Se todo mundo pensasse seriamente no absurdo que é tudo isso de ser feito de carne, mas também olhar as estrelas, de ter um rosto, mas também ter aquele buraco fétido, se todo mundo tivesse o hábito de pensar, haveria mais piedade, mais solidariedade, mais compaixão e amor. Hilda Hilst
13 janeiro, 2006
O Analfabeto Político
é o analfabeto político
Ele não ouve,
não fala,
nem participa dos acontecimentos políticos
Ele não sabe que o custo de vida,
o preço do feijão,
do peixe,
da farinha, do aluguel,
do sapato e do remédio
dependem das decisões políticas
O analfabeto político é tão burro
que se orgulha e estufa o peito, dizendo que odeia política
Não sabe o imbecil que,
da sua ignorância política,
nasce a corrupção,
o menor abandonado, o assaltante
e o pior de todos os bandidos:
que é o político vigarista,
pilantra, o corrupto
e o lacaio das empresas nacionais e multinacionais.
Bertolt Brecht
Balangandans
preciosos
Que talvez nos trouxessem direto um pro outro?
É justo que um pote de ouro venha ao seu encontro (e ao meu)
E desencadeie pânico, paralisação, desastres, desculpas?
É justo te dar um beijo na boca à margem da testa, da fala
E da escrita, de uma represa, uma festa?
é justo permitir que uma palavra desgovernada deixe minha boca
E aumente minha resistência a você?
Se uma pessoa só é uma máquina só
Se ela (provavelmente)
Canta, dança, pensa, treme
Aflita
Não será que tem respostas nas pontas dos dedos
-Dados, balangandans no pensamento-
Que costumem nos acompanhar?
Maurício Pereira
Cultura Lira Paulistana
E como a dita cuja é craca é crica
Foi grudar bem na cultura
Nova forma de censura
Pobre cultura como pode se segura
Mesmo assim mais um pouquinho
E seu nome será amargura ruptura sepultura
Também pudera coitada representada
Como se fosse piada
Deus meu por cada figura sem compostura
Onde era ataulfo tropicália
Monsueto dona ivone lara campo em flor
Ficou tiririca pura
Porcaria na cultura tanto bate até que fura
Que droga merda
Cultura não é uma tchurma
Cultura não é tcha tchura
Cultura não é frescura
A brasileira é uma mistura pura uma loucura
A textura brasileira é impura mas tem jogo de cintura
Se apura mistura não mata
Cultura sabe que existe miséria existe fartura e partitura
Cultura quase sempre tudo atura
Sabe que a vida tem doce e é dura feito rapadura
Porcaria na cultura tanto bate até que fura
Cultura sabe que existe bravura agricultura
Ternura existe êxtase e agrura noites escuras
Cultura sabe que existe paúra botões e abotoaduras
Que existe muita tortura
Cultura sabe que existe cultura
Cultura sabe que existem milhões de outras culturas
Baixaria na cultura tanto bate até que fura
Socorro elis regina
A ditadura pulou fora da política
E como a dita cuja é craca é crica
Foi grudar bem na cultura
Nova forma de censura
Pobre cultura
Como pode se segura
Mesmo assim mais um tiquinho
Coitada representada
Como se fosse um nada
Deus meu por cada feiúra
Sem compostura
Onde era pixinguinha elizeth macalé e o zé kéti
Ficou tiririca pura
Só dança de tanajura
Porcaria na cultura tanto bate até que fura
Que pop mais pobre pobre pop
Itamar Assumpção
A poesia que a gente não vive...
Charles Bukowski
Quem se importa?
algumas pessoas falam
que eu tenho problemas com bebidas
meu único problema
é estar sóbrio
eu me considero um bêbado socialista
mais do que um bebedor social
às vezes a única felicidade
é a bebedeira
às vezes
nada mais importa
eu continuo me perguntando
porque me preocupo
quando ninguém mais se importa
acesse: http://blogdobuk.weblogger.terra.com.br/index.htm
12 janeiro, 2006
Análise
Que me vem de te olhar, que, ao entreter
Os meus olhos nos teus, perco-os de vista,
E nada fica em meu olhar, e dista
Teu corpo do meu ver tão longemente,
E a idéia do teu ser fica tão rente
Ao meu pensar olhar-te, e ao saber-me
Sabendo que tu és, que, só por ter-me
Consciente de ti, nem a mim sinto.
