14 setembro, 2010

dama de vermelho

Duas e tantas da tarde, metrô cheio, muito calor. Eu de vestido vermelho acima dos joelhos e sandalinha. Desci na plataforma da estação Ana Rosa. Comecei a subir as escadas. O trem lá embaixo arrancou. A ventania subiu. Não deu tempo nem de pensar. Só consegui ouvir os urros de um grupelho adolescente. Olhei pra trás. Uma senhora fazia o sinal da cruz.

19 agosto, 2010

enigmático

Você me escreve um poema toda vez que me diz,
que me toca, que me beija,
que me olha e que me deseja,
porque me comove e me sensibiliza...
poesia esta que carrega o mistério das frases não ditas,
dos idiomas ainda não inventados...
Me sinto assim, mulher que se resignifica fêmea,
quando você faz estes poemas pra mim...
e te permito me olhar nos olhos
para que, inteira, possa dizer-te,
acessível aos meus enigmas
de mulher-esfinge:

Decifra-me ou devoro-te!

E o que sobra,
felizmente,
são as duas opções...

25 março, 2010

a hora

E quando tudo tiver sua hora de chegar
eu já terei ido longe.
Percorrido uma distância urgente, ofegante,
no cansaço em que se divide um dia civil.

Eu, não menos civilizada,
aguardo o tempo ordinário em que não fiz
o que deveria ter feito ou poderia fazer:
traço a minha ocasião.

Não determino nada, mas corro contra o tempo,
esse devorador da vida que vaga, lentamente ágil,
com a força de um furacão.

Não resisto às variações
do meu meridiano central.

As horas não serão mais horas,
partes, números, ensejos,
nem extraordinárias cargas de operários tristes,
intervalos críticos e decisivos,
momentos de desejo,
quando tudo tiver a hora de chegar
eu já terei partido, em boa hora:
se a badalada no sino do relógio, grita,
inquieta, em alta noite,
quando tudo está em silêncio.

Persevero, paciente,
pois não tenho prazo para acontecer.

16 março, 2010

inferno

Ainda prefiro acreditar que inferno é somente o poço onde cai a água depois de mover a roda do moinho.

09 fevereiro, 2010

simples

O amor puro, leve e sucinto, assim te sinto, como a simplicidade em que os pássaros descrevem em linhas súbitas no ar, o equador. Como o passo descompassado de uma música essencial à mente e ao coração. O passar de horas onde todo tempo é tempo, onde o corpo é ode descontínua, onde a vida lúcida e reluzente deságua em desejo e poesia.

08 janeiro, 2010

o gato

Depois de tantos desvarios na madrugada
trocando miúdos até amanhecer
esperamo-nos inteiros, intensos animais.

Chegaste devagar,
quase sorrateiro,
agora te percebo de andar sereno e leve
o felídeo vezes desconfiado.

Selvagem quando decide,
arredio quando necessita,
à mínima luz o brilho da retina
do meu eixo, por vezes, me retira...

O gosto do afago, mas sem exagero:
se te aperto muito, foges de mim.

O belo gato se arisca e quer sossego.

Mas quando te decides por carinho
e se enrosca tranquilo nas minhas pernas
de pêlos macios, pele quente,
sou fêmea, bicho-mulher, inteira
desfrutada com gosto e devagar.

E ronrona no meu ouvido, o belo gato...

O mundo selvagem torna-se paraíso
do amor felliniano felino, o amor humano dos bichos.

estética da tragédia

Por que as pessoas se interessam tanto por mortes, desastres, desgraças? Será para alimentar mais o medo? Será para questionar algum vazio de existência (já que, para morrer, basta estar vivo)? Será pura e simples morbidez? Sadismo? A morte serve ao capitalismo: vende jornais, revistas, anúncios na televisão. A morte amortecendo as gentes.


(há beleza na morte ou morte na beleza?)

