23 junho, 2008

O fora

A menina pula, corre, dança, ri, ri mais um pouco, dança mais um pouco, pinta e borda o dia inteiro.
A mãe se mata na faxina, limpa banheiro, lava roupa, louça, lenço, tira pó o dia inteiro.
E de noitinha:

- Filha, vai tomar banho!

A menina se joga no sofá.

- Filha, já falei pra você ir tomar banho! A-go-ra!

A menina se esparrama nas almofadas.

- Já vou, mãe, é que eu tô tão cansada!

A mãe a puxa pelas perninhas finas.

- Cansada tô eu, que limpei a casa o dia todo! Como você pode estar cansada, se não fez nada o dia inteiro?

A menina olha de soslaio.

- Mãe, brincar é não fazer nada?

O mar

O menino, nascido no sertão da Paraíba, vendo o mar pela primeira vez na cidade do Recife:

- Pai, mas que açude grande é esse!!

20 junho, 2008

Subterrâneos do inferno

[Centro de São Paulo]

Eu desço aos subterrâneos do inferno todos os dias.
Pela manhã cedo, oito e meia especificamente.
Eu passo a catraca e sinto calafrios.
As escadas que dão para os subterrâneos do inferno são longas.
Mais longo é o tempo que levo pra conseguir alcançar a plataforma.
Alienígenas subindo em minha direção.
Eu quase perco o rumo.
Quase sou abduzida pela massa.
Consigo me desviar.
Finalmente alcanço a plataforma.
A plataforma do inferno.
Corpos se arrastam.
Espíritos apagados brigam por um pedaço de chão para pisar.
Rostos entristecidos pela rotina se esbarram.
O tempo passa em câmera lenta.
Eu corro contra o tempo.
Eu corro para o trem.

O trem atravessa os subterrâneos do inferno
que cortam por dentro a cidade alerta,
a cidade que não pára,
a cidade que cresce desenfreadamente,
preenchida de almas vazias,
estonteantes,
que carregam no semblante
a loucura da metrópole caótica.

02 março, 2008

Ronda

Não sinto vontade de escrever nada.
Estou vendo pessoas queridas indo embora.
O que tem ficado aqui dentro é um profundo silêncio.
A morte tem feito ronda em ruas próximas.
Eu nada posso fazer.
Eu me calo e deixo um vazio.
O vazio de ser obrigada a aceitar que tudo na vida tem um fim.
A própria vida tem um fim.
As coisas boas se vão.
As pessoas boas se vão.
O meu silêncio fica.

Eu nada posso fazer.
A morte tem feito ronda em ruas próximas.
O que tem ficado aqui dentro é um profundo silêncio.
Estou vendo pessoas queridas indo embora.
Não sinto vontade de escrever nada.

13 fevereiro, 2008

Algumas palavras

Não sei nem por onde começar. Meu coração se aperta a cada vez que lembro e penso na tragédia que tirou a vida de minha amiga Liliane Assunção, a Lily, e de mais outras meninas jovens e cheias de vida. Mas juro que não quero mais pensar na tragédia. Quero pensar em todos os momentos bons que passei com ela. Nesses dois últimos dias olhei novamente todas as nossas fotos, da época da faculdade, da festa surpresa que a turma aprontou pra mim em meu aniversário, e lá estava ela, participando de toda organização. Dos churrascos que fizemos com a turma, as gargalhadas nos intervalos das aulas, os estresses dos trabalhos, as festas à fantasia, as viagens para Santos, IlhaBela, o reveillón na casa do Tiago também com a turma, a nossa formatura, as visitas que ela me fez quando minha filha nasceu. Uma vez, quando eu trabalhava no programa Bem Brasil, fechamos um show com a Cássia Eller, dia 04/12/2001 (Cássia veio a falecer semanas depois). Lily era fã incondicional de Cássia. Depois do show, quando eu a levei para o camarim para conhecê-la pessoalmente, ela até chorou. Me agradeceu durante tempos por causa disso.
Revi alguns vídeos, as nossas bagunças na represa do Guarapiranga, o TCC que fizemos juntas. Reli nossos roteiros de rádio, dentre outras coisas.

