31 agosto, 2009

coexisto

relativa
coexisto em virtude
de uma causa extrínseca
de uma cousa intrínseca

não sou essencial
mas verossímil
provável
necessária
e plausível

sou inútil

ínsipida e inodora
mas nunca incolor

uma incógnita
uma variável
em gênero, número e grau
alguma coisa de valor
independente do sinal

portanto
tornei-me inerente a mim
para nunca estar sozinha
até o final.

24 agosto, 2009

rito

Em face de tua face
serena e terna
mantive-me entregue
ao rito de Eros
- este culto especial -
nosso deleitoso desígnio.
Na dramaturgia das horas
perdi-me preenchida
de teus caminhos,
inundada fartamente
por teus rastros
que dentro de mim seguiam.
De emoção terna
fui tomada
ao alcançar o cume.
E o mundo lá fora era um vazio,
pois construímos um universo
entre as paredes
que por nós sorriam, suadas
por tantos deslocamentos
de carícias e carinho.
De sensações, compusemos
grande peça orquestral:
doçura deliciosa de nossos sons,
como assim conjugo agora
tal obra em verso,
inspirada por delicados sentimentos.
Da dedicação íntima destes anseios,
resta a cerimônia suave e demorada
que não cansa.

Que não cansa.

E não cessa.

18 agosto, 2009

liaison

À procura de um rumo profundo, penetrante no interior dos corpos e suas moléculas, ela o convida a caminhar por sobre o bruto artefato de sua couraça animal, fina e macia, feito tecido de algodão. Ele, em toda graça de sua imaginação, tateia o invólucro como uma aventureiro em exploração, e ela se arrepia por toda eletricidade de suas mãos, duas estrelas irradiando energia em seus volumes, transfigurando a abundância de sua formas. Sobrepostos e invertidos, imprimem nos lençóis rastros luminosos em pura revolução orbital, e os olhos fixos em firmamento cintilam, até Vênus despir-se para eles, pouco antes do amanhecer, despreocupadamente nesta verve pululante do querer.

12 agosto, 2009

folguedo

Como se fora música, a coisa descrita
não se calça de meros adjetivos.
De fato memorável a ousadia grita
sem delongas racionais:
prazer inopinado que nos causa a vista,
coisa que surpreende, espanta e agita.
É substância pura e inamovível,
em sua conjugação de ser verbo defectível.
Tão tomados pelo labor, tão distraídos
não percebiam, no calor da movimentação,
olhares curiosos que no entorno não abatiam
em momento algum tal grau de excitação.
Ao céu o corpo celeste em órbita elíptica,
a iluminar alma e matéria em conexão plena,
arrebatadas por excessiva inspiração.

Da ligadura entre dois corpos que comunicam
júbilo, deleite e satisfação;
deste lugar onde se passa de um ponto a outro
como acordes formados em sucessão,
evocação agradável aos ouvidos, pele, mãos,
que em regozijo lascivo fez-se canção.

Dois artistas em ruidosa alegria
exaltados em intensa e sublime criação.

01 agosto, 2009

ancestral

moço robusto de olhos verdes
carregando peso de sacos de farinha
a vender sábado na feira
pé descalço na estrada quente
pés de areia

em seu andar depressa no interior das alagoas
deu-se a topar com meia dúzia de cangaceiros
de lamparina acesa a tropa de lampião
corrida a fuga a deixar os seus lá atrás
atravessando brasis a procurar outro verão.

Para meu avô Ilídio, olhar de mar de saudades.

férias
















de tanto em tanto fiz-me agora
firmando, a mim, o olhar de fora
céu recheado a me acalantar
de estrelas velando o sono
e bando de cigarras a me ninar
meu peito enchido em canto mareia
e eu reclamo olhando pra lua cheia
sobre as dunas de meus sonhos de areia

a noite grita em caruaru
em mamanguape me espero como tal
abri meus olhos de mel pro verde de maceió
e chorei de saudades sentindo o cheiro de natal.

06 julho, 2009

equilibrista

Equilibrista
nas pontas dos pés
revolve a linha da vida
que bambeia e bambeia
e o coração da aramista
aos pulos, no susto bombeia
mas ela é equilibrista
e não titubeia
faz juz ao sangue
que percorre tuas veias

Equilibrista
a dor no peito
pede um movimento arriscado
sofrendo, pende-se para um lado
amando, pende-se para outro
é sua alma em equilíbrio
num corpo cansado
mas ela é equilibrista
e não caminha errado

Equilibrista
segue na corda bamba
de braços abertos
celebrando o existir
a vicissutude, a instabilidade
seus portos do devir
Em antagônicas tendências,
ela não se abate
pois é equilibrista
entre a dureza e a alegria,
sorri, mesmo sem platéia,
celebrando sua essência de artista.