04 janeiro, 2010

festejo

Com ar de festa desejo os sentimentos urgentes e seus momentos de pequeno alcance; a divindade das horas que despertam imagens apagadas; as considerações sobre a vida que ultrapassam palavras; as imprevisíveis liberdades conquistadas, irreparáveis e inconstantes; as simplicidades de uma consciência cintilante. Nosso devir de expressão, a nossa poética isolada contaminando a multidão.

25 dezembro, 2009

para ti

De olho no mar onde o sol aponta todas as manhãs, os azuis de água e céu e outras cores indescritíveis, celebramos as divindades da natureza, em completa congruência, porto de nossas almas. E brincamos na lama escura do mangue, rindo à boca larga das esperanças grandes, inocentes e felizes das crianças, o riso mais puro que se tem na vida. Abrigo, refúgio, descanso. O amor pulsante em cada grão de areia.

16 dezembro, 2009

da celebração da vida

Ela nos deixou esta madrugada. Nos deixou para dançar num jardim de anjos e flores e coração aberto para o mundo. Ela nos deixou e ficou também, refletida numa estrela, quem sabe, um ponto de luz. E eu, que nada sei sobre a morte, celebro com gratidão a vida, pois o que me resta, neste momento, é saber que ela virou poema, como fez de poema sua vida.



Para Madalena, pra sempre junto da gente.

10 dezembro, 2009

da subjetividade do ser

Outro dia me olhei no espelho e questionei se aquilo que eu via era uma representação da minha mente, se era real ou um pensamento dominante. De tão volátil e efêmera, sem duração, me senti um personagem de ficção, uma idéia vã de uma imaginação sem fundamento. Respirei fundo, olhei de novo e só consegui chegar a uma única conclusão: eu sou um devaneio.

Depois daquele dia, nunca mais me vi.

08 dezembro, 2009

paragem

Quero a próxima estada a beira-mar
- cura e repouso -
que os cantos urbanos inspiraram cansaço.
E se posso e passo, de mala em punho
pra uma paragem de céu e água,
o amor fazendo companhia,
flores na estrada,
desta vida quero eu mais nada...

Que tudo seja sonho e canção
e passarinhos pousando na janela...

07 dezembro, 2009

o nome da minha nova banda é...

Cansei de Ser Medíocre.

frustração

Tentei buscar o significado dos meus sentimentos no dicionário, mas só encontrei palavras sem sentido.

caminhão

Um caminho é feito de muitos caminhos.

o difícil exercício da não compreensão

A alma às vezes dói e nem sempre é preciso entender por quê - deixe-a ali, esquecida e vazia como uma mariposa morta. Não compreender pode ser bonito, digno e pode poupar uma porção de inquietações, de dúvidas, de incertezas, as sofríveis perguntas sem respostas, a falha busca de conceitos vãos. Mas não compreender, para mim, é exercício difícil, é esforço homérico de abstração, e me parece muitas vezes que seja necessário o pensamento vago, a ausência de um sorriso ou uma lágrima, ou algo que me valha para não enlouquecer.

da emergência vital

Sentimentos maciços recaem sobre minha cabeça e não entram no vocabulário dos homens. Transmito meu entusiasmo de uma alma à outra por outra forma de comunicação; elas dão as mãos e se convidam: vamos tonificar a vida? Viver a experiência salutar da emergência, o pulo do impulso essencial, sendo assim, renovada, a vida se mostra por sua vivacidade quando tudo tornado poesia seja, dentro, fenômeno da nossa liberdade.

24 novembro, 2009

circunstância

Há lodo e poesia nos meus devaneios. A minha imaginação sem fundamento, vã e incoerente, me põe de pé nos dias todos. Nas noites, mesmo acordada, entrego-me às impressões de minha alma. Deixo-me por instantes. E quando volto, desvaneço depressa, pois sou caminhante transitória neste mundo, passante a vida de idéias e amores e abrigos ilusórios. Sou mera circunstância, sem motivo de ser. Aqui aconteço.