São histórias, registros, memórias, que carregarei para sempre, assim como o sorriso largo e vistoso da Lily, que sabia viver intensamente, que sabia ser feliz, e que no fundo eu bem sei, que ela se foi, e se foi feliz.

16 outubro, 2007

Manifesto dos Palhaços

Os profissionais do picadeiro, das ruas e praças esperam que o circo e o palhaço sejam recursos para uma metáfora digna de suas profissões.
Mário Bolognesi

Somos palhaços.
De profissão.
Arrancamos alegria e riso de todos os corações,
Inclusive dos mais endurecidos.
Crianças e velhos, jovens e adultos, ricos e pobres,
Todas as raças, nações e lugares nos conhecem,
Riem conosco e nos aplaudem.
A cara pintada e o nariz vermelho são nossas marcas.
Ambos denunciam os desmandos públicos, no picadeiro ou fora dele.
Até aqui, estamos juntos.
Mas, eis que, imediatamente, a corrupção vira "palhaçada";
Diz-se das manobras criminosas: "isso é um circo!"
Autoridades duvidosas são chamadas de "palhaços";
Vocês sabem o que é uma palhaçada?
Não?
Então, retornem ao circo e vejam que ela não é escândalo público;
Que não é corrupção – roubo, muito menos.
As comparações e metáforas nos associam às causas impopulares.
Não existe, no mundo, personagem tão popular e querida como nós!
Hoje, Dia Nacional do Palhaço, exigimos:
Basta!
Continuemos protestando, porque isso se faz necessário.
Mas não usem nossa personagem e nossos narizes em vão.
Nossa profissão é criar a alegria e não a corrupção;
É alimentar a vida e a igualdade de todos
E não o roubo de poucos.

Esse manifesto foi criado em março de 2007.

02 outubro, 2007

Nasceu!

Calma! Não tive mais um filho.

Nasceu, na pequena gestação de dois meses, o espetáculo "Lavadeiras da Memória".
Eu e a Andréia estreamos em big stile no auditório do Sesc Vila Mariana, na sexta-feira 28 de setembro. Uma platéia cheia de velhinhos fofos! E amigos especiais.
Não preciso dizer o quanto são tensas as estréias, imagine como foi a tensão individual pela minha estréia como atriz.

Caraca, cada coisa doida que acontece na minha vida.
Desde que trabalho com produção cultural, ou seja, há muitos anos, as pessoas no geral (inclusive artistas mesmo) sempre me perguntavam se eu era atriz. Ou bailarina (tudo bem, porque dancei um tempo). "Ah, não"... e me diziam que eu parecia mesmo atriz. Mas o que é se parecer atriz? Será meu tipo físico? meu jeito de comunicar? Ahn? Existe um esteriotipo? Os amigos mais próximos, inclusive a própria Andréia, me diziam que eu era a "atriz que ainda não saiu do armário".
Sempre gostei de teatro, sempre fui público exigente, já fui produtora de grupo e muitos dos meus amigos e conhecidos estão no meio teatral. Já li muitas peças sem nunca ter feito uma oficina sequer. Lia por puro prazer, como sempre. Pensei em fazer curso livre, prestar vestibular na Unesp, prestar as provas da EAD mas nada nunca dava certo...e não dava certo também porque tenho uma vida corrida e fazer um curso que me toma os dias seria impraticável. Então vinha a vontade mas eu não me mexia muito.

Enfim, não sei se anjos existem, mas eu conheci um. Aliás, uma. Adriana Azenha, diretora e dramaturga, autora dos textos das Lavadeiras, foi o anjo que me arrastou definitivamente para cima do palco. Recebi na surpresa um convite e abracei a idéia. Fui até o fim. Quer dizer, até o fim dos ensaios e a estréia porque ainda tenho muita estrada pra caminhar. Adriana é a minha mãe no teatro. Ela que me impulsionou a nascer a atriz que estava guardada em mim e que agora coloquei pra fora. Alguém que confiou em mim e nas minhas capacidades, que talvez nem eu mesma reconhecesse. Agradeço de coração por tudo.

