Sálvio Silva, temido apanhador de cascavéis, cansado de urubuzar a vida destes pobres crotalídeos, certo dia resolveu bandonear por outras ilhas, trocar sua função de vida, quão difícil era apanhar cascavéis, essas bichas venenosas, barulhentas e cruéis. Apesar de não temê-las, achava que sua missão de apanhador havia de se encerrar, uma vez em que a prefeitura logo lhe iria exonerar, haja visto o tamanho problema que Sálvio certa hora arrumou em sua cidade, quando resolveu apanhar misteriosamente a primeira-dama, dona Getulina, perigosa cascavel de vereda, que andou se engalfinhando às escuras com um tocador de pífanos, seo Deoclécio. Pega de surpresa em sua empreitada, dona Getulina gritou com tanta força, mas tanta força, que até os mortos pularam das catacumbas, os bichos fugiram do zoológico, os padres se renderam ao diabo e a pequena população de Boiúna correu mato adentro, acreditando que o apocalipse finalmente havia chegado.
Passado o tumulto, Sálvio Silva finalmente decidiu que não servia mais para a função de apanhador de cascavéis, fugiu com a roupa do corpo com medo de linchamento, instalou-se na cidade vizinha, agora com nova função, de apanhador de galinhas.
Se todo mundo pensasse seriamente no absurdo que é tudo isso de ser feito de carne, mas também olhar as estrelas, de ter um rosto, mas também ter aquele buraco fétido, se todo mundo tivesse o hábito de pensar, haveria mais piedade, mais solidariedade, mais compaixão e amor. Hilda Hilst
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22 setembro, 2009
29 maio, 2009
dunas
meu coração é beira de mar
bordejado por dunas
de medos, de amores
esses montes de areia
que a vida, feito vento
carrega pra algum lugar.
bordejado por dunas
de medos, de amores
esses montes de areia
que a vida, feito vento
carrega pra algum lugar.
28 maio, 2009
22 maio, 2009
brinde
No fundo
toca a música
do mundo,
tilintar de copos,
gente a gargalhar.
Eu, aqui, pensando
com meus pontos
brindo com poesia
na mesa do bar.
toca a música
do mundo,
tilintar de copos,
gente a gargalhar.
Eu, aqui, pensando
com meus pontos
brindo com poesia
na mesa do bar.
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