08 abril, 2007

Tabacaria

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.


Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a por umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.


Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.


Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.


Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei de pensar?


Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Gênio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chuva, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.


(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)


Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, em rol, pra o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.


(Tu que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei quê moderno - não concebo bem o quê -
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)


Vivi, estudei, amei e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente


Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.


Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-me como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.


Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com o desconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,


Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.


Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?)
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.


Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma conseqüência de estar mal disposto.


Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.


(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.
O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.

Álvaro de Campos

20 março, 2007

Convite

Não sou a areia
onde se desenha um par de asas
ou grades diante de uma janela.
Não sou apenas a pedra que rola
nas marés do mundo,
em cada praia renascendo outra.
Sou a orelha encostada na concha
da vida, sou construção e desmoronamento,
servo e senhor, e sou
mistério

A quatro mãos escrevemos este roteiro
para o palco de meu tempo:
o meu destino e eu.
Nem sempre estamos afinados,
nem sempre nos levamos
a sério.

Lya Luft

15 março, 2007

de passagem

Até certo tempo atrás eu tinha medo da morte, achava que morrer deveria ser uma sensação horrível. Depois de tanto apanhar na vida, eu perdi esse medo. O descanso eterno deve ser como uma libertação. Algo como aquele sono profundo que a gente tem depois de um dia exaustivo.
Sei lá porque é que estou dizendo isso. Talvez porque eu sinta que, quase sempre, morre um pedacinho de mim para um outro poder nascer. Uma célula, uma idéia, um pensamento.
A vida é morte-vida, mas a morte - ah, a morte! - é só morte mesmo.

Parente

Parente é serpente
Mente e desmente
Exaustivamente.

Seja paciente
Seja tolerante
Seja demente
Como todo bom parente.

Ou pelo menos tente
Não levar uma vida doente.

Coloque seus parentes
Entre parênteses.
E veja como tudo muda
De repente.

Ecologia Poética

Salve uma palavra antes que morra no senso comum

por Fabrício Carpinejar

Como pensar em ecologia sem incluir a preservação das palavras? E com a ecologia das palavras, quem se preocupa? E os lençóis subterrâneos da fala que são contaminados pelo sarcasmo, pelo cinismo e, sobretudo, pela indiferença, quem cuida de sua prevenção?
Corremos o risco de perder a natureza quando deixamos que a linguagem fale em nosso lugar e não mais falamos por ela. Quando somente transferimos a responsabilidade de dizer e de nomear pelo ato de repetir.
Não é o comportamento que condiciona as palavras. Mas as palavras formam o comportamento. As palavras são o comportamento. Somos palavras.
De que adianta separar o lixo seco do orgânico se não separamos a linguagem orgânica da seca em nossa rotina? E a coleta seletiva da língua, onde fica?
De que vale cuidar do desperdício de água se não cuidamos também do desperdício de linguagem?
Não será igualmente criminoso usar palavras desnecessárias, sem entusiasmo, sem força de vontade, sem alegria? Por descaso ou por descanso. Para ser compreendido e não pensar. Pela pressa, sendo que a pressa aumenta o esquecimento, inibe a lembrança.
Por dia, quantas palavras são reproduzidas desprovidas de sentido? Lançadas na terra como latas de alumínio, que demoram mais de um século para se decompor.
Um lugar-comum é tão poluente quanto pilhas e baterias do celular. Expressões que nada têm de pessoal, que não permitem a descoberta ou o deslumbramento, estancam a circulação do afeto. Cessam o gosto de falar. Interrompem o gosto de ouvir.
Quantos fósseis são abandonados no cotidiano do idioma, quantos verbetes esperam sua chance de tratamento no aterro sanitário do dicionário? Será que não viramos fantasmas se portamos uma língua morta?
Poderíamos latir, poderíamos miar, poderíamos uivar, tudo isso é ainda comunicação. Mas falar não é somente comunicar, é se comprometer com a direção do timbre.
Palavras são de vidro. Palavras são de metal. Palavras são de plástico. Palavras são de papel. Não se pode colocar todas com o mesmo peso, no mesmo destino. É preciso discerni-las. Uma criança me entenderia.
Tolerância, por exemplo, é de vidro. Reboa por dentro. Faz volume antes de acabar. Não pode ser jogada fora, pois levará milhões de anos antes de virar pó.
Respeito, por sua vez, é de metal. Inteiriça. Difícil de quebrar. Fala-se de uma única vez como uma lâmina.
Condescendência é de papel, o acento vai lá no fim, suscetível aos rasgos da tesoura e das mãos ansiosas. Soletre, veja, imagine. Deite a voz, não fique de pé.
Assim como reciclamos o lixo, as palavras dependem da renovação. Mudar a ordem, produzir significação, exercitar gentilezas, valorizar detalhes. Não deixá-las paradas, desacompanhadas, viúvas.
Talvez seja daí minha incompetência em me desfazer do arranjo de rosas que recebo no aniversário de casamento. Desligo as pétalas do miolo e espalho as rosas nos livros. Fazem sombras para as frases.
É poluente dizer ao filho “nem se parece comigo” para ameaçá-lo. Uma convenção a que a maioria recorre para se livrar do cuidado, sacrificando um momento de particularizar sua experiência paterna e materna. Por que não procurar afirmar “você se parece comigo mesmo quando não se parece”?
Ou há algo mais solitário e desolador que resmungar “eu avisei” para sua mulher quando ela erra? Mostra que já a estava condenando antes de qualquer resultado e atitude. Em vez de cobrar, por que não compreender? Transformar o lixo hospitalar (sim, corta-se um braço dela com essa sentença) em adubo de frutas com a simples concisão de “a gente resolve”.
São períodos postiços, artificiais, fingidos, que corrompem a respiração. Ao encontrar um colega antigo, logo nos despedimos: “Vamos nos ligar?” Isso significa o contrário, não vou telefonar nos próximos três anos.
Até que ponto não se empregam palavras para se esconder o que se quer, para disfarçar, para ocultar? Quantos sinônimos para não dizer absolutamente nada. Para se afastar do que realmente se desejava declarar. Foge-se da palavra certa pela palavra aproximada. Uma palavra vizinha não mora no mesmo lugar da verdade.
Palavra é sentimento. Mas – cuidado – as palavras não podem sentir sozinhas.
Palavra é poder. Ao esgotar seu significado, esgotamos nossa permanência.