E que louco! Que louco subir num palco e ver a platéia rir ou chorar. Que maravilha poder atuar na companhia da minha querida amiga-irmã Andréia Santos, que me ensinou e ensina muito. Meu amigo-irmão Ivon, nosso maquiador, que esteve junto desde o convite e desde sempre. Ao meu amigo Wilton pela força e paciência, além da grande colaboração de fazer a luz do espetáculo. Ao diretor musical Douglas Germano, grande músico e marido da Dri, novo companheiro e motivador.

Logo coloco umas fotos aqui, para ilustrar.

28 de setembro - um marco na minha vida nessa nova empreitada.

20 setembro, 2007

Movimento dos Sem-Mídia

Recebi pelo correio da Caros Amigos. Acho que também vou aderir!


A marcha dos “sem-mídia”
por Lula Miranda
Eis que, em meio ao comodismo e indiferença de muitos, surge mais um louvável movimento reivindicatório no seio da sociedade. Ainda incipiente, mas a princípio, notadamente se tomamos por base seus princípios, louvável. Já tínhamos as justas demandas dos sem-terra e dos sem-teto, só para citar alguns dos muitos e vexatórios exemplos de “despossuídos” desse país tão pródigo em riquezas e, paradoxalmente, tão pleno também em desigualdades. Agora é a vez dos “sem-mídia” libertarem-se da inércia, ocuparem as ruas e colocarem a boca no trombone – ou melhor, no megafone. E dizer a que vieram.Foi sem carro de som, mas portando um singelo megafone (comprado a partir de contribuições voluntárias de alguns participantes – a chamada “vaquinha”) que o gerente de exportações e “blogueiro” Eduardo Guimarães, 47, conduziu, naquela manhã ensolarada de sábado, 15/09, das 10h até cerca de meio-dia, a primeira manifestação do “MSM”, o auto-intitulado “Movimento dos Sem-Mídia”.O ato se deu, emblematicamente, na porta do jornal Folha de S.Paulo – este, segundo os integrantes do movimento, um inquestionável paradigma de veículo da mídia que pratica um tipo de jornalismo bastante em voga hoje em dia. Um jornalismo alicerçado num moralismo e “denuncismo” seletivos, espúrios, que protege a uns e ataca a outros. Com o gravame de, em alguns casos – como o da própria Folha – alardearem-se “pluralistas” e “imparciais”. Mas este veículo não é o único e privilegiado alvo do “MSM”. A revista Veja, o “Estadão” e a/o Globo também estão em sua alça de mira – os jornalistas sabujos dos patrões e os que venderam a alma ao mercado (e aos mercadores de mentiras e maledicências), também. Estão previstas novas manifestações no RJ e, mais uma, na cidade de São Paulo. Esta última, em frente ao prédio da Editora Abril, onde fica a redação da revista Veja, numa das margens das pútridas e fétidas águas do Rio Pinheiros.Guimarães leu, sempre franqueando a palavra aos demais manifestantes, um manifesto/documento que foi, ao final, entregue na portaria do jornal. Ao fundo, uma faixa, dentre tantas, onde se podia ler: “Que a mídia fale, mas não nos cale”. Quase todos os manifestantes ostentavam etiquetas no peito onde se podia ler: “MSM”, ou, “MSM – Contra o império da mentira”. Alguns ainda rasgaram cartas e boletos bancários com propostas de assinaturas, e jogaram na sarjeta – literalmente – exemplares da Folha e da Veja.Uma das principais bandeiras do movimento, estabelecidas cabalmente em seu, um tanto prolixo, manifesto (ler em http://edu.guim.blog.uol.com.br), é a defesa do pluralismo e da verdade factual na cobertura feita pela mídia. Os “sem-mídia” se dizem “apartidários”, e acrescentam que, em face disso, não defendem ou estão a serviço do partido X ou Y, do governo W ou Z. Questionam (e condenam) o caráter oligárquico do “mercado” da comunicação no Brasil. E trazem à tona, como pauta de discussão junto à sociedade, importante tema e questão: a informação é “mercadoria” preciosa e estratégica que está nas mãos de poucas famílias – muitas das quais serviram diligentemente ao regime militar e hoje seguem servindo, também de maneira diligente, àqueles que Raymundo Faoro chamava de os “donos do poder”. Também alertam para a gritante impropriedade (isso para dizer o mínimo) de muitas concessões de rádio e TV estarem nas mãos de políticos e/ou de apaniguados destes. Para alguns, decerto, pode parecer pouco um ato em que participaram “apenas” duas centenas de brasileiros, quase todos oriundos da classe média. Mas se levarmos em conta o individualismo e o comodismo dos indivíduos nos dias modorrentos e apáticos em que hoje vivemos, esse feito agregador/arregimentador dos “sem-mídia” não é nada desprezível – ao contrário. Outro dado importante a se considerar: o movimento já “pulula” e espalha seus brados na internet e na “blogosfera” e conta com o apoio, bastante diverso, de jornalistas, professores, intelectuais, desempregados, estudantes, profissionais liberais e outros mais. Lá, no mundo virtual, seguramente, já passam das duas centenas reunidas em SP, já chegam aos milhares.Este observador pode até estar equivocado, mas o “MSM” parece ser uma onda que cresce, de modo espetacular, se agiganta e se espalha. E parece ter vindo para ficar. Assim seja. A marcha dos “sem-mídia” deve prosseguir. Quem ganha com isso é o jornalismo – e o país. E, claro, o povo brasileiro.