E assim, neste ignorar-me a ver-te, minto
A ilusão da sensação, e sonho,
Não te vendo, nem vendo, nem sabendo
Que te vejo, ou sequer que sou, risonho
Do interior crepúsculo tristonho
Em que sinto que sonho o que me sinto sendo.
Fernando Pessoa
S.O.S. para todos nós!
A morte me apareceu certa noite no quarto. Era uma menina vestida de negro, os cabelos loiros escorridos. O vestido era estufado, brilhoso. Assim que a vi, soube que era a morte. Recostou-se em um canto de parede à minha frente, os pezinhos cruzados, não usava sapatos.
Então, Hans, estás pronto?
Não, respondi-lhe agoniado.
Sorriu. Tinha os dentes negros e minúsculos. Assustei-me. Esperou que eu me acalmasse e perguntou:
Quanto tempo você ainda deseja?
Algum tempo.
Respondeu-me que era preciso que eu fosse mais preciso. A frase tinha humor e pude até sorrir. Disse-lhe:
Mais dez anos talvez.
Dez anos talvez, é hoje.
Impossível.
Não. Para ser mais exata: dez anos e dez dias. O tempo é outro quando eu apareço.
Senti náuseas e uma dor profunda no peito. Ainda pude perguntar-lhe:
Há uma outra vida?
Sim. Milhões de crianças como eu. Você será uma delas. É tedioso e até inaceitável, mas é assim.
O espelho do quarto refletiu um menino vestido de negro, calças curtas e camisa comum, os cabelos loiros escorridos. Olhei-me assombrado. Depois disso, nunca mais me vi.
Hilda Hilst
in Cartas de um Sedutor
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Que tal avivar o mito do Bambu Pelegrino neste nosso Brasil banguela e tão rico de ritos? Carnaval, Bicho, Bola, Anões, Saques, Cartolas , corruptas e obscenas cabriolas para escapar da jaula?
Oh, por favor, sorriam! Os corpos de todos nós estão curvos, os semblantes estão turvos, sorriam! Quanto a mim, tô saindo correndo, pois em vendo bambus, nestes tempos, só vejo tíbias.
E esculahmbem-se de novo por favor! Ando minguada e lívida de tanto amor!
Amor também doe, negada. Oi dói?
Hilda Hilst
in Cascos & Carícias
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Ao teu encontro, Homem do meu tempo,
E à espera de que tu prevaleças
À rosácea de fogo, ao ódio, às guerras.
Te cantarei infinitamente
À espera de que um dia te conheças
E convides o poeta e a todos esses
Amantes da palavra, e os outros,
Alquimistas, a se sentarem contigo
À tua mesa. As coisas serão simples
E redondas, justas. Te cantarei
Minha própria rudeza
E o difícil de antes,
Aparências, o amor
Dilacerado dos homens
Meu próprio amor que é o teu
O mistério dos rios, da terra
Da semente. Te cantarei Aquele
Que me fe poeta e que me prometeu
Compaixão e ternura e paz na Terra
Se ainda encontrasse em ti o que te deu.
Hilda Hilst
"Poemas aos homens de nosso tempo", parte IX
Sistema, forma e pepino
seo Macho Silva, hôhô hôhô, enquanto fornicas bundeiramente as tuas mulheres cantando, chutando a bola, que pepinão, seo Silva, na tua rodela, tuas pobres junturas se rompendo, entregando teu ferro, teu sangue, tua cabeça, amoitado, às palpadelas, meio cego, cedendo, cedendo sempre, ah, Grande Saqueado, grande pobre macho saqueado, de bruços, de joelhos, há quanto tempo cedendo e disfarçando, vítima verde e amarela, amado macho inteiro de bruços flexionado, de quatro, multiplicado de vazios, de ais, de multi-irracionais, boca de miséria, me exteriorizo grudado à minha História, ela me engolindo, eu engolido por todas as quimeras.
Hilda Hilst
"Axelrod (da proporção)" in Tu não te moves de ti
Povo. Polvo
de cima da alta poltrona estofada
de cima da rampa
olhar de cima
LÍDERES, o povo
Não é paisagem
Nem mansa geografia
Para a voragem
Do vosso olho.
POVO. POLVO
UM DIA.
O povo não é o rio
De mínimas águas
Sempre iguais.
Mais fundo, mais além
E por onde navegais
Uma nova canção
De um novo mundo.
E sem sorrir
Vos digo:
O povo não é
Esse pretenso ovo
Que fingis alisar,
Essa superfície
Que jamais castiga
Vossos dedos furtivos.
POVO. POLVO.
LÚCIDA VIGÍLIA.
