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03 novembro, 2011

das importâncias

... e uma hora ela soube que as coisas mais absurdamente importantes eram justamente aquelas dais quais ela não dava importância alguma...

trato

Eu e a vida fizemos um trato:

eu não tento resolvê-la, e ela não tenta me resolver.

Estamos quites.

08 outubro, 2010

sendo

Compilando o que sou e fui, sigo sendo. Abrindo o armário único do quarto reencontrado, olho um espelho. Empurrei com o velho gesto a mesma porta. Sobra um trinco em minhas mãos. O velho gesto se dilui na minha função de habitar, desgastada neste corpo que não esquece. Este corpo feito de variações sobre um mesmo tema fundamental.

04 janeiro, 2010

festejo

Com ar de festa desejo os sentimentos urgentes e seus momentos de pequeno alcance; a divindade das horas que despertam imagens apagadas; as considerações sobre a vida que ultrapassam palavras; as imprevisíveis liberdades conquistadas, irreparáveis e inconstantes; as simplicidades de uma consciência cintilante. Nosso devir de expressão, a nossa poética isolada contaminando a multidão.

10 dezembro, 2009

da subjetividade do ser

Outro dia me olhei no espelho e questionei se aquilo que eu via era uma representação da minha mente, se era real ou um pensamento dominante. De tão volátil e efêmera, sem duração, me senti um personagem de ficção, uma idéia vã de uma imaginação sem fundamento. Respirei fundo, olhei de novo e só consegui chegar a uma única conclusão: eu sou um devaneio.

Depois daquele dia, nunca mais me vi.

08 dezembro, 2009

paragem

Quero a próxima estada a beira-mar
- cura e repouso -
que os cantos urbanos inspiraram cansaço.
E se posso e passo, de mala em punho
pra uma paragem de céu e água,
o amor fazendo companhia,
flores na estrada,
desta vida quero eu mais nada...

Que tudo seja sonho e canção
e passarinhos pousando na janela...

07 dezembro, 2009

frustração

Tentei buscar o significado dos meus sentimentos no dicionário, mas só encontrei palavras sem sentido.

da emergência vital

Sentimentos maciços recaem sobre minha cabeça e não entram no vocabulário dos homens. Transmito meu entusiasmo de uma alma à outra por outra forma de comunicação; elas dão as mãos e se convidam: vamos tonificar a vida? Viver a experiência salutar da emergência, o pulo do impulso essencial, sendo assim, renovada, a vida se mostra por sua vivacidade quando tudo tornado poesia seja, dentro, fenômeno da nossa liberdade.

11 novembro, 2009

apagão

Apagões podem ser muito produtivos. Pela casa ressoavam os belos sons do velho piano de minha mãe. Ela empolgada em recuperar seus repertórios de memória, e eu ninando criança e cachorro com vocalises improvisadas. Para os vizinhos, funcionou como berceuse para dormir cedo, aproveitando o ensejo da escuridão. Ainda bem que piano e voz não necessitam de luz elétrica pra funcionar. A luz que eles necessitam é outra.

21 outubro, 2009

(m)eu-poema

Queria ganhar um poema que dissesse algo sobre mim...
um poeminho análise.
Sem julgamentos.
Um poeminha injusto e indiferente
mas que diga de fora aquilo que não posso ver.
Pode ser um soneto,
ou um hai-kai...
denso e discreto,
discurso direto
ou indireto.
Entrelinhas são desnecessárias.
Que as sutilezas todas sejam entendidas.

Eu peço um poema pra mim.

Mas o mundo é tão vasto e louco,
a vida tão séria e sem juízo,
o universo tão infinito e incompreensível.
Por que um poema pra mim?
Justo pra mim?
Olho tudo à volta e caio na real:
não mereço um poema.
Só os poemas que me merecem.
Reduzo-me à minha insignificância,
à minha invalidez dentro disso tudo,
a minha falta de talento de ser musa,
de ser obra terminada,
pois sou a ruína de um edifício em construção.

Eu-poema?
Acordo e dou por mim
nem receio mais quando me lembro
que palavras não fazem curva
quando bate o vento.

do risco

No embate entre desejos e possibilidades, sigo tentando, muitas vezes errante... ainda assim, prefiro o risco e suas consequências à inércia que mata vagarosamente.

dúvida

Pairam dúvidas em meu ar
e não respiro.
O coração põe-se a palpitar:
por que? por que? o quê? o quê?
Mil perguntas a pulsar.

Sou precipitada, um exagero de gente.
Chego a ser até caricata.
Mas pelo menos sou transparente...