** publicado na revista Vida Simples, edição de março de 2007.

05 março, 2007

Aqui

Não uso palavras bonitas, não faço brincadeiras com as palavras dos dicionários e seus significados, não devoro enciclopédias. Eu gosto de ler. Só isso. Tão simples... ler. Encontrar um mundo novo e ser sorvida por ele. Vários mundos. Todos desenhados pelas palavras.
Este foi o espaço que encontrei para “vomitar” coisas que sinto, gosto, percebo. Nem sempre organizo bem as idéias, minha cabeça trabalha a todo vapor, eu escrevo o aqui já pensando no lá, e assim esse trem vai seguindo pelos trilhos, sem lugar certo para chegar.
Não pense você, que chega agora, que encontrará aqui críticas rebuscadas sobre os filmes que vejo, os livros que leio e as peças que assisto. Não. Posso até fazer referência a eles, mas sempre na tentativa de trazer o olhar para o sentimento, a emoção, a dúvida que ronda a nossa existência. E os que são citados só o são porque conseguiram despertar alguma coisa em mim, ruim ou boa.
Então, fique sabendo que absolutamente tudo que escrevo aqui é para mim mesma. Mesmo assim, acho bacana poder compartilhar isso com outras pessoas.
Eu criei um botequim virtual onde, na grande maioria das vezes, me encontro sozinha, sentada numa mesa, brindando comigo mesma esse tufão de emoções.
Quer participar? Então puxe uma cadeira, peça sua bebida e sinta-se à vontade...

A arte de irritar pessoas ou a cartilha do pseudo-sucesso

Primeira regra básica: diga a todo mundo que você é a encarnação de alguém famoso, como Galileu, Da Vinci, Platão, Mário de Andrade, Leila Diniz, Napoleão Bonaparte, Marlon Brando, Jesus Cristo... A lista é grande, portanto, seja sábio em sua escolha.


Segunda: realize algum ato público em prol de alguma coisa, de preferência acompanhado por uma massa de gente que acredite piamente no seu ser encarnado, a turba convencida e ensandecida de que está fazendo algo em nome de alguém. Pode mostrar a bunda em praça pública, defecar no saguão de mármore da prefeitura, jogar ovos na careca do governador, entrar de bico na festa de casamento de algum famoso da revista Caras e ainda arrumar aquele barraco quando for expulso pelos seguranças (importante: não esqueça de citar o “quem sou eu” para chamar a atenção da imprensa).


Terceira: candidate-se ao próximo Big Brother. Você, que já encarnou alguém famoso, acha que não há problema nenhum em ficar famoso só mais um pouquinho e, quem sabe, ganhar de quebra o carro do ano, uma ponta no programa Zorra Total ou na novela das oito. Pois mesmo encarnado Marlene Dietrich ou Getúlio Vargas, você continua pobre. No caso de ter encarnado Jesus Cristo, uma ótima opção é procurar alguma igreja neopentecostal pentelha, que lhe entregará as chaves do baú do tesouro. E não se esqueça de abrir algum debate no programa da Luciana Jimenez.


Quarta: coma mortadela e arrote peru. A encarnação de Tutancámon deve, como todo bom faraó, adorar o luxo e a riqueza. Ninguém precisa saber que o seu Mercedes-benz de 150 mil dólares será pago em suaves prestações, pela eternidade. Leve esse segredo para o túmulo, de preferência.


Quinta: lance um livro auto-biográfico e deixe o Chico Xavier de escanteio. Para quê psicografia, quando você mesmo pode contar, em vida, a história de sua vida passada e da atual? Aproveite para se candidatar a uma vaga na Academia Brasileira de Letras. Uma vez em que até o Ivo Pitanguy já tem sua cadeira garantida, você que é a própria encarnação do Camões terá grande chance de ser eleito.


Sexta: arrume um casamento. Seja com uma ex-prostituta ou com um guarda municipal, o importante é que seja da “ralé”. Nada mais chique do que um famoso como você, a própria encarnação de Luís XV, casar-se com um subalterno, com alguém da plebe, para fazer jus à teoria do “os seres humanos são iguais”. Pague um milhão para o seu esposo/esposa arrumar um amante, e corra aos prantos para os jornais. Depois, xingue os jornalistas e fotógrafos e compre um horário no programa do Faustão, onde você perdoará publicamente o autor/autora da sua dor de corno. Repercussão máxima.

Obs.: Se depois de todas essas tentativas você não atingir o sucesso, vá fazer alguma coisa de útil na vida, seu idiota!

28 fevereiro, 2007

Estranho, louco, ou algo assim

É tudo muito estranho. Pelo menos, na maioria das vezes. Sinto que a liberdade só existe para quem, um dia, esteve preso.

Eu me sinto presa, por algemas invisíveis. São várias: prendem os pés, as mãos, a cabeça. Tateio no escuro para procurar as chaves. E pago um preço caro por querer soltá-las.

Essa conquista pela liberdade moral é perigosa: você se torna um ser incompreensível, você é louco, é insano, “não se adequa ao perfil”. Os porquês todos vêm de brinde no “kit padrão”, podem te transformar num estereotipo.

Se eu realmente sou louca, por que tenho que me justificar? Não tenho que ficar explicando “sou assim porque...”. É algo muito simples, como alguém me questionar por que eu prefiro cu de leão a pé de porco. Oras, eu não gosto de pé de porco e adoro cu de leão (obviamente eu nunca comi cu de leão, e nem vou comer. É, no mínimo, arriscado ou indigesto).

Mil explicações e questões pela vida afora.

Acho que se eu realmente me sentisse normal (o que é ser normal?), com certeza não jogaria estas palavras aos ventos. Bem, até posso ser normal fazendo isso, mas prefiro não classificar, porque a normalidade é subjetiva, relativa e realmente difícil de entender. Assim como a própria noção de realidade.

Essa coisa de mexer com o eu, o EGO, a individualidade, é séria, arriscada, dá medo nas gentes. E quando falo tudo isso é porque já estou cansada de ter que explicar tudo a todos, o tempo todo. Eu também me questiono, minha gente! Todos os dias.

Eu e meus vazios (as gavetas nem sempre estão cheias), meus ais, minhas cicatrizes.

O que não deve acontecer – e muito acontece – é buscar as respostas certas para as perguntas erradas.

“Se você me achou esquisita, respeite também. Até eu fui obrigada a me respeitar” (Clarice Lispector).