UM DIA.
Hilda Hilst
Poemas aos homens de nosso tempo, parte V
11 janeiro, 2006
Os Ombros que Suportam o Mundo
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.
Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas dos teus amigos.
Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue,
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo,
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.
(Carlos Drummond de Andrade)
08 janeiro, 2006
04 janeiro, 2006
Deus era um Palhaço
Um dia resolveu parar de andar. Estava cansado, com os pulmões doloridos pela pneumonia e os ossos quase quebrando de tão fracos. Sentou-se na grama da primeira praça que encontrou. Não sairia tão cedo dali. Cansou do cinza, agora queria o verde, o azul. Passou a fixar um olhar atônito para o céu, desde a hora em que o sol nascia até a hora em que se punha. Nem sempre o céu estava azul, muitas vezes estava tão cinza quanto as ruas por onde vagou. Passou a se sentir apenas uma cabeça, de tanta fraqueza que sentia o corpo. Sentia seu crânio como um balão que voa por aí, levado pelo vento.
Pensou na morte por alguns instantes. Não se incomodava com ela. Para ele, a morte era o fim da vida, e o que vivia, era ausência de vida. Então a vida é que era incômoda. Pensou nos amores que teve. Amou e muito. Amou tanto o mundo e a existência da humanidade que não conseguiu se fixar a um objetivo único. Tudo para ele foi válido, até a dor e o sofrimento. Trocou uma vida cômoda porém insatisfeita pelas ruas da cidade. Não aceitava ser um nome só ou um número no documento. Apenas quis ver tudo e não ser nada.
Ser o eu em terceira pessoa.
Atordoado, toda vez que olhava para o céu, limpo ou nublado, via uma bola vermelha. Mas não era qualquer bola vermelha, era aquela que só ele poderia ver. Seria um sinal de Deus? Toda vez que via a tal bola vermelha tinha uma vontade imensa de sorrir, com os poucos dentes que lhe restavam na boca. E sorria... sorria como uma criança. Sorria pois aquela bola vermelha lhe trazia tantas lembranças boas da infância, as mais puras que existiram. A bola vermelha lembrava um abraço quente de fraternidade. Lembrava o catar conchinhas na beira do mar. Cantigas de roda. Beijo molhado. Cheiro da terra depois da chuva. As capuchinhas do quintal de casa. Canto de sabiá.
Sentiu-se ridículo. Era ridículo. Tudo foi e sempre é ridículo. Sorriu por não ser nada mas ser ridículo e... pronto! Por um segundo ser ridículo fez todo o sentido para aquela existência que ele tanto anulava. Não sentia mais o corpo, mas enquanto os pensamentos ainda lhe viessem à cabeça, sentia-se vivo. Há muito não se sentia tão feliz.
A bola vermelha despertou a felicidade contida. Aquela felicidade como que guardada no fundo de um baú ou num álbum de fotografias.
E sorria o tempo todo, olhando para o céu.
"Deus é um palhaço", pensou.
E cerrou os olhos, para todo o sempre.
29 dezembro, 2005
28 dezembro, 2005
Em Memória de Vladimir Tuccilio
hoje faz cinco anos que você partiu.
Mas parece que foi ontem.
Foi ontem que tomamos cerveja
e tocamos violão
e cantamos com os amigos
até tantas da madruga
ou da manhã.
Foi ontem que nos divertimos
na mesa do trabalho,
entre papéis e gravações
em rolo ou MD.
Foi ontem que cantamos juntos
naquele karaokê que você gostava,
e simplesmente não perdoava
os que recusavam o seu convite.
Foi ontem que você nos convidou
a compartilhar as suas alegrias.
Foi ontem que você nos fez entender
que a vida é curta
e é única
e por isso temos que aproveitá-la.
Foi ontem que te vi sorrir
daquela maneira
que só você podia sorrir
o sorriso ímpar
de Vladimir.
"Saudade é um pouco como fome. Só passa quando se come a presença. Mas às vezes a saudade é tão profunda que a presença é pouco: Quer-se absorver a outra pessoa toda. Essa vontade de um ser o outro para uma unificação inteira é um dos sentimentos mais urgentes que se tem na vida." (Clarice Lispector)
27 dezembro, 2005
Receita de Ano Novo

cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)
Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumidas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.
Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.
(Drummond)
24 dezembro, 2005
2006
Suprassumos da Quintessência
Viver é comprido.
Oculto ou ambíguo,
Tudo o que digo
tem ultrasentido.
