
é insuportável trabalhar num ambiente com mais de duas mulheres;
eu acredito que metrô na cidade inteira de São Paulo é a única solução para este trânsito caótico;
isso, contanto que o carro deixe de ser símbolo de status;
status de cu é rola;
eu vou pra Cuba antes do Fidel bater as botas;
eu quero que a Telefônica vá pra casa do caralho;
eu acho que a revista Veja é ótima e útil (para meu cachorro cagar em cima);
eu não tenho síndrome de vira-lata;
por isso, quem tem síndrome de vira-lata acha que sou chata e revoltada;
eu sou mesmo revoltada, e daí?
pra mim, beleza é relativa e estética não significa beleza;
eu mando recado para os burros nas entrelinhas;
eu sei que os burros, por serem burros, não vão entender as entrelinhas;
eu falo diretamente para os burros que, de tão burros, ainda assim não entendem;
às vezes eu me sinto um alien perdido nesse mundo;
a maioria das pessoas não me entende;
nem sempre eu me entendo;
eu estou falando um monte de coisas esquisitas que só eu acho que não são esquisitas;
então eu vou falar como alguém normal;
pra mim, loucura e normalidade estão no mesmo nível;
eu não sei o que é ser normal;
eu amo minha filha, muito, muito multiplicado por milhões;
eu amo minha mãe, sempre;
eu amo meus irmãos (quando não estão em casa);
eu sou ciumenta;
eu sou territorialista (mas não mijo pelos cantos);
eu detesto ter cachorro em apartamento;
meus amigos do peito são poucos, e eu os amo muito;
eu amo cozinhar;
eu amo cozinhar para os meus amigos;
eu amo ficar 5 horas cozinhando para ver todos devorarem tudo em 30 segundos;
pra mim, valor e preço são coisas totalmente distintas;
eu adoro o sanduíche de mortadela do Mercadão;
o sanduíche de mortadela do Mercadão me dá dor de barriga;
leite me dá dor de barriga;
eu sou viciada em café;
eu estou tomando café e comendo brownie enquanto escrevo essas linhas;
eu sou viciada em comprar livros;
eu sou viciada em música;
já deu pra perceber que eu sou revoltada, mas uma revoltada feliz;
eu já estou cansando de falar de mim;
eu já fiquei cansada e vou publicar a postagem;
eu não sei de muita coisa;
o pouco que eu sei eu não sei se sei;
eu não sei o que é saber;
eu não desejo muita coisa pra minha vida;
eu gosto das coisas simples;
meus sonhos e anseios são simples;
eu quero uma casa no campo, onde eu possa compor muitos rock´s rurais.
05 agosto, 2008
da ralé viestes, pra ralé voltarás!
Pois é, eu sou da ralé e tanto já me ralei com a ralé, que gosto de ser ralé, tenho orgulho da ralé, sou gente e sou ralé, pois é, gosto de ser amiga do Zé, Zé Ninguém, Zé Ralé, tudo Zé, eu sou Zé e sou ralé, porque na ralé o pé tá livre, a ralé gosta do chinelo de dedo e tudo mais que não dói o pé, é livre o pé, o corpo é livre, radical livre que faz bem, ser ralé é ser radical livre que faz bem porque ser livre é ser radical e ser bem, e na ralé me ralo, fico amiga da faxineira, do segurança, do peão da obra, do pintor, do montador, da ralé que bate prego, atende telefone, aperta botão do elevador, limpa esfrega enxuga enxagua pra santa diretoria de cu é rola poder pisar com seu scarpin de mil reais, a ralé nem cheira a mil reais, a ralé se rala no salário mínimo, tão mínimo, no máximo que é ser ralé, porque a ralé é a gente sem dente, é gente sem dente e sem pente, mas é gente, é ser, é ralé de onde vim venho e vou, ralé que não tem pensamento ralo como narcisas e loyolas, e seus cachorros e seus condomínios gaiolas, sou ralé, não jogo ovos pelas janelas e não bato em travestis, sou ralé, amiga das domésticas que tem samba no pé, é bom ser ralé, a ralé feliz, a ralé que mesmo sem nada pode tudo, porque tem vontade, a ralé também tem vontade e sabe e mostra bem sua arte, arte de ralé, a ralé poesia música pinta borda samba sonho espírito elevado de ralé, somos todos Zés, tudo Zé Ralé, nem aristocracia pode com a ralé a monarquia de cu é rola a socialite de cu é rola e como sou ralé falo palavrão e mando tomar no cu esse bando de cuzão eu sou feliz ralé feliz ralei ralé.
04 agosto, 2008
Frutos e flores
Meu amado me diz
que sou como maçã
cortada ao meio.
As sementes eu tenho
é bem verdade.
E a simetria das curvas.
Tive um certo rubor
na pele lisa
que não sei
se ainda tenho.
Mas se em abril floresce
a macieira
eu maçã feita
e pra lá de madura
ainda me desdobro
em brancas flores
cada vez que sua faca
me traspassa.
(Marina Colassanti)
que sou como maçã
cortada ao meio.
As sementes eu tenho
é bem verdade.
E a simetria das curvas.
Tive um certo rubor
na pele lisa
que não sei
se ainda tenho.
Mas se em abril floresce
a macieira
eu maçã feita
e pra lá de madura
ainda me desdobro
em brancas flores
cada vez que sua faca
me traspassa.
(Marina Colassanti)
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