24 janeiro, 2007

Filme real

Gosto de andar na rua observando as pessoas que passam, tentando ver para onde vão, quem são elas, o que pensam? Ouço as conversas em trechos, as histórias nunca são as mesmas, a que começa aqui não é a que termina lá...
A cidade se movimenta, os carros correm pelas ruas, os cachorros cheiram as quinas, a fumaça sobe, a cor do semáforo muda, as pessoas falam, se agitam, gritam, algumas choram, outras sorriem, outras falam sozinhas... As folhas dançam nas poucas árvores que consigo ver, e através delas avisto os outdoores, os letreiros, as faixas... as palavras estão aqui, ali, em cima, do lado, de vários ângulos, formas e cores... as palavras falam sozinhas no cinza, alguém terá de escutá-las.
Caminho e dentro de mim a música escoa, me toca, e os ângulos que vejo já estão em outra dimensão.
A vida como um filme real, onde o único diretor sou eu.

20 janeiro, 2007

O vento e a sombra

Às vezes me sinto como um cego que precisa apalpar o mundo para vê-lo.
Tento tocar as coisas por aí, até aquelas impossíveis de serem tocadas, aquelas que não são palpáveis...
Como se, com meus dedos invisíveis, tentasse pegar o vento que sopra em minha face quente.
Você veio como o vento, e apenas num sopro me pegou. Como posso alcançá-lo? se apenas passa por mim, e me toca, mas não me vê?
Sou apenas uma sombra. Preciso da luz para existir.
Há tanto sou a sombra que espera que o vento venha com toda sua força, e com tanta força me carregue para algum outro lugar desconhecido.
Me acaricia com seu sopro, ó vento, e com sua força carrega essa sombra que precisa de mais luz para crescer, para se expandir para algum lugar maior.
Assim nos aventuremos, eu e tu, sombra e vento, dançando pelas paisagens.
Mesmo que não nos vejam, e mesmo que nós não nos vejamos, carregamos conosco, onde for, o conforto de saber que ao menos nos percebemos. Nos sentimos.
Em toda sutileza, existimos.

16 novembro, 2006

A Morte Devagar

Morre lentamente quem não troca de idéias, não troca de discurso, evita as próprias contradições.

Morre lentamente quem vira escravo do hábito, repetindo todos os dias o mesmo trajeto e as mesmas compras no supermercado. Quem não troca de marca, não arrisca vestir uma cor nova, não dá papo para quem não conhece.

Morre lentamente quem faz da televisão o seu guru e seu parceiro diário. Muitos não podem comprar um livro ou uma entrada de cinema, mas muitos podem, e ainda assim alienam-se diante de um tubo de imagens que traz informação e entretenimento, mas que não deveria, mesmo com apenas 14 polegadas, ocupar tanto espaço em uma vida.

Morre lentamente quem evita uma paixão, quem prefere o preto no branco e os pingos nos is a um turbilhão de emoções indomáveis, justamente as que resgatam brilho nos olhos, sorrisos e soluços, coração aos tropeços, sentimentos.

Morre lentamente quem não vira a mesa quando está infeliz no trabalho, quem não arrisca o certo pelo incerto atrás de um sonho, quem não se permite, uma vez na vida, fugir dos conselhos sensatos.

Morre lentamente quem não viaja, quem não lê, quem não ouve música, quem não acha graça de si mesmo.

Morre lentamente quem destrói seu amor-próprio. Pode ser depressão, que é doença séria e requer ajuda profissional. Então fenece a cada dia quem não se deixa ajudar.

Morre lentamente quem não trabalha e quem não estuda, e na maioria das vezes isso não é opção e, sim, destino: então um governo omisso pode matar lentamente uma boa parcela da população.

Morre lentamente quem passa os dias queixando-se da má sorte ou da chuva incessante, desistindo de um projeto antes de iniciá-lo, não perguntando sobre um assunto que desconhece e não respondendo quando lhe indagam o que sabe. Morre muita gente lentamente, e esta é a morte mais ingrata e traiçoeira, pois quando ela se aproxima de verdade, aí já estamos muito destreinados para percorrer o pouco tempo restante. Que amanhã, portanto, demore muito para ser o nosso dia. Já que não podemos evitar um final repentino, que ao menos evitemos a morte em suaves prestações, lembrando sempre que estar vivo exige um esforço bem maior do que simplesmente respirar.

Martha Medeiros

14 novembro, 2006

Dos nossos males

A nós bastem nossos próprios ais,


Que a ninguém sua cruz é pequenina.


Por pior que seja a situação da China,


Os nossos calos doem muito mais...

Mário Quintana

08 agosto, 2006

Tô sem tempo

Estou sem tempo
estou sem saco
pra escrever aqui.

Logo mais eu volto,
podem esperar.

Eu sei que volto
porque a minha verborragia
é difícil de segurar.

13 maio, 2006

Apaixonite aguda

Quando estou longe
Quero ficar perto
Quando estou perto
Quero ficar dentro
Quando estou dentro
Quero ficar mudo
Quando estou mudo
Quero dizer tudo

(Itamar Assumpção)

05 maio, 2006

Fresta

Não administre conflitos que não sejam seus.
Não ouça ninguém sem ouvir a si mesmo.
Não seja o que querem, seja o que quer.
Seja.
Não seja, se não quiser.

Não abandone tudo que lhe resta,
quando, olhando o todo,
não se enxerga a fresta.

Madrugada

Ah! De madrugada
é quando mais sonho acordada.

29 abril, 2006

Mãe da Rua

A Mãe da Rua é feminina, mas não mulher.
É um homem que nasceu com sensibilidade materna,
e tentou virar mulher.
Travestiu-se com seios de silicone,
virou a dama de todos os vagabundos.
É bonita e torta,
tem um braço quebrado
e uma perna quase morta.
Deve ter apanhado muito.
Ela me diz "bom dia" toda manhã
quando passo a caminho do trabalho.
Me deseja "bom serviço!",
acenando e sorrindo.
Ela é doce e delicada com os amigos
mendigos, maltrapilhos,
que compartilham o mesmo pedaço de calçada,
o mesmo pedaço de colchão de papelão,
às vezes o mesmo cobertor poído.
Mãe da Rua é vaidosa,
está sempre de rímel nos olhos
e unhas pintadas.
Apazigua as brigas da rapaziada,
dá comida na boca do bêbado
que se recusa a comer.
Mãe da Rua é o nome que eu criei
para esta figura anônima aos olhos dos transeuntes.
Ela não tem casa,
não tem dinheiro
nem dignidade.
Não sei seu nome,
nem sua idade.
Só sei que é triste
passar por ali todos os dias
e vê-la, sempre do mesmo jeito,
com toda simpatia,
até alguma beleza que foi mesmo beleza um dia,
a alegria dos miseráveis.
É triste porque a gente acaba se acostumando,
e assim nem ligando
para o que acontece ali.
A gente acaba abstraindo,
que do lado de lá da nossa janela,
existem milhares de pessoas
vivendo como vira-latas
nas grandes metrópoles.
Um dia um grande amigo disse:
"a gente é do tamanho dos nossos sonhos".
Essas pessoas sonharam,
ou tiveram pesadelos?