Lula Miranda é poeta e cronista. Colabora para veículos da mídia alternativa, como os sites da Carta Maior e da revista Caros Amigos, dentre outros.

18 setembro, 2007

êta país medíocre!!!

Depois dessa, não venham me dizer que eu sou chata porque vivo reclamando a falta de investimento em cultura!

Mais de 40% do municípios brasileiros não têm política cultural, diz IBGE
CLARICE SPITZ
da Folha Online, no Rio

Pesquisa realizada pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) e divulgada nesta segunda mostra que para mais de 40% dos municípios brasileiros a cultura não está na agenda das políticas públicas. Segundo a pesquisa, que compara dados de 2005 e 2006, 42,1% dos municípios brasileiros não têm nenhuma política cultural formulada. Além disso, a pesquisa revela que os municípios gastaram em média R$ 273,5 mil por ano com cultura. O montante equivale a apenas 0,9% do total dos orçamentos municipais. Entre os municípios que afirmam ter uma política para a área, o conceito de cultura não se reduz à realização de eventos. Entre os objetivos mais citados de políticas públicas estão: garantir a sobrevivência de tradições e preservar patrimônios históricos. A pesquisa constata um predomínio de municípios com política cultural nas regiões Sul e Sudeste e nos pequenos Estados do Nordeste. A região Nordeste foi a que mais destinou recursos para a cultura: 1,2% do total da receita arrecadada. Levada a campo no segundo semestre de 2006, por meio de questionários respondidos pelas prefeituras, a sexta edição da Munic investigou a diversidade cultural e territorial dos 5.564 municípios brasileiros. A pesquisa mostra que em 72% dos municípios brasileiros ainda predomina a cultura acoplada a outros temas. Ao se somar esses municípios aos 12,6% outros em que o setor é subordinado a outra secretaria, tem-se que existem hoje 84,6% de órgãos gestores não exclusivos da cultura.

Tropecei e caí no palco


Pois é, gente,


quem diria...

quem diria não, muitos antes já disseram, muitos antes já perguntavam, indignados: mas você não é atriz? Como assim? Eu, sempre modesta: ah, não... ainda não...


