29 abril, 2006

Mãe da Rua

A Mãe da Rua é feminina, mas não mulher.
É um homem que nasceu com sensibilidade materna,
e tentou virar mulher.
Travestiu-se com seios de silicone,
virou a dama de todos os vagabundos.
É bonita e torta,
tem um braço quebrado
e uma perna quase morta.
Deve ter apanhado muito.
Ela me diz "bom dia" toda manhã
quando passo a caminho do trabalho.
Me deseja "bom serviço!",
acenando e sorrindo.
Ela é doce e delicada com os amigos
mendigos, maltrapilhos,
que compartilham o mesmo pedaço de calçada,
o mesmo pedaço de colchão de papelão,
às vezes o mesmo cobertor poído.
Mãe da Rua é vaidosa,
está sempre de rímel nos olhos
e unhas pintadas.
Apazigua as brigas da rapaziada,
dá comida na boca do bêbado
que se recusa a comer.
Mãe da Rua é o nome que eu criei
para esta figura anônima aos olhos dos transeuntes.
Ela não tem casa,
não tem dinheiro
nem dignidade.
Não sei seu nome,
nem sua idade.
Só sei que é triste
passar por ali todos os dias
e vê-la, sempre do mesmo jeito,
com toda simpatia,
até alguma beleza que foi mesmo beleza um dia,
a alegria dos miseráveis.
É triste porque a gente acaba se acostumando,
e assim nem ligando
para o que acontece ali.
A gente acaba abstraindo,
que do lado de lá da nossa janela,
existem milhares de pessoas
vivendo como vira-latas
nas grandes metrópoles.
Um dia um grande amigo disse:
"a gente é do tamanho dos nossos sonhos".
Essas pessoas sonharam,
ou tiveram pesadelos?

21 abril, 2006

06 abril, 2006

Sossega coração

Sossega, coração! Não desesperes!
Talvez um dia, para além dos dias,
Encontres o que queres porque o queres.
Então, livre de falsas nostalgias,
Atingirás a perfeição de seres.
Mas pobre sonho o que só quer não tê-lo!
Pobre esperança a de existir somente!
Como quem passa a mão pelo cabelo
E em si mesmo se sente diferente,
Como faz mal ao sonho o concebê-lo!
Sossega, coração, contudo! Dorme!
O sossego não quer razão nem causa.
Quer só a noite plácida e enorme.
A grande, universal, solene pausa
Antes que tudo em tudo se transforme.

Sossega coração e adormeça !

Fernando Pessoa


31 março, 2006

Lirismo

Estou farto do lirismo comedido
do lirismo bem comportado
Do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente protocolo e manifestações de apreço ao Sr. diretor

Estou farto do lirismo que pára e vai averiguar no dicionário o cunho vernáculo de um vocábulo

Abaixo os puristas

Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais
Todas as construções sobretudo as sintaxes de exceção
Todos os ritmos sobretudo os enumeráveis

Estou farto do lirismo namorador
Político
Raquítico
Sifilítco
Do lirismo que capitula ao que quer que seja for a de si mesmo.

De resto não é lirismo
Será contabilidade tabela de co-senos secretário do amante exemplar com cem modelos de cartas e as diferentes maneiras de agradar às mulheres, etc.

Quero antes o lirismo dos loucos
O lirismo dos bêbedos
O lirismo difícil e pungente dos bêbedos
O lirismo dos clowns de Shakespeare

Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.

Manuel Bandeira

08 fevereiro, 2006

O real valor do dinheiro

Outro dia, depois de analisar o meu falido extrato bancário, fiquei pensando no por quê do ser humano ser tão escravo do dinheiro.
Por causa de dinheiro, as pessoas se anulam, se matam, se degladiam, adoecem e o pior, acreditam piamente que é a fórmula da felicidade.
Se o ser humano diz que sem dinheiro não se vive, é porque ele mesmo criou esta necessidade ao mundo, e isto chegou a tal ponto que para mudar a situação só se o mundo explodir e nascer de novo.
Imagine se toda a energia que jogamos ao trabalhar só pra ganhar dinheiro, pra pagar contas, para comprar isso ou aquilo, fosse aplicada no amor, na criatividade, no cuidado com a natureza, como seria o mundo e as pessoas que nele vivem?
Eu olho para aquele pedaço de papel e fico pensando qual o real valor do dinheiro, porque o valor que atribuimos a ele é mais abstrato que qualquer pensamento ou sentimento, e só pode ser lógico porque é um valor numérico, consequente da aritmética e da matemática.
Infelizmente, neste sistema que criamos, somos obrigados a perder boa parte de nossa vida correndo atrás destes pedacinhos de papel, destes numerozinhos virtuais nas maquininhas bancárias, que agem como um medidor das nossas alegrias e tristezas.
Quando as pessoas perceberem o real valor do dinheiro, entrarão em desespero para recuperar o tempo, o amor , a saúde, as alegrias, os amigos perdidos, as paisagens que não foram vistas.
Não vale a pena ter a conta cheia e a vida e o coração vazios.