21 abril, 2006

06 abril, 2006

Sossega coração

Sossega, coração! Não desesperes!
Talvez um dia, para além dos dias,
Encontres o que queres porque o queres.
Então, livre de falsas nostalgias,
Atingirás a perfeição de seres.
Mas pobre sonho o que só quer não tê-lo!
Pobre esperança a de existir somente!
Como quem passa a mão pelo cabelo
E em si mesmo se sente diferente,
Como faz mal ao sonho o concebê-lo!
Sossega, coração, contudo! Dorme!
O sossego não quer razão nem causa.
Quer só a noite plácida e enorme.
A grande, universal, solene pausa
Antes que tudo em tudo se transforme.

Sossega coração e adormeça !

Fernando Pessoa


31 março, 2006

Lirismo

Estou farto do lirismo comedido
do lirismo bem comportado
Do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente protocolo e manifestações de apreço ao Sr. diretor

Estou farto do lirismo que pára e vai averiguar no dicionário o cunho vernáculo de um vocábulo

Abaixo os puristas

Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais
Todas as construções sobretudo as sintaxes de exceção
Todos os ritmos sobretudo os enumeráveis

Estou farto do lirismo namorador
Político
Raquítico
Sifilítco
Do lirismo que capitula ao que quer que seja for a de si mesmo.

De resto não é lirismo
Será contabilidade tabela de co-senos secretário do amante exemplar com cem modelos de cartas e as diferentes maneiras de agradar às mulheres, etc.

Quero antes o lirismo dos loucos
O lirismo dos bêbedos
O lirismo difícil e pungente dos bêbedos
O lirismo dos clowns de Shakespeare

Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.

Manuel Bandeira

08 fevereiro, 2006

O real valor do dinheiro

Outro dia, depois de analisar o meu falido extrato bancário, fiquei pensando no por quê do ser humano ser tão escravo do dinheiro.
Por causa de dinheiro, as pessoas se anulam, se matam, se degladiam, adoecem e o pior, acreditam piamente que é a fórmula da felicidade.
Se o ser humano diz que sem dinheiro não se vive, é porque ele mesmo criou esta necessidade ao mundo, e isto chegou a tal ponto que para mudar a situação só se o mundo explodir e nascer de novo.
Imagine se toda a energia que jogamos ao trabalhar só pra ganhar dinheiro, pra pagar contas, para comprar isso ou aquilo, fosse aplicada no amor, na criatividade, no cuidado com a natureza, como seria o mundo e as pessoas que nele vivem?
Eu olho para aquele pedaço de papel e fico pensando qual o real valor do dinheiro, porque o valor que atribuimos a ele é mais abstrato que qualquer pensamento ou sentimento, e só pode ser lógico porque é um valor numérico, consequente da aritmética e da matemática.
Infelizmente, neste sistema que criamos, somos obrigados a perder boa parte de nossa vida correndo atrás destes pedacinhos de papel, destes numerozinhos virtuais nas maquininhas bancárias, que agem como um medidor das nossas alegrias e tristezas.
Quando as pessoas perceberem o real valor do dinheiro, entrarão em desespero para recuperar o tempo, o amor , a saúde, as alegrias, os amigos perdidos, as paisagens que não foram vistas.
Não vale a pena ter a conta cheia e a vida e o coração vazios.

Questionando a massa cinzenta

No dia em que a ciência descobrir uma maneira de mudar a cor da massa encefálica, eu me candidato a cobaia desta experiência.
Para que uma massa cinzenta, quando ela pode ser azul-turquesa? ou verde-musgo? cor-de-burro-quando-foge?
Quero a minha massa encefálica com todas as cores do arco-íris!
E quando isso acontecer, eu poderei balançar a cabeça e minha massa ficará branquinha!
Já pensou que efeito legal?

Melhor então seria ter um cérebro-camaleão.
Eu olharia para o céu e a massa ficaria azul
a lua, e ficaria prata
o sol, e ficaria laranja!
Só olhando São Paulo ela ficaria cinza
e nos momentos de meditação, transparente.

Para a imaginação, a criatividade, a música,
os sentimentos,
para todas as coisas abstratas,
aquelas que a gente não vê mas percebe,
a massa poderia ficar toda colorida,
mas não poderia ser misturada,
senão daria branco na hora em que a gente mais precisa!

Encontrado!

Um manuscrito em papiro encontrado dia destes nas areias quentes do deserto do Atacama, viajou das terras longínquas por km durante milênios carregado por um tatu, que não era bola, cortando a terra por baixo. Os escritos foram traduzidos do copta em braile ao português, que não era o da padaria.
Os arqueólogos afirmam que os manuscritos traduzidos sofreram graves alterações quando passearam pela região do sul da Itália. A princípio as escrituras traziam um breve histórico sobre a figura também histórica chamada de Calor, com o nome alterado para Calu e acrescentado o sobrenome de Baroncelli, brasão dos guerreiros fundadores do Podio Maggiore que aterrorizaram por séculos a traumatizada cidade de Firenze, ou melhor, Florença na língua do Joaquim.
Calor, ou Calu, era uma pobre híbrida coruja-papagaio-humano, espécie em extinção cujo nome de origem era olhus linguos bundus, no latim, e muito estudada por pesquisadores de religiões antropozóoficas.
Estes manuscritos foram escritos (rimô) pelo poeta-herói Leminskis Paulus, numa breve descrição da espécie:

Uma frase-superfície
onde vida-frase alguma
não seja mais possível.
Frase, não, Nenhuma.
Uma lira nula,
reduzida ao puro mínimo,
um piscar do espírito,
a única coisa única.
Mas falo. E, ao falar, provoco
nuvens de equívocos
(ou enxame de monólogos?)
Sim, inverno, estamos vivos.

A espécie foi extinta antes da era de Noé e, se tivesse sobrevivido, hoje seria alvo de pesquisas científicas importantes sobre as causas da surdez irreversível.