Sempre fui público - muito exigente - e até determinado momento de minha vida, quis ser produtora de teatro - e fui. Durante um ano, mas fui. Já trabalhei com teatro durante alguns anos, mas sempre correndo por trás do palco, lá naquela bagunça e correria de bastidores.


Enfim, de tanto correr nos bastidores, tropecei e... caí no palco.


16 agosto, 2007

Painel da Vergonha nº 01

* Comissão de Constituição e Justiça da Câmara aprova renovação da CPMF até 2011.
Enquanto isso nos envergonhamos ao ver que seremos roubados por mais 4 anos. Há um puta erro no título dessa comissão, pois esses senhores esqueceram há muito tempo o significado da palavra "justiça". CPMF de um lado, e de outros e muitos outros, pessoas ainda morrem nas portas dos hospitais por falta de atendimento. Lamentável!

** Renan Calheiros não sente a mínima vergonha ao dizer que sua renúncia é um "gesto de retribuição". Nós, os envergonhados, chamaríamos isso de "trambicagem".

*** Os cansadinhos almofadinhas do movimento (?) "Cansei" deveriam colocar um algo a mais na pauta das suas discussões (há alguma?): estamos cansados de pagar pedágio. Apenas mandar um simples recado ao governador que aprovou a privatização do Rodoanel (Rouboanel, segundo Zé Simão) e a belíssima cobrança de pedágio. Cansada tô eu de tanta vergonha, o tempo todo e há tanto tempo sendo assaltada pelas estradas privatizadas toda vez que vou viajar.

**** O que será mais vergonhoso: o sensacionalismo da TV em cima de um trágico acidente aéreo que matou 200 pessoas ou a omissão em relação aos 686 mortos em acidentes rodoviários no último mês?

***** (hilária) Hebe Camargo é a mais nova integrante entre os almofadinhas cansadinhos do "Cansei". (Um minuto para a crise de risos. Um não, dez.) Além de uma apresentadora medíocre que só sabe falar das bolsas e dos sapatos de seus convidados, e de não ser nada além de uma velha fútil, Hebe Camargo era garota-propaganda das campanhas do Maluf. (agora eu vou ao banheiro). Alguém pode fazer uma cirurgia plástica no cérebro dessa senhora?


Isso é só o começo!

15 agosto, 2007

O Nó

Não poderia perder tempo, a conta seria estrondosa. Já havia passado quinze minutos e eu ali, com as pontas dos dedos vermelhas de tanto mexer no nó. Nessa hora eu vi que os anos de escotismo não me serviram para nada mesmo. Eu olhava novamente o nó, e o despertador. E ela já havia entrado na hidromassagem.
Como eu faria pra sair dessa? Meia hora tentando desatar o laço, e nada! Para me adiantar, resolvi me despir. Uma ansiedade tomava conta de mim. Tirei a camisa, as calças (com uma certa dificuldade), a cueca e o outro pé do sapato. Ela, sem entender o porquê da minha demora, chegou ao quarto. Sua reação ao me ver abaixado, totalmente nu, com apenas um sapato "preso" ao pé, foi cair na gargalhada. Com certeza isso foi broxante pra mim. Eu olhava o nó e a olhava, e aos poucos fui me enchendo de tudo aquilo, nó, mulher, sapato, já não pagaria mais a conta! Humilhação! Ela dizia que me amava!
Esse momento de revolta foi intenso, mas logo fui me acalmando. Aos poucos fui me vestindo, o som da ironia estava se acalmando. O nó já não estava apenas no sapato, mas também em minha cabeça, em meio àquela confusão.
Saí sem falar nada. Desci as escadas, peguei o carro. Nesse momento eu me toquei da experiência que tinha vivido. Perdi um momento de sexo, ganhei um momento de glória. Todo sentimento reprimido dentro de mim foi posto para fora.
Agora sou um novo homem. Nunca mais serei submisso às mulheres, apenas aos nós.