Questionando a massa cinzenta

No dia em que a ciência descobrir uma maneira de mudar a cor da massa encefálica, eu me candidato a cobaia desta experiência.
Para que uma massa cinzenta, quando ela pode ser azul-turquesa? ou verde-musgo? cor-de-burro-quando-foge?
Quero a minha massa encefálica com todas as cores do arco-íris!
E quando isso acontecer, eu poderei balançar a cabeça e minha massa ficará branquinha!
Já pensou que efeito legal?

Melhor então seria ter um cérebro-camaleão.
Eu olharia para o céu e a massa ficaria azul
a lua, e ficaria prata
o sol, e ficaria laranja!
Só olhando São Paulo ela ficaria cinza
e nos momentos de meditação, transparente.

Para a imaginação, a criatividade, a música,
os sentimentos,
para todas as coisas abstratas,
aquelas que a gente não vê mas percebe,
a massa poderia ficar toda colorida,
mas não poderia ser misturada,
senão daria branco na hora em que a gente mais precisa!

Encontrado!

Um manuscrito em papiro encontrado dia destes nas areias quentes do deserto do Atacama, viajou das terras longínquas por km durante milênios carregado por um tatu, que não era bola, cortando a terra por baixo. Os escritos foram traduzidos do copta em braile ao português, que não era o da padaria.
Os arqueólogos afirmam que os manuscritos traduzidos sofreram graves alterações quando passearam pela região do sul da Itália. A princípio as escrituras traziam um breve histórico sobre a figura também histórica chamada de Calor, com o nome alterado para Calu e acrescentado o sobrenome de Baroncelli, brasão dos guerreiros fundadores do Podio Maggiore que aterrorizaram por séculos a traumatizada cidade de Firenze, ou melhor, Florença na língua do Joaquim.
Calor, ou Calu, era uma pobre híbrida coruja-papagaio-humano, espécie em extinção cujo nome de origem era olhus linguos bundus, no latim, e muito estudada por pesquisadores de religiões antropozóoficas.
Estes manuscritos foram escritos (rimô) pelo poeta-herói Leminskis Paulus, numa breve descrição da espécie:

Uma frase-superfície
onde vida-frase alguma
não seja mais possível.
Frase, não, Nenhuma.
Uma lira nula,
reduzida ao puro mínimo,
um piscar do espírito,
a única coisa única.
Mas falo. E, ao falar, provoco
nuvens de equívocos
(ou enxame de monólogos?)
Sim, inverno, estamos vivos.

A espécie foi extinta antes da era de Noé e, se tivesse sobrevivido, hoje seria alvo de pesquisas científicas importantes sobre as causas da surdez irreversível.

02 fevereiro, 2006

BBB: vendando os olhos do Brasil

BBB pra mim só tem um significado: Bela Bosta Brasileira. Não sou "big brother" de ninguém a não ser dos meus próprios de sangue, ou do amigo e camarada para todas as horas, onde na amizade não é necessário o voyeurismo ou o policiamento de sua vida nas 24 horas do dia. Isso sim eu chamo de "big brother" saúdavel. Tá, sabemos que a iniciativa foi criada pelos holandeses da "Endemongol", mas que eu saiba a Holanda é um país de gente bem educada, onde vale a pena pagar os impostos que são bem aplicados e investidos no país. Não estou dizendo que o Brasil é uma merda, aliás, amo meu país e por isso luto para que ele seja melhor. Estabeleço a comparação pela seguinte questão: o que é mais fácil de se manipular, um povo famélico e ignorante ou um povo educado e bem abastecido? E "famélico" não é só fome de comida, mas fome de educação, de cultura, de saúde, fome de viver e não de só sobreviver o tempo todo.
O povo brasileiro riu e muito com os vídeos gravados pelos pobres coitados candidatos ao BBB6 que não foram contemplados. Para mim, o mais engraçado foi ver que ninguém percebeu que a Globo nem ousou tocar no assunto de transmitir, também, o vídeo dos que foram selecionados. De cara, isso dá margem a diversas questões: quem escolhe? como? por que? quais os critérios de seleção? como se justifica os que foram selecionados?. E a pergunta que não quer calar: não seria isto um jogo de cartas marcadas? É o que parece mais provável. Eu começaria tudo com a seguinte pergunta: BBB pra que???
Quem, dentre estes milhões de espectadores, sabe exatamente o que há por trás de tudo? Será que já se questionaram? Pensar dói? Ou é mais fácil acreditar que é tudo justo e honesto, ou tampar os olhos para não ver, pois a vida REAL é um fardo muito pesado de se carregar e nós, pobres mortais, temos o direito de, de vez em quando, nos sentirmos como verdadeiras Alices saltitantes no país das bunda-maravilhas?