02 fevereiro, 2006

BBB: vendando os olhos do Brasil

BBB pra mim só tem um significado: Bela Bosta Brasileira. Não sou "big brother" de ninguém a não ser dos meus próprios de sangue, ou do amigo e camarada para todas as horas, onde na amizade não é necessário o voyeurismo ou o policiamento de sua vida nas 24 horas do dia. Isso sim eu chamo de "big brother" saúdavel. Tá, sabemos que a iniciativa foi criada pelos holandeses da "Endemongol", mas que eu saiba a Holanda é um país de gente bem educada, onde vale a pena pagar os impostos que são bem aplicados e investidos no país. Não estou dizendo que o Brasil é uma merda, aliás, amo meu país e por isso luto para que ele seja melhor. Estabeleço a comparação pela seguinte questão: o que é mais fácil de se manipular, um povo famélico e ignorante ou um povo educado e bem abastecido? E "famélico" não é só fome de comida, mas fome de educação, de cultura, de saúde, fome de viver e não de só sobreviver o tempo todo.
O povo brasileiro riu e muito com os vídeos gravados pelos pobres coitados candidatos ao BBB6 que não foram contemplados. Para mim, o mais engraçado foi ver que ninguém percebeu que a Globo nem ousou tocar no assunto de transmitir, também, o vídeo dos que foram selecionados. De cara, isso dá margem a diversas questões: quem escolhe? como? por que? quais os critérios de seleção? como se justifica os que foram selecionados?. E a pergunta que não quer calar: não seria isto um jogo de cartas marcadas? É o que parece mais provável. Eu começaria tudo com a seguinte pergunta: BBB pra que???
Quem, dentre estes milhões de espectadores, sabe exatamente o que há por trás de tudo? Será que já se questionaram? Pensar dói? Ou é mais fácil acreditar que é tudo justo e honesto, ou tampar os olhos para não ver, pois a vida REAL é um fardo muito pesado de se carregar e nós, pobres mortais, temos o direito de, de vez em quando, nos sentirmos como verdadeiras Alices saltitantes no país das bunda-maravilhas?

O BBB não é a cara do Brasil, e nunca será. Eu sou brasileira e, sinceramente, me sinto ofendida toda vez que alguém diz isso pra mim. Para disfarçar, e não dar um tom racista ou preconceituoso, a emissora escolhe um "gordinho", um negro, um mulato e até um nordestino, como se BBB fosse a "oportunidade para todos", um outro um pouquinho mais "culto" para equilibrar com a acefalia da maioria de "pitboys" e mocréias "pitanguisadas", com suas bundas saradas e balouçantes, seus fios dourados de descolorantes, esvoaçando pela casa, em meio ao som de "lacraias" e "tigrões", uma verdadeira orgia "quebra-barraco" camuflada. Ah... e quem não ganha o tal 1 milhão terá a chance de aparecer na "Caras" ou na "Ti-ti-ti", "Sexy" ou "Playboy", fazendo a alegria das madamas e de adolescentes espinhentos. Ou de causar "pânico" à população, como aquela japonesa de cabelo loiro e bunda de mulata, num "exemplo de miscigenação".
Se querem que o BBB seja a "cara do Brasil", então sugiro o seguinte: coloquem na mesma casa um mendigo, um flagelado à beira da inanição, um analfabeto, um artista (de preferência o que passa o chapéu pra ganhar um troco), um interno da Febem, um traficante e, para equilibrar, um político corrupto (candidatos não irão faltar). Ah, não se esqueça do policial e do jogador de futebol.
Aí, quem sabe, nos olhemos no espelho da nossa realidade e enxerguemos onde é que está a verdadeira "cara do Brasil", esta sim ainda muito distante das lentes das câmeras e das telinhas de TV.

Calu Baroncelli

01 fevereiro, 2006

Reinvenção

A vida só é possível
reinventada.


Anda o sol pelas campinas
e passeia a mão dourada
pelas águas, pelas folhas...
Ah! tudo bolhas
que vem de fundas piscinas
de ilusionismo... — mais nada.


Mas a vida, a vida, a vida,
a vida só é possível
reinventada.


Vem a lua, vem, retira
as algemas dos meus braços.
Projeto-me por espaços
cheios da tua Figura.
Tudo mentira! Mentira
da lua, na noite escura.


Não te encontro, não te alcanço...
Só — no tempo equilibrada,
desprendo-me do balanço
que além do tempo me leva.
Só — na treva,
fico: recebida e dada.


Porque a vida, a vida, a vida,
a vida só é possível
reinventada

Cecília Meirelles

30 janeiro, 2006

Esperança

Todo o meu esforço canalizo para a vida.
Não para o equilíbrio, não para as certezas. Caminho suportando nas costas todo o peso da desesperança, pois que a esperança, é ridículo, dramático, que a humanidade ainda precise de tê-la.
Esperança em quê? Em remédios que curem?... Em poemas que se dão de mão em mão?
E as cartas sem resposta?
E os becos sem saída?
E a nova hipocrisia?
E o deus-dinheiro que nos espreita a cada esquina?... e a África?
E a América Latina?...
E todas essas universidades e tantos analfabetos?...
Toda gente sabe a extensão da verdade: surpreendendo a paisagem esfomeada, o gatilho já não precisa do dedo de ninguém.

Cruzeiro Seixas

22 janeiro, 2006

Incompreensível para as massas

Entre o autor e o público, posta-se o intermediário.

E o gosto do intermediário
é bastante intermédio, medíocre.

Medianeiros médios pululam nos meios, onde, galopando, teu pensamento chega.
Um deles considera tudo sonolento:
"Sou homem de outra têmpera! Perdão",
e repete um só refrão:
"O público não compreenderá".

Camponês, só viu um faz tempo, antes da guerra.
Operários, deu com dois, uma vez, numa ponte, vendo subir a água da enchente.

Mas diz que os conhece como a palma da mão.
Que sabe tudo o que querem!
Aqui vai meu aparte: chega de chuchotar bobagens para os pobres. Também eles, podem compreender a arte. Logo, que se eleve a cultura do povo!
Uma só, para todos.

Wladimir Maiakovski

O Anarquista

O anarquista que há em mim se junta com o ingênuo que há em você e propõe: "vamos fazer uma república utópica?".

O princípio da realidade passa com a sirene aberta, pára e nos autua em flagrante.

Alex Polari

O desbarato mais absurdo...

O desbarato mais absurdo não é o dos bens de
consumo, mas o da humanidade: milhões e milhões de seres humanos nasceram para ser trucidados pela história, milhões e milhões de pessoas que não possuíam mais do que as suas simples vidas.

De pouco ela lhes iria servir, mas nunca faltou quem de tais miudezas se tivesse sabido aproveitar. A fraqueza alimenta a força, para que a força esmague a fraqueza.

José Saramago

21 janeiro, 2006

É preciso não esquecer nada

É preciso não esquecer nada:
nem a torneira aberta nem o fogo aceso,
nem o sorriso para os infelizes
nem a oração de cada instante.