** Esse conto foi escrito por mim em 1995, quando eu tinha apenas quinze anos. Foi encontrado hoje em meio à papelada velha e poeirenta. Arrumar as gavetas é bom, faz a gente se lembrar também de como fomos um dia.

04 junho, 2007

Fala

Tudo
será difícil de dizer:
a palavra real
nunca é suave.

Tudo será duro:
luz impiedosa
excessiva vivência
consciência demais do ser.

Tudo será
capaz de ferir. Será.
agressivamente real.
Tão real que nos despedaça.

Não há piedade nos signos
e nem no amor: o ser
é excessivamente lúcido
e a palavra é densa e nos fere.

(Toda palavra é crueldade)

Orides Fontela

25 maio, 2007

Fragmento XII

Se não vos vejo

Vos sinto por toda parte.
Se me falta o que não vejo
Me sobra tanto desejo
Que este, o dos olhos, não importa.

(Antes importa saber
Se o que mais vale é sentir
E sentindo não vos ver.)

São coisas do amor, senhor,
Desordenadas, antigas.
E são coisas que se inventam
Pra se cantar a cantiga.

Não são os olhos que vêem
Nem o sentido que sente.
O amor é que vai além
E em tudo vos faz presente.

Fragmento XII - Trovas de Muito Amor para um Amado Senhor - Hilda Hilst (1960)

22 maio, 2007

Eu mereço

Sim.
Eu mereço sim.
Coisas boas para mim.

Passei tanto tempo num marasmo, e hoje nem caibo dentro de mim mesma.
Já estava quase desistindo de tudo: um trabalho que tanto desejo, um amor verdadeiro, alegria nas coisas pequenas e mínimas da vida.
Busca desenfreada pela minha própria essência.
Que posso querer mais, além do aprendizado das coisas do mundo e da vida, e ser feliz?

Será muita areia para o meu caminhãozinho? Na, nã, não.
Tem coisas que demoram um certo tempo para acontecer, e tenho acreditado que para isso basta querer, mas esse querer tem que ser verdadeiro, com o coração.
Nessas duas últimas semanas tem me acontecido coisas tão boas e bacanas, que me fizeram cair as fichas de que isso nada mais é do que puro merecimento.
Estou colhendo os frutos do que plantei há tantos anos atrás.
Nem bem os frutos, mas as mudas já despontaram.
E plantar não é suficiente, tive de regá-los muito bem, pouco a pouco.
Mas regar também não basta, você tem que ser paciente, muito paciente, para esperar crescer.
E quando isso tudo crescer, e atingir seu tamanho máximo, não vale o comodismo: é preciso, também, cuidar e não deixar morrer.

Termino por aqui, deixando aquele quê de curiosidade nos raros leitores do meu modesto blog.
E fecho, com um trecho de uma música do André Abujamra, que gosto muito.
Carpe diem!

Tamanho de caminhão
Buzina de fusquinha
Tamanho de lambreta
Força de trator

Nem tudo que aparenta ser é
Tudo que é, é

Pensar é fácil
Fazer é difícil
Sujar é fácil
Limpar é difícil

Casar é fácil
Regar é difícil
Gostar é fácil
Amar é difícil

(da música O Dah Ho - André Abujamra - CD Infinito de Pé)

12 maio, 2007

Mahalab, Aura Sonora

De que a música é o espelho da alma, muitos já ouviram falar. Mas imaginem uma música que não só reflete a alma de quem a faz, e que ao mesmo tempo seja como um espectro, enchendo de cor a alma de quem a sente. Assim me senti ouvindo Mahalab.
Banda de aura sonora, de sentimentos puros, profundos, que nos faz conectar com nosso eu e nosso mundo. Extrema autenticidade no trabalho autoral, caracterizando um estilo próprio original e ousado.
A voz de Jamila Maia preenche os espaços com leveza e suavidade, ao mesmo tempo que exprime força e grandiosidade.
Os dedos de Maurício Verderame deslizam pelo baixo como se tecessem um manto de estrelas (e de alguma forma, me fez chegar até elas!)
Pedro Moreno toca sua bateria como um grande pintor expressionista e suas telas.