O BBB não é a cara do Brasil, e nunca será. Eu sou brasileira e, sinceramente, me sinto ofendida toda vez que alguém diz isso pra mim. Para disfarçar, e não dar um tom racista ou preconceituoso, a emissora escolhe um "gordinho", um negro, um mulato e até um nordestino, como se BBB fosse a "oportunidade para todos", um outro um pouquinho mais "culto" para equilibrar com a acefalia da maioria de "pitboys" e mocréias "pitanguisadas", com suas bundas saradas e balouçantes, seus fios dourados de descolorantes, esvoaçando pela casa, em meio ao som de "lacraias" e "tigrões", uma verdadeira orgia "quebra-barraco" camuflada. Ah... e quem não ganha o tal 1 milhão terá a chance de aparecer na "Caras" ou na "Ti-ti-ti", "Sexy" ou "Playboy", fazendo a alegria das madamas e de adolescentes espinhentos. Ou de causar "pânico" à população, como aquela japonesa de cabelo loiro e bunda de mulata, num "exemplo de miscigenação".
Se querem que o BBB seja a "cara do Brasil", então sugiro o seguinte: coloquem na mesma casa um mendigo, um flagelado à beira da inanição, um analfabeto, um artista (de preferência o que passa o chapéu pra ganhar um troco), um interno da Febem, um traficante e, para equilibrar, um político corrupto (candidatos não irão faltar). Ah, não se esqueça do policial e do jogador de futebol.
Aí, quem sabe, nos olhemos no espelho da nossa realidade e enxerguemos onde é que está a verdadeira "cara do Brasil", esta sim ainda muito distante das lentes das câmeras e das telinhas de TV.

Calu Baroncelli

01 fevereiro, 2006

Reinvenção

A vida só é possível
reinventada.


Anda o sol pelas campinas
e passeia a mão dourada
pelas águas, pelas folhas...
Ah! tudo bolhas
que vem de fundas piscinas
de ilusionismo... — mais nada.


Mas a vida, a vida, a vida,
a vida só é possível
reinventada.


Vem a lua, vem, retira
as algemas dos meus braços.
Projeto-me por espaços
cheios da tua Figura.
Tudo mentira! Mentira
da lua, na noite escura.


Não te encontro, não te alcanço...
Só — no tempo equilibrada,
desprendo-me do balanço
que além do tempo me leva.
Só — na treva,
fico: recebida e dada.


Porque a vida, a vida, a vida,
a vida só é possível
reinventada

Cecília Meirelles

30 janeiro, 2006

Esperança

Todo o meu esforço canalizo para a vida.
Não para o equilíbrio, não para as certezas. Caminho suportando nas costas todo o peso da desesperança, pois que a esperança, é ridículo, dramático, que a humanidade ainda precise de tê-la.
Esperança em quê? Em remédios que curem?... Em poemas que se dão de mão em mão?
E as cartas sem resposta?
E os becos sem saída?
E a nova hipocrisia?
E o deus-dinheiro que nos espreita a cada esquina?... e a África?
E a América Latina?...
E todas essas universidades e tantos analfabetos?...
Toda gente sabe a extensão da verdade: surpreendendo a paisagem esfomeada, o gatilho já não precisa do dedo de ninguém.

Cruzeiro Seixas

22 janeiro, 2006

Incompreensível para as massas

Entre o autor e o público, posta-se o intermediário.

E o gosto do intermediário
é bastante intermédio, medíocre.