É preciso não esquecer de ver a nova borboleta
nem o céu de sempre.

O que é preciso é esquecer o nosso rosto,
o nosso nome, o som da nossa voz, o ritmo do nosso pulso.

O que é preciso esquecer é o dia carregado de atos,
a idéia de recompensa e de glória.

O que é preciso é ser como se já não fôssemos,
vigiados pelos próprios olhos
severos conosco, pois o resto não nos pertence.

(Cecília Meirelles)

19 janeiro, 2006

Solidão

"As pessoas são solitárias porque erguem paredes em vez de pontes."

Joseph Fort Newton

18 janeiro, 2006

estamos todos certos e somos todos errados

tem gente que diz que papai do céu faz as pessoas em fornadas e,
quando pessoas da mesma fornada se encontram,
elas se reconhecem.

tem gente que diz que pessoas de verdade
reconhecem quem é de mentira.

tem gente que diz que a pessoa certa
aparece sempre na hora certa e,
por isso,
ela é certa.

tem gente que acha que todas as pessoas são certas,
menos uma – ela própria.

tem gente que não acha nada,
mas procura que nem o diabo a vida toda.

a gente é cheio de regras e dogmas
que servem como uma desculpa
pra justificar as coisas injustificáveis que fazemos.

você já deve ter ouvido alguém dizer
que você é a pessoa certa na hora errada
e – geralmente – quem diz isso
são pessoas erradas na hora certa.

Essa busca pelo certo e pelo perfeito
é louvável até certo ponto.

Mas só até certo ponto,
porque não sei se você sabe o que acontece
com o artista que fica a vida toda retocando o mesmo quadro

Fernando Tucori


acesse: http://terremototorquemada.blogspot.com/

Eterno...

"Eterno é tudo aquilo que dura uma fração de segundo, mas com tamanha
intensidade, que se petrifica, e nenhuma força jamais o resgata..."

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"DEFINITIVO, como tudo que é simples!! Nossa dor não advém das coisas vividas, mas das coisas que foram sonhadas e não se cumpriram."

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Por muito tempo achei que a ausência é falta.

E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.



Carlos Drummond de Andrade




17 janeiro, 2006

SONETO 172 ANTOLÓGICO

As frases memoráveis da República
deviam ter, na pedra ou voz gravada,
registro, qual legenda avacalhada
num filme de comédia ou cena lúbrica.

"Prometo que agirei na vida pública
da mesma forma que ajo na privada!";
ou: "Fi-lo porque qui-lo!", tão surrada;
ou: "Não me deixem só!", suprema súplica.

Também vou proferir, eu que não minto,
a pérola imortal de quem adora
mandatos, completado o quarto ou quinto:

"Da vida partidária saio agora.
Já fiz o que devia, e alívio sinto.
Caguei, limpei a bunda, e vou-me embora!"

Glauco Mattoso

Meu ódio-amor...

Meu ódio-amor:
Tudo se esvai.
A hora se faz móvel
Escorrida
Sobre o corpo da vida.
Vou-me.
Pedra lisa e mar
Fixa-informe
Tento te segurar
Tu que és minha vida.
Morre
O mesmismo de mim
Se não me colo a ti.
Vagueio.
Alguém me vê
E aponta:
Dentro da flor aberta
Uma abelha morta.

Hilda Hilst

13 janeiro, 2006

Sabor de Burrice

Veja que beleza
Em diversas cores
Veja que beleza
Em vários sabores
A burrice está na mesa
Ensinada nas escolas
Universidade e principalmente
Nas academias de louros e letras
Ela está presente
E já foi com muita honra
Doutorada honoris causa
Não tem preconceito ou ideologia
Anda na esquerda, anda na direita
Não tem hora, não escolhe causa
E nada rejeita

Veja que beleza
Em diversas cores
Veja que beleza
Em vários sabores
A burrice está na mesa

Refinada, poliglota
Ela é transmitida por jornais e rádios
Mas a consagração
Chegou com o advento da televisão
É amigo da beleza
Gente feia não tem direito
Conferindo rimas com fiel constância
Tu trazes em guarda
Toda concordância gramaticadora
Da língua portuguesa
Eterna defensora

Tom Zé

Procures me amar...

"Procures me amar quando menos mereço, pois é quando mais preciso."

Mário Quintana

O Analfabeto Político

O pior analfabeto
é o analfabeto político
Ele não ouve,
não fala,
nem participa dos acontecimentos políticos

Ele não sabe que o custo de vida,
o preço do feijão,
do peixe,
da farinha, do aluguel,
do sapato e do remédio
dependem das decisões políticas

O analfabeto político é tão burro
que se orgulha e estufa o peito, dizendo que odeia política

Não sabe o imbecil que,
da sua ignorância política,
nasce a corrupção,
o menor abandonado, o assaltante
e o pior de todos os bandidos:
que é o político vigarista,
pilantra, o corrupto
e o lacaio das empresas nacionais e multinacionais.

Bertolt Brecht

Balangandans

É justo para se lamentar, a gente abrir mão de segundos
preciosos
Que talvez nos trouxessem direto um pro outro?
É justo que um pote de ouro venha ao seu encontro (e ao meu)
E desencadeie pânico, paralisação, desastres, desculpas?
É justo te dar um beijo na boca à margem da testa, da fala
E da escrita, de uma represa, uma festa?
é justo permitir que uma palavra desgovernada deixe minha boca
E aumente minha resistência a você?
Se uma pessoa só é uma máquina só
Se ela (provavelmente)
Canta, dança, pensa, treme
Aflita
Não será que tem respostas nas pontas dos dedos
-Dados, balangandans no pensamento-
Que costumem nos acompanhar?