Enfim, Mahalab me fez voar sem que eu precisasse, sequer, tirar os meus pés do chão!


http://mahalab.blogspot.com/

11 maio, 2007

Panis et Circensis

Depois do lamentável episódio no show dos Racionais MC´s na madrugada do dia 06 de maio, na Praça da Sé, comecei a pensar mais profundamente na programação da Virada Cultural e até no que isso interfere culturalmente na cidade.
Aqui não me interessa falar sobre a música da periferia, discorrer sobre os shows, espetáculos, não nesse momento, ou sobre a ação da polícia, sobre quebra-quebra, vandalismo ou escândalo. Me interessa falar um pouquinho sobre o que vejo da política pública para a cultura na cidade de São Paulo, ou até sobre a possível falta dela.
Vamos começar pelo orçamento da Virada Cultural 2007, realizada nos dias 05 e 06 de maio. Segundo notícia veiculada na Folha de S. Paulo, "estima-se que o custo seja 33% do orçamento total (R% 12 milhões) da Secretaria da Cultura para 2007". Gente, 33% do orçamento da cultura em apenas 24 horas!!! E as outras 8736 horas do restante do ano? E todo mundo acha lindo apenas uma vez por ano o poder público atuar numa programação que ganha destaque, por conta do tamanho e grandiosidade do evento, e não propriamente, porque prima pela qualidade e pela intenção de transformação no cenário cultural da cidade.
Isso sim acho lamentável.
É a velha política do Pão e Circo.

03 maio, 2007

Melhor herança, impossível

Tenho lido tanto ultimamente, mais do que talvez eu tenha lido no ano passado inteirinho. Isso tem uma razão: no ano passado eu trabalhei mais do que as tetas das vacas leiteiras que abastecem a Parmalat. Não tinha tempo. Quando tinha, só queria dormir, de tanto cansaço. Agora trabalho como gente, em horário de gente, e tenho tempo para ler, e tenho, principalmente, muita disposição para ler.
Estou voltando à fase da devoração dos livros.

Quando eu era pequena, além de dentista (acredite se quiser) e bailarina, eu queria ser escritora. Adorava escrever. No Colégio de São Bento, onde estudei até a quinta série, tinha um jornal interno, publicado pelo pessoal do grêmio escolar (isso ainda existe?), chamado O Bentinho Picareta. Era muito bacana esse jornal. Às vezes eles selecionavam as melhores redações do primário, ginásio e colegial. Publicaram redações minhas diversas vezes.
Minha mãe tinha uma máquina de escrever verde, que eu gostava muito. Pegava folhas de sulfite e escrevia, escrevia, escrevia as minhas estórias sem parar. Inventei gente, inventei mundo, inventei tanta coisa e... hoje sinto saudades de um dia ter sido assim. De um dia ter tido uma imaginação tão fértil e de não ter me preocupado com o que os outros poderiam achar.
Duvido que Machado de Assis, Hilda Hilst, Julio Cortázar, entre mil outros, tenham se preocupado muito com a opinião alheia ao criarem personagens irônicos e às vezes absurdos.
Mas eu não sou a Hilda Hilst ou o Machado de Assis.
Bem, isso não importa.

O que importa é o assunto a que quero me referir: voltar ao velho e bom hábito da devoração de livros. Já estou voltando. Nos últimos dois meses cheguei a ler de 1 a 2 livros por semana. Ainda larguei o Werther no meio, porque ele é suicida e deprê, e eu não estou nesse pique. Tenho momentos e momentos para ler determinadas coisas.

Essa mania eu herdei de minha mãe.
Talvez fique de herança também os seus livros.
E meu padrasto já me deu coleções de obras, principalmente de literatura dramática, algumas escritas até em italiano e francês, que ele herdou de seu avô e nunca leu. (talvez eu tenha que me tornar uma poliglota forçadamente, para não desperdiçá-los).
Juntando tudo, terei leitura para uma vida toda.

