E quando tudo tiver sua hora de chegar
eu já terei ido longe.
Percorrido uma distância urgente, ofegante,
no cansaço em que se divide um dia civil.
Eu, não menos civilizada,
aguardo o tempo ordinário em que não fiz
o que deveria ter feito ou poderia fazer:
traço a minha ocasião.
Não determino nada, mas corro contra o tempo,
esse devorador da vida que vaga, lentamente ágil,
com a força de um furacão.
Não resisto às variações
do meu meridiano central.
As horas não serão mais horas,
partes, números, ensejos,
nem extraordinárias cargas de operários tristes,
intervalos críticos e decisivos,
momentos de desejo,
quando tudo tiver a hora de chegar
eu já terei partido, em boa hora:
se a badalada no sino do relógio, grita,
inquieta, em alta noite,
quando tudo está em silêncio.
Persevero, paciente,
pois não tenho prazo para acontecer.
Se todo mundo pensasse seriamente no absurdo que é tudo isso de ser feito de carne, mas também olhar as estrelas, de ter um rosto, mas também ter aquele buraco fétido, se todo mundo tivesse o hábito de pensar, haveria mais piedade, mais solidariedade, mais compaixão e amor. Hilda Hilst
25 março, 2010
16 março, 2010
inferno
Ainda prefiro acreditar que inferno é somente o poço onde cai a água depois de mover a roda do moinho.
09 fevereiro, 2010
simples
O amor puro, leve e sucinto, assim te sinto, como a simplicidade em que os pássaros descrevem em linhas súbitas no ar, o equador. Como o passo descompassado de uma música essencial à mente e ao coração. O passar de horas onde todo tempo é tempo, onde o corpo é ode descontínua, onde a vida lúcida e reluzente deságua em desejo e poesia.
27 janeiro, 2010
08 janeiro, 2010
o gato
Depois de tantos desvarios na madrugada
trocando miúdos até amanhecer
esperamo-nos inteiros, intensos animais.
Chegaste devagar,
quase sorrateiro,
agora te percebo de andar sereno e leve
o felídeo vezes desconfiado.
Selvagem quando decide,
arredio quando necessita,
à mínima luz o brilho da retina
do meu eixo, por vezes, me retira...
O gosto do afago, mas sem exagero:
se te aperto muito, foges de mim.
O belo gato se arisca e quer sossego.
Mas quando te decides por carinho
e se enrosca tranquilo nas minhas pernas
de pêlos macios, pele quente,
sou fêmea, bicho-mulher, inteira
desfrutada com gosto e devagar.
E ronrona no meu ouvido, o belo gato...
O mundo selvagem torna-se paraíso
do amor felliniano felino, o amor humano dos bichos.
trocando miúdos até amanhecer
esperamo-nos inteiros, intensos animais.
Chegaste devagar,
quase sorrateiro,
agora te percebo de andar sereno e leve
o felídeo vezes desconfiado.
Selvagem quando decide,
arredio quando necessita,
à mínima luz o brilho da retina
do meu eixo, por vezes, me retira...
O gosto do afago, mas sem exagero:
se te aperto muito, foges de mim.
O belo gato se arisca e quer sossego.
Mas quando te decides por carinho
e se enrosca tranquilo nas minhas pernas
de pêlos macios, pele quente,
sou fêmea, bicho-mulher, inteira
desfrutada com gosto e devagar.
E ronrona no meu ouvido, o belo gato...
O mundo selvagem torna-se paraíso
do amor felliniano felino, o amor humano dos bichos.
estética da tragédia
Por que as pessoas se interessam tanto por mortes, desastres, desgraças? Será para alimentar mais o medo? Será para questionar algum vazio de existência (já que, para morrer, basta estar vivo)? Será pura e simples morbidez? Sadismo? A morte serve ao capitalismo: vende jornais, revistas, anúncios na televisão. A morte amortecendo as gentes.
(há beleza na morte ou morte na beleza?)
(há beleza na morte ou morte na beleza?)
04 janeiro, 2010
festejo
Com ar de festa desejo os sentimentos urgentes e seus momentos de pequeno alcance; a divindade das horas que despertam imagens apagadas; as considerações sobre a vida que ultrapassam palavras; as imprevisíveis liberdades conquistadas, irreparáveis e inconstantes; as simplicidades de uma consciência cintilante. Nosso devir de expressão, a nossa poética isolada contaminando a multidão.
25 dezembro, 2009
para ti
De olho no mar onde o sol aponta todas as manhãs, os azuis de água e céu e outras cores indescritíveis, celebramos as divindades da natureza, em completa congruência, porto de nossas almas. E brincamos na lama escura do mangue, rindo à boca larga das esperanças grandes, inocentes e felizes das crianças, o riso mais puro que se tem na vida. Abrigo, refúgio, descanso. O amor pulsante em cada grão de areia.
16 dezembro, 2009
da celebração da vida
Ela nos deixou esta madrugada. Nos deixou para dançar num jardim de anjos e flores e coração aberto para o mundo. Ela nos deixou e ficou também, refletida numa estrela, quem sabe, um ponto de luz. E eu, que nada sei sobre a morte, celebro com gratidão a vida, pois o que me resta, neste momento, é saber que ela virou poema, como fez de poema sua vida.
Para Madalena, pra sempre junto da gente.
Para Madalena, pra sempre junto da gente.