Maurício Pereira

Cultura Lira Paulistana

A ditadura pulou fora da política
E como a dita cuja é craca é crica
Foi grudar bem na cultura
Nova forma de censura
Pobre cultura como pode se segura
Mesmo assim mais um pouquinho
E seu nome será amargura ruptura sepultura
Também pudera coitada representada
Como se fosse piada
Deus meu por cada figura sem compostura
Onde era ataulfo tropicália
Monsueto dona ivone lara campo em flor
Ficou tiririca pura
Porcaria na cultura tanto bate até que fura
Que droga merda
Cultura não é uma tchurma
Cultura não é tcha tchura
Cultura não é frescura
A brasileira é uma mistura pura uma loucura
A textura brasileira é impura mas tem jogo de cintura
Se apura mistura não mata
Cultura sabe que existe miséria existe fartura e partitura
Cultura quase sempre tudo atura
Sabe que a vida tem doce e é dura feito rapadura
Porcaria na cultura tanto bate até que fura
Cultura sabe que existe bravura agricultura
Ternura existe êxtase e agrura noites escuras
Cultura sabe que existe paúra botões e abotoaduras
Que existe muita tortura
Cultura sabe que existe cultura
Cultura sabe que existem milhões de outras culturas
Baixaria na cultura tanto bate até que fura
Socorro elis regina
A ditadura pulou fora da política
E como a dita cuja é craca é crica
Foi grudar bem na cultura
Nova forma de censura
Pobre cultura
Como pode se segura
Mesmo assim mais um tiquinho
Coitada representada
Como se fosse um nada
Deus meu por cada feiúra
Sem compostura
Onde era pixinguinha elizeth macalé e o zé kéti
Ficou tiririca pura
Só dança de tanajura
Porcaria na cultura tanto bate até que fura
Que pop mais pobre pobre pop

Itamar Assumpção

A poesia que a gente não vive...

"Escrever é algo que deve ser reservado para as noites de pura bebedeira. Embriaguez e solidão são ingredientes chave. Poemas com rimas ou estórias que tenham começo e fim simplesmente não são para mim."

Charles Bukowski

Quem se importa?
algumas pessoas falam
que eu tenho problemas com bebidas

meu único problema
é estar sóbrio

eu me considero um bêbado socialista
mais do que um bebedor social

às vezes a única felicidade
é a bebedeira
às vezes
nada mais importa

eu continuo me perguntando
porque me preocupo
quando ninguém mais se importa

acesse: http://blogdobuk.weblogger.terra.com.br/index.htm

12 janeiro, 2006

Análise

Tão ABSTRATA é a idéia do teu ser
Que me vem de te olhar, que, ao entreter
Os meus olhos nos teus, perco-os de vista,
E nada fica em meu olhar, e dista
Teu corpo do meu ver tão longemente,
E a idéia do teu ser fica tão rente
Ao meu pensar olhar-te, e ao saber-me
Sabendo que tu és, que, só por ter-me
Consciente de ti, nem a mim sinto.
E assim, neste ignorar-me a ver-te, minto
A ilusão da sensação, e sonho,
Não te vendo, nem vendo, nem sabendo
Que te vejo, ou sequer que sou, risonho
Do interior crepúsculo tristonho
Em que sinto que sonho o que me sinto sendo.


Fernando Pessoa

S.O.S. para todos nós!


A morte me apareceu certa noite no quarto. Era uma menina vestida de negro, os cabelos loiros escorridos. O vestido era estufado, brilhoso. Assim que a vi, soube que era a morte. Recostou-se em um canto de parede à minha frente, os pezinhos cruzados, não usava sapatos.
Então, Hans, estás pronto?
Não, respondi-lhe agoniado.
Sorriu. Tinha os dentes negros e minúsculos. Assustei-me. Esperou que eu me acalmasse e perguntou:
Quanto tempo você ainda deseja?
Algum tempo.
Respondeu-me que era preciso que eu fosse mais preciso. A frase tinha humor e pude até sorrir. Disse-lhe:
Mais dez anos talvez.
Dez anos talvez, é hoje.
Impossível.
Não. Para ser mais exata: dez anos e dez dias. O tempo é outro quando eu apareço.
Senti náuseas e uma dor profunda no peito. Ainda pude perguntar-lhe:
Há uma outra vida?
Sim. Milhões de crianças como eu. Você será uma delas. É tedioso e até inaceitável, mas é assim.
O espelho do quarto refletiu um menino vestido de negro, calças curtas e camisa comum, os cabelos loiros escorridos. Olhei-me assombrado. Depois disso, nunca mais me vi.

Hilda Hilst

in Cartas de um Sedutor


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Que tal avivar o mito do Bambu Pelegrino neste nosso Brasil banguela e tão rico de ritos? Carnaval, Bicho, Bola, Anões, Saques, Cartolas , corruptas e obscenas cabriolas para escapar da jaula?
Oh, por favor, sorriam! Os corpos de todos nós estão curvos, os semblantes estão turvos, sorriam! Quanto a mim, tô saindo correndo, pois em vendo bambus, nestes tempos, só vejo tíbias.
E esculahmbem-se de novo por favor! Ando minguada e lívida de tanto amor!
Amor também doe, negada. Oi dói?

Hilda Hilst

in Cascos & Carícias
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Ao teu encontro, Homem do meu tempo,

E à espera de que tu prevaleças
À rosácea de fogo, ao ódio, às guerras.
Te cantarei infinitamente
À espera de que um dia te conheças
E convides o poeta e a todos esses
Amantes da palavra, e os outros,
Alquimistas, a se sentarem contigo
À tua mesa. As coisas serão simples
E redondas, justas. Te cantarei
Minha própria rudeza
E o difícil de antes,
Aparências, o amor
Dilacerado dos homens
Meu próprio amor que é o teu
O mistério dos rios, da terra
Da semente. Te cantarei Aquele
Que me fe poeta e que me prometeu

Compaixão e ternura e paz na Terra
Se ainda encontrasse em ti o que te deu.

Hilda Hilst

"Poemas aos homens de nosso tempo", parte IX

Sistema, forma e pepino

... sou um homem, tropeço, estou de bruços, de bruços, pronto para ser usado, saqueado, ajustado à minha latinidade, esta sim real, esta de bruços, as incontáveis infinitas cósmicas fornicações em toda minha brasilidade, eu de bruços, vilipendiado, mil duros no meu acósmico buraco, entregando tudo, tudo, meus ricos fundos de dentro, minha alma, ah, muito conforme o Seo Silva, muitíssimo adequado, tu de bruços, e no aparente arrotando grosso, chutando a bola, cantando, te chamam de bundeiro os ricos lá de fora, o seo Silva brasileiro,
seo Macho Silva, hôhô hôhô, enquanto fornicas bundeiramente as tuas mulheres cantando, chutando a bola, que pepinão, seo Silva, na tua rodela, tuas pobres junturas se rompendo, entregando teu ferro, teu sangue, tua cabeça, amoitado, às palpadelas, meio cego, cedendo, cedendo sempre, ah, Grande Saqueado, grande pobre macho saqueado, de bruços, de joelhos, há quanto tempo cedendo e disfarçando, vítima verde e amarela, amado macho inteiro de bruços flexionado, de quatro, multiplicado de vazios, de ais, de multi-irracionais, boca de miséria, me exteriorizo grudado à minha História, ela me engolindo, eu engolido por todas as quimeras.