24 junho, 2009

mon cœur

Paciente e esforçado, não tão benevolente, nem tampouco compassivo, ele se retrai em cansaço. Mergulhado em larga franqueza, já disse tudo o que sentia, foi generoso, responsável, reinventou-se e refletiu, variante sem designação, ficou farto, amou incondicionalmente e foi amado, feriu-se pulsionado em sua dinâmica, esta de pulsar sem freio nem pouso, de ser sempre o centro motor de impulsos e, mesmo repetitivo em suas ações, quis expurgar suas faculdades afetivas, sentiu-se vago, extremado e enfraquecido, perdeu o brio e a coragem, resignou-se de seu próprio destino... enfastiado de tudo e todos, recriou-se em sua imaginação, pegou o primeiro vôo para longe e agora, sossegado e feliz, solitário porém preenchido de novas sensações, transfigura-se belo dançarino que, sem vontade de ser encontrado, chora a calma das madrugadas ao contemplar a vida transcendida pelo toque suavemente intenso de guitarras e castanholas, sentado à mesa de um café cantante, e sorri à sua volta pelos espíritos desesperados, perdidos na Andaluzia dos poemas de Garcia Lorca.

16 junho, 2009

insensata

Perdoem-me a minha insensatez. Ando pra frente procurando o horizonte que se encontra atrás de mim, volto-me a mim mesma procurando as direções que tracei à lápis, um sol na diagonal brilhando me faz cerrar os olhos, e cega de sentidos apalpo obstáculos que me rondam, pulo um, tropeço em outro, errando e acertando sempre, posso cair e levantar numa única fração de segundo, e quando a luz da lua me colore com aroma de patchuli, eu danço o fim e início de meus tempos, brinco de ciranda agarrando fortemente os que me apertam e se distanciam aos poucos, imutável e espontânea perco a faculdade de julgar, exalo por meus poros um espírito cuja forma reflexa é razão e emoção, é tudo e nada... a minha insensatez é a minha criança que brinca de bilboquê à espera de que a bola flutue para o céu e desça feito um meteoro que me atinja a fronte, abrindo minha mente para o mundo e espalhando pedaços de mim pelos lugares por onde ainda não passei.

29 maio, 2009

l’inspiration de l’artiste



a arte traduz

minha existência

antes que me esqueça

de lembrar

quem sou.

travesseiro

é um grande amigo
que ouve meu choro
(baixinho)
e me abraça
(quentinho)
pra me consolar.

dunas

meu coração é beira de mar
bordejado por dunas
de medos, de amores
esses montes de areia
que a vida, feito vento
carrega pra algum lugar.

pássaros

há pessoas que são como pássaros
pousam em minha mão
e voam, num piscar de olhos

simplesmente, se vão.

28 maio, 2009

eis a questão

quantos adjetivos acompanham
determinantes
os verbos da existência?

o poeta

E era assim que ele seguia em suas primitivas interpretações, senhor de tantas fabulações sobre o mundo, sempre tão incompreendido, porém nunca ingênuo, não era louco, apenas gostava de alegorias, expunha fatos através de símbolos criados com tanta maestria, divididos entre a realidade e o enigma, a dúvida e a certeza. Sentava-se à beira de calçadas para contar suas histórias, incríveis, fantásticas, a quem gostava de ouvir, perambulava por aí, vaticinando seu próprio futuro, "morrerei ao final de outro dia!", arrancando gargalhadas pelo óbvio... porém o óbvio não aconteceu, os séculos se foram e este senhor não morreu, ficou doente, foi preso, torturado, mas sobreviveu, e hoje vive a andar pelas ruas das cidades, a contar as histórias das gerações, uns acreditam, outros nem escutam, já tentaram interná-lo, perturbá-lo com falsas verdades, mas nada atinge de fato este imortal poeta, que tem o nome de Liberdade.

22 maio, 2009

brinde

No fundo
toca a música
do mundo,
tilintar de copos,
gente a gargalhar.

Eu, aqui, pensando
com meus pontos
brindo com poesia
na mesa do bar.

tela

Minhas pálpebras
abrem e fecham
feito leque
se vejo a vida
pintada numa tela
registro de alma em cor,
vibrante e bela,
que deixa minha vista enternecida.

E quando, ao penetrar
por tal janela,
meus olhos procurarão
razão que eu sinta,
mas descubro que o sentir
não se interpela
e uma lágrima escorre
e me mancha
feito tinta.



Para Hugo Perucci, alma que colore o mundo.