Só que a transparência pode se confudir
com o invisível.
É aí onde morrerá meu medo,
quando terei tornado a mim
o intangível.

17 setembro, 2009

degradação

Não tenho medo de degradar-me. Que me venham as rugas, os cabelos brancos e uma sabedoria que se compõe na medida da decomposição. Antes a degradação de sentar-me os dias em jardins floridos, de bocas abertas e ouvidos devotados aos céus espreitando pássaros, no aguardo paciente da culposa senhora ceifeira de vidas que não avisa quando vem, a rebaixar-me a dignidade e a grandeza de toda minha pequenice. Degradar-se de ser feio verbo reflexivo e suas visagens que nos causam sustos por conter nas entre-sílabas a fatalidade. Ainda não receio a ordem das coisas; os olhos flamejam por chamas dançantes que queimam calendários. Degrado-me vagarosamente, sujeita a modificar a substância das minhas estações. Dentre minhas chuvas ainda não caídas e constelações perdidas, desejo o simples das coisas. Quero apenas, ao longo, conjugar-me.

31 agosto, 2009

coexisto

relativa
coexisto em virtude
de uma causa extrínseca
de uma cousa intrínseca

não sou essencial
mas verossímil
provável
necessária
e plausível

sou inútil

ínsipida e inodora
mas nunca incolor

uma incógnita
uma variável
em gênero, número e grau
alguma coisa de valor
independente do sinal

portanto
tornei-me inerente a mim
para nunca estar sozinha
até o final.

24 agosto, 2009

rito

Em face de tua face
serena e terna
mantive-me entregue
ao rito de Eros
- este culto especial -
nosso deleitoso desígnio.
Na dramaturgia das horas
perdi-me preenchida
de teus caminhos,
inundada fartamente
por teus rastros
que dentro de mim seguiam.
De emoção terna
fui tomada
ao alcançar o cume.
E o mundo lá fora era um vazio,
pois construímos um universo
entre as paredes
que por nós sorriam, suadas
por tantos deslocamentos
de carícias e carinho.
De sensações, compusemos
grande peça orquestral:
doçura deliciosa de nossos sons,
como assim conjugo agora
tal obra em verso,
inspirada por delicados sentimentos.
Da dedicação íntima destes anseios,
resta a cerimônia suave e demorada
que não cansa.

Que não cansa.

E não cessa.

18 agosto, 2009

liaison

À procura de um rumo profundo, penetrante no interior dos corpos e suas moléculas, ela o convida a caminhar por sobre o bruto artefato de sua couraça animal, fina e macia, feito tecido de algodão. Ele, em toda graça de sua imaginação, tateia o invólucro como uma aventureiro em exploração, e ela se arrepia por toda eletricidade de suas mãos, duas estrelas irradiando energia em seus volumes, transfigurando a abundância de sua formas. Sobrepostos e invertidos, imprimem nos lençóis rastros luminosos em pura revolução orbital, e os olhos fixos em firmamento cintilam, até Vênus despir-se para eles, pouco antes do amanhecer, despreocupadamente nesta verve pululante do querer.

12 agosto, 2009

folguedo

Como se fora música, a coisa descrita
não se calça de meros adjetivos.
De fato memorável a ousadia grita
sem delongas racionais:
prazer inopinado que nos causa a vista,
coisa que surpreende, espanta e agita.
É substância pura e inamovível,
em sua conjugação de ser verbo defectível.
Tão tomados pelo labor, tão distraídos
não percebiam, no calor da movimentação,
olhares curiosos que no entorno não abatiam
em momento algum tal grau de excitação.
Ao céu o corpo celeste em órbita elíptica,
a iluminar alma e matéria em conexão plena,
arrebatadas por excessiva inspiração.

Da ligadura entre dois corpos que comunicam
júbilo, deleite e satisfação;
deste lugar onde se passa de um ponto a outro
como acordes formados em sucessão,
evocação agradável aos ouvidos, pele, mãos,
que em regozijo lascivo fez-se canção.

Dois artistas em ruidosa alegria
exaltados em intensa e sublime criação.

01 agosto, 2009

ancestral

moço robusto de olhos verdes
carregando peso de sacos de farinha
a vender sábado na feira
pé descalço na estrada quente
pés de areia

em seu andar depressa no interior das alagoas
deu-se a topar com meia dúzia de cangaceiros
de lamparina acesa a tropa de lampião
corrida a fuga a deixar os seus lá atrás
atravessando brasis a procurar outro verão.

Para meu avô Ilídio, olhar de mar de saudades.