10 dezembro, 2009
da subjetividade do ser
Outro dia me olhei no espelho e questionei se aquilo que eu via era uma representação da minha mente, se era real ou um pensamento dominante. De tão volátil e efêmera, sem duração, me senti um personagem de ficção, uma idéia vã de uma imaginação sem fundamento. Respirei fundo, olhei de novo e só consegui chegar a uma única conclusão: eu sou um devaneio.
Depois daquele dia, nunca mais me vi.
Depois daquele dia, nunca mais me vi.
08 dezembro, 2009
paragem
Quero a próxima estada a beira-mar
- cura e repouso -
que os cantos urbanos inspiraram cansaço.
E se posso e passo, de mala em punho
pra uma paragem de céu e água,
o amor fazendo companhia,
flores na estrada,
desta vida quero eu mais nada...
Que tudo seja sonho e canção
e passarinhos pousando na janela...
- cura e repouso -
que os cantos urbanos inspiraram cansaço.
E se posso e passo, de mala em punho
pra uma paragem de céu e água,
o amor fazendo companhia,
flores na estrada,
desta vida quero eu mais nada...
Que tudo seja sonho e canção
e passarinhos pousando na janela...
07 dezembro, 2009
frustração
Tentei buscar o significado dos meus sentimentos no dicionário, mas só encontrei palavras sem sentido.
o difícil exercício da não compreensão
A alma às vezes dói e nem sempre é preciso entender por quê - deixe-a ali, esquecida e vazia como uma mariposa morta. Não compreender pode ser bonito, digno e pode poupar uma porção de inquietações, de dúvidas, de incertezas, as sofríveis perguntas sem respostas, a falha busca de conceitos vãos. Mas não compreender, para mim, é exercício difícil, é esforço homérico de abstração, e me parece muitas vezes que seja necessário o pensamento vago, a ausência de um sorriso ou uma lágrima, ou algo que me valha para não enlouquecer.
da emergência vital
Sentimentos maciços recaem sobre minha cabeça e não entram no vocabulário dos homens. Transmito meu entusiasmo de uma alma à outra por outra forma de comunicação; elas dão as mãos e se convidam: vamos tonificar a vida? Viver a experiência salutar da emergência, o pulo do impulso essencial, sendo assim, renovada, a vida se mostra por sua vivacidade quando tudo tornado poesia seja, dentro, fenômeno da nossa liberdade.
24 novembro, 2009
circunstância
Há lodo e poesia nos meus devaneios. A minha imaginação sem fundamento, vã e incoerente, me põe de pé nos dias todos. Nas noites, mesmo acordada, entrego-me às impressões de minha alma. Deixo-me por instantes. E quando volto, desvaneço depressa, pois sou caminhante transitória neste mundo, passante a vida de idéias e amores e abrigos ilusórios. Sou mera circunstância, sem motivo de ser. Aqui aconteço.
11 novembro, 2009
apagão
Apagões podem ser muito produtivos. Pela casa ressoavam os belos sons do velho piano de minha mãe. Ela empolgada em recuperar seus repertórios de memória, e eu ninando criança e cachorro com vocalises improvisadas. Para os vizinhos, funcionou como berceuse para dormir cedo, aproveitando o ensejo da escuridão. Ainda bem que piano e voz não necessitam de luz elétrica pra funcionar. A luz que eles necessitam é outra.
30 outubro, 2009
passageiro
Passa depressa, não...
o local que tu transita muda a gente.
Quero dizer, mudei eu. Sim.
Não tudo, porque não dá, né?
Mas mexeu, assim,
que nem furacão que passa na cidade.
Não devastação. Tou falando errado. Peraí.
Já sei! tipo terremoto.
Tremeu tudo aqui dentro.
Dizem que o que é bom dura pouco, mas não na cabeça,
essa dona de casa que manda e desmanda
no que a gente sente.
Não passa, não, vai. Fica aqui.
Eu sei pouco da vida, eu sei.
Ela também passa depressa, não é?
Só um pouquinho que seja, então.
Senta aqui do meu lado. Me dá a mão?
Não passa depressa, não...
o local que tu transita muda a gente.
Quero dizer, mudei eu. Sim.
Não tudo, porque não dá, né?
Mas mexeu, assim,
que nem furacão que passa na cidade.
Não devastação. Tou falando errado. Peraí.
Já sei! tipo terremoto.
Tremeu tudo aqui dentro.
Dizem que o que é bom dura pouco, mas não na cabeça,
essa dona de casa que manda e desmanda
no que a gente sente.
Não passa, não, vai. Fica aqui.
Eu sei pouco da vida, eu sei.
Ela também passa depressa, não é?
Só um pouquinho que seja, então.
Senta aqui do meu lado. Me dá a mão?
Não passa depressa, não...
janelas
Acho lindo o modo como fecha as janelas. O corpo nu recostado levemente à parede, as palmas abertas tocando o vidro, te imprimindo as digitais. O olhar perdido lá fora observando a luz negra da noite e o movimento da cidade. O respiro profundo e denso entre as cortinas.
Acho lindo o modo como fecha as janelas. O jeito que recosta a cabeça no travesseiro em doce cansaço. Da forma que me fitas carinhosamente. Como cerra os olhos à espera do dia amanhecer.
Acho lindo o modo como fecha as janelas.
Acho lindo o modo como fecha as janelas. O jeito que recosta a cabeça no travesseiro em doce cansaço. Da forma que me fitas carinhosamente. Como cerra os olhos à espera do dia amanhecer.
Acho lindo o modo como fecha as janelas.
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