Melhor herança que essa, impossível.

02 maio, 2007

Kill Kitty

Tarantino que se cuide. Depois de Kill Bill, a grande novidade é a Kill Kitty.
Acabei de me tornar uma assassina de gatinhos indefesos.

Sábado passado estava eu, no fatídico almoço de família, conversando com a parentada toda, aguardando um bom momento para tomar um café. Enquanto ninguém se decidia ou tomava coragem de ir até a cozinha pôr a água para ferver, conversávamos sobre coisas corriqueiras, uma vez em que parente que se vê todo fim de semana nunca tem muito o que conversar. Sentei do lado do meu avô, no sofá menor, minha avó estava sentada na sua cadeira confortável, minha tia-avó numa outra, e no sofá maior sentou a minha tia, seu marido, meu primo menor (14 anos) se aconchegou no meio dos dois, e a cachorrinha deles pulou em cima dos três. Com o circo familiar armado, surgiu o seguinte comentário: "olha a família toda reunida, falta só o João (meu primo maior)". E eu arrematei "falta o João e o Simba (o velho gato deles)". Meu avô, meio sem jeito, "mas o Simba não dá mais". E eu "como não dá mais". Aí ele respondeu "o Simba já foi". Tomei um susto porque fofoca na família corre rápida e solta, e perguntei diretamente à minha tia "O Simba morreu? Quando?". Ela disse "ah, hoje. Ele estava no veterinário desde terça-feira, com problema nos rins".
Pronto. Era o segundo que faltava para o meu primo se levantar e sair correndo para chorar no banheiro. Aí meu avô, minha tia e minha tia-avó lançaram olhares fulminantes em minha direção, dizendo "não fique falando, não toque no assunto, porque ele sofre!".
Em menos de um minuto minha irmã chega com o meu primo maior, e quando eu fui abrir o portão, maldita boca "Ana, o Simba morreu hoje, a tia só me contou agora".
Pronto. Era o segundo que faltava para o meu outro primo entrar na casa começar a chorar também.
Aí me lançaram, em dobro, mais olhares fulminantes, que diziam "olha só o estrago que você fez". E ainda pra ajudar, minha irmã "Você entrou falando aquilo e o João nem sabia".
Pronto. Era o segundo que faltava, agora sim, para eu abrir a minha maldita boca e falar um monte:
"Isso é normal, chorar a perda do nosso bichinho é sempre normal. Não tentem poupá-los desse sofrimento, porque isso é impossível. Deixe que sofram e que chorem."

E assim, metaforicamente, me tornei uma assassina de gatinhos.
E é aqui onde coloco todos esses poréns:
1) nenhum deles tem 4 ou 5 anos, para que tenham que dar mil voltas para contar um fato que por si só, já diz o inevitável, que é a morte.
2) mal sabem eles que com 11 anos de idade minha periquita (ave, hein) Ceci morreu na minha mão, enquanto eu passava remédio no seu bico. Eu sobrevivi!
3) mal sabem eles que, aos 14 anos, ninguém teve coragem de levar a nossa gatinha Bolinha para o sacrifício (a mando do veterinário, porque não havia mais jeito), e lá fui eu, carregando a gata no balaio e chorando no caminho. Eu também sobrevivi!
4) o pior exemplo que posso dar para isso tudo é que eu espero que eles nunca percam um amigo, como eu perdi há alguns anos atrás, assassinado brutalmente, sem motivos. Uma pessoa que tinha uma vida inteira pela frente, 27 anos de pura alegria, alguém que vou trazer comigo para sempre. E, apesar do peso todo dessa perda, eu também sobrevivi.

Sobrevivi, e cá estou para contar essas histórias e muitas outras mais. Viver que é duro, minha gente, morrer é ganhar a chance de se libertar.

Paz.