Hilda Hilst

"Axelrod (da proporção)" in Tu não te moves de ti

Povo. Polvo

de cima do palanque
de cima da alta poltrona estofada
de cima da rampa
olhar de cima

LÍDERES, o povo
Não é paisagem
Nem mansa geografia
Para a voragem
Do vosso olho.

POVO. POLVO
UM DIA.

O povo não é o rio
De mínimas águas
Sempre iguais.
Mais fundo, mais além
E por onde navegais
Uma nova canção
De um novo mundo.

E sem sorrir
Vos digo:
O povo não é
Esse pretenso ovo
Que fingis alisar,
Essa superfície
Que jamais castiga
Vossos dedos furtivos.
POVO. POLVO.
LÚCIDA VIGÍLIA.
UM DIA.

Hilda Hilst
Poemas aos homens de nosso tempo, parte V

11 janeiro, 2006

Os Ombros que Suportam o Mundo

Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.

Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas dos teus amigos.

Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue,
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo,
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.

(Carlos Drummond de Andrade)

04 janeiro, 2006

Deus era um Palhaço

Naquela época de trevas metropolitanas, andava como um mendigo sem rumo ou destino. Quase sem vestes, e o pouco que vestia, estava sujo e poído. Tinha os pés no chão, de unhas pretas de fungos. Andava trôpego e bêbado, sem amigos e sem sentido. Sem o sem. A ausência era tão presente em sua vida, que praticamente não ligava para a própria existência. Não tinha medo, apenas fome e vontade de viver, apesar de tudo. Gostava de observar as pessoas, a maneira com que andavam, como se comunicavam entre si e com o mundo. Vivia apenas para ver e nunca ser visto, mas gostava disso. Era quase invisível. Andava e andava pelas ruas cinzas da grande cidade, sem endereço a chegar.
Um dia resolveu parar de andar. Estava cansado, com os pulmões doloridos pela pneumonia e os ossos quase quebrando de tão fracos. Sentou-se na grama da primeira praça que encontrou. Não sairia tão cedo dali. Cansou do cinza, agora queria o verde, o azul. Passou a fixar um olhar atônito para o céu, desde a hora em que o sol nascia até a hora em que se punha. Nem sempre o céu estava azul, muitas vezes estava tão cinza quanto as ruas por onde vagou. Passou a se sentir apenas uma cabeça, de tanta fraqueza que sentia o corpo. Sentia seu crânio como um balão que voa por aí, levado pelo vento.
Pensou na morte por alguns instantes. Não se incomodava com ela. Para ele, a morte era o fim da vida, e o que vivia, era ausência de vida. Então a vida é que era incômoda. Pensou nos amores que teve. Amou e muito. Amou tanto o mundo e a existência da humanidade que não conseguiu se fixar a um objetivo único. Tudo para ele foi válido, até a dor e o sofrimento. Trocou uma vida cômoda porém insatisfeita pelas ruas da cidade. Não aceitava ser um nome só ou um número no documento. Apenas quis ver tudo e não ser nada.
Ser o eu em terceira pessoa.
Atordoado, toda vez que olhava para o céu, limpo ou nublado, via uma bola vermelha. Mas não era qualquer bola vermelha, era aquela que só ele poderia ver. Seria um sinal de Deus? Toda vez que via a tal bola vermelha tinha uma vontade imensa de sorrir, com os poucos dentes que lhe restavam na boca. E sorria... sorria como uma criança. Sorria pois aquela bola vermelha lhe trazia tantas lembranças boas da infância, as mais puras que existiram. A bola vermelha lembrava um abraço quente de fraternidade. Lembrava o catar conchinhas na beira do mar. Cantigas de roda. Beijo molhado. Cheiro da terra depois da chuva. As capuchinhas do quintal de casa. Canto de sabiá.
Sentiu-se ridículo. Era ridículo. Tudo foi e sempre é ridículo. Sorriu por não ser nada mas ser ridículo e... pronto! Por um segundo ser ridículo fez todo o sentido para aquela existência que ele tanto anulava. Não sentia mais o corpo, mas enquanto os pensamentos ainda lhe viessem à cabeça, sentia-se vivo. Há muito não se sentia tão feliz.
A bola vermelha despertou a felicidade contida. Aquela felicidade como que guardada no fundo de um baú ou num álbum de fotografias.
E sorria o tempo todo, olhando para o céu.
"Deus é um palhaço", pensou.
E cerrou os olhos, para todo o sempre.

29 dezembro, 2005

Aquele abraço


Aquele abraço forte

a todos que compartilharam comigo

Alegrias

Tristezas

Amor

Carinho

Confiança

Compreensão

a todos que me fizeram rir

a todos que me fizeram chorar

a todos que estão aqui

dentro do meu coração!!

28 dezembro, 2005

Em Memória de Vladimir Tuccilio

Vlad, ou Vitão (assim como gostávamos de te chamar)

hoje faz cinco anos que você partiu.
Mas parece que foi ontem.

Foi ontem que tomamos cerveja
e tocamos violão
e cantamos com os amigos
até tantas da madruga
ou da manhã.

Foi ontem que nos divertimos
na mesa do trabalho,
entre papéis e gravações
em rolo ou MD.

Foi ontem que cantamos juntos
naquele karaokê que você gostava,
e simplesmente não perdoava
os que recusavam o seu convite.

Foi ontem que você nos convidou
a compartilhar as suas alegrias.

Foi ontem que você nos fez entender
que a vida é curta
e é única
e por isso temos que aproveitá-la.

Foi ontem que te vi sorrir
daquela maneira
que só você podia sorrir

o sorriso ímpar
de Vladimir.

"Saudade é um pouco como fome. Só passa quando se come a presença. Mas às vezes a saudade é tão profunda que a presença é pouco: Quer-se absorver a outra pessoa toda. Essa vontade de um ser o outro para uma unificação inteira é um dos sentimentos mais urgentes que se tem na vida." (Clarice Lispector)

27 dezembro, 2005

Receita de Ano Novo


Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)


Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumidas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.


Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.


(Drummond)

24 dezembro, 2005

2006

Que a paz e a arte estejam na vida de todos
por todos os momentos
por todos os dias
por todos os anos... Posted by Picasa

Suprassumos da Quintessência

O papel é curto.
Viver é comprido.
Oculto ou ambíguo,
Tudo o que digo
tem ultrasentido.
Se rio de mim,
me levem a sério.
Ironia estéril?
Vai nesse ínterim,
meu intramistério

Paulo Leminski