Medianeiros médios pululam nos meios, onde, galopando, teu pensamento chega.
Um deles considera tudo sonolento:
"Sou homem de outra têmpera! Perdão",
e repete um só refrão:
"O público não compreenderá".

Camponês, só viu um faz tempo, antes da guerra.
Operários, deu com dois, uma vez, numa ponte, vendo subir a água da enchente.

Mas diz que os conhece como a palma da mão.
Que sabe tudo o que querem!
Aqui vai meu aparte: chega de chuchotar bobagens para os pobres. Também eles, podem compreender a arte. Logo, que se eleve a cultura do povo!
Uma só, para todos.

Wladimir Maiakovski

O Anarquista

O anarquista que há em mim se junta com o ingênuo que há em você e propõe: "vamos fazer uma república utópica?".

O princípio da realidade passa com a sirene aberta, pára e nos autua em flagrante.

Alex Polari

O desbarato mais absurdo...

O desbarato mais absurdo não é o dos bens de
consumo, mas o da humanidade: milhões e milhões de seres humanos nasceram para ser trucidados pela história, milhões e milhões de pessoas que não possuíam mais do que as suas simples vidas.

De pouco ela lhes iria servir, mas nunca faltou quem de tais miudezas se tivesse sabido aproveitar. A fraqueza alimenta a força, para que a força esmague a fraqueza.

José Saramago

21 janeiro, 2006

É preciso não esquecer nada

É preciso não esquecer nada:
nem a torneira aberta nem o fogo aceso,
nem o sorriso para os infelizes
nem a oração de cada instante.

É preciso não esquecer de ver a nova borboleta
nem o céu de sempre.

O que é preciso é esquecer o nosso rosto,
o nosso nome, o som da nossa voz, o ritmo do nosso pulso.

O que é preciso esquecer é o dia carregado de atos,
a idéia de recompensa e de glória.

O que é preciso é ser como se já não fôssemos,
vigiados pelos próprios olhos
severos conosco, pois o resto não nos pertence.

(Cecília Meirelles)

19 janeiro, 2006

Solidão

"As pessoas são solitárias porque erguem paredes em vez de pontes."

Joseph Fort Newton

18 janeiro, 2006

estamos todos certos e somos todos errados

tem gente que diz que papai do céu faz as pessoas em fornadas e,
quando pessoas da mesma fornada se encontram,
elas se reconhecem.

tem gente que diz que pessoas de verdade
reconhecem quem é de mentira.

tem gente que diz que a pessoa certa
aparece sempre na hora certa e,
por isso,
ela é certa.

tem gente que acha que todas as pessoas são certas,
menos uma – ela própria.

tem gente que não acha nada,
mas procura que nem o diabo a vida toda.

a gente é cheio de regras e dogmas
que servem como uma desculpa
pra justificar as coisas injustificáveis que fazemos.

você já deve ter ouvido alguém dizer
que você é a pessoa certa na hora errada
e – geralmente – quem diz isso
são pessoas erradas na hora certa.

Essa busca pelo certo e pelo perfeito
é louvável até certo ponto.

Mas só até certo ponto,
porque não sei se você sabe o que acontece
com o artista que fica a vida toda retocando o mesmo quadro

Fernando Tucori


acesse: http://terremototorquemada.blogspot.com/

Eterno...

"Eterno é tudo aquilo que dura uma fração de segundo, mas com tamanha
intensidade, que se petrifica, e nenhuma força jamais o resgata..."

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"DEFINITIVO, como tudo que é simples!! Nossa dor não advém das coisas vividas, mas das coisas que foram sonhadas e não se cumpriram."

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Por muito tempo achei que a ausência é falta.

E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.



Carlos Drummond de Andrade




17 janeiro, 2006

SONETO 172 ANTOLÓGICO

As frases memoráveis da República
deviam ter, na pedra ou voz gravada,
registro, qual legenda avacalhada
num filme de comédia ou cena lúbrica.

"Prometo que agirei na vida pública
da mesma forma que ajo na privada!";
ou: "Fi-lo porque qui-lo!", tão surrada;
ou: "Não me deixem só!", suprema súplica.

Também vou proferir, eu que não minto,
a pérola imortal de quem adora
mandatos, completado o quarto ou quinto:

"Da vida partidária saio agora.
Já fiz o que devia, e alívio sinto.
Caguei, limpei a bunda, e vou-me embora!"

Glauco Mattoso