Se rio de mim,
me levem a sério.
Ironia estéril?
Vai nesse ínterim,
meu intramistério
Paulo Leminski
17 novembro, 2005
Olhe pra mim
Se te pareço noturna e imperfeita
Olha-me de novo. Porque esta noite
Olhei-me a mim, como se tu me olhasses.
E era como se a água
Desejasse
Escapar de sua casa que é o rio
E deslizando apenas, nem tocar a margem.
Te olhei. E há tanto tempo
Entendo que sou terra. Há tanto tempo
Espero
Que o teu corpo de água mais fraterno
Se estenda sobre o meu. Pastor e nauta
Olha-me de novo. Com menos altivez.
E mais atento.
Dez chamamentos ao amigo - Hilda Hilst
09 novembro, 2005
Parolagem da vida
Como a vida muda.
Como a vida é muda.
Como a vida é nula.
Como a vida é nada.
Como a vida é tudo.
Tudo que se perde
mesmo sem ter ganho.
Como a vida é senha
de outra vida nova
que envelhece antes
de romper o novo.
Como a vida é outra
sempre outra, outra
não a que é vivida.
Como a vida é vida
ainda quando morte
esculpida em vida.
Como a vida é forte
em suas algemas.
Como dói a vida
quando tira a veste
de prata celeste.
Como a vida é isto
misturado àquilo.
Como a vida é bela
sendo uma pantera
de garra quebrada.
Como a vida é louca
estúpida, mouca
e no entanto chama
a torrar-se em chama.
Como a vida chora
de saber que é vida
e nunca nunca nunca
leva a sério o homem,
esse lobisomem.
Como a vida ri
a cada manhã
de seu próprio absurdo
e a cada momento
dá de novo a todos
uma prenda estranha.
Como a vida joga
de paz e de guerra
povoando a terra
de leis e fantasmas.
Como a vida toca
seu gasto realejo
fazendo da valsa
um puro Vivaldi.
Como a vida vale
mais que a própria vida
sempre renascida
em flor e formiga
em seixo rolado
peito desolado
coração amante.
E como se salva
a uma só palavra
escrita no sangue
desde o nascimento:
amor, vidamor!
23 outubro, 2005
Hino à Arte
Não porque ganharam um novo templo, são Deuses humildes, não querem ser adorados.
Nem gostam.
Mas porque sabem que assim os homens ao redor serão mais felizes.
Terão ali a oportunidade rara de assistir a própria grandeza, de ver espelhada ali a sua própria grandeza.
Ali serão vividas grandes amizades e amores.
Ali todos trabalharão juntos, criando acontecimentos que jamais ocorreriam sem o palco.
O palco sabe que não é apenas tábuas no chão.
Que é um gerador de significados.
Ali é o lugar onde a imaginação ficará livre, sendo a imaginação o único campo em que um homem é realmente livre.
Ali serão discutidos os problemas da comunidade, porque o palco sempre foi a melhor tribuna.
Ali, homens diante de homens falarão de sua alma.
Discutirão e compartilharão alegrias e tristezas como se fossem um só.
Trabalharão alegremente por um mundo melhor e mais solidário.
Inaugurar um teatro é criar uma ilha de liberdade.
De lucidez.
De solidariedade (nada une mais as pessoas do que o teatro).
Não é somente um local de diversão.
É isso também.
Mas, principalmente, é um lugar de reflexão, de descoberta, da revolução e do encontro com o outro.
Domingos de Oliveira
20 outubro, 2005
Diálogo
MUNDO - não queira ser Atlas.
EU - mas não quero ser Atlas. Quero ser eu.
MUNDO - mas você ainda nem sabe quem é de verdade.
EU - talvez essa seja a única coisa que eu sei - e de verdade.
MUNDO - não sabe nada. Você não sabe de nada. Aliás, NINGUÉM sabe de nada.
EU - mas NINGUÉM? quem é este?
MUNDO - é alguém que você, EU, já ouviu falar.
EU - ALGUÉM? o que significa ser ALGUÉM?
MUNDO - a mesma coisa que significa ser EU, NINGUÉM e todo mundo. Aliás, desculpe, MUNDO não, este sou eu, alguma coisa. TODO SER HUMANO.
EU - não consigo te entender.
MUNDO - mas isso é óbvio. Assim como você, EU, NINGUÉM e ALGUÉM nunca vão entender nada, mas sim tentar entender. Assim nascem e assim morrem e só eu, MUNDO, consigo lhe pregar as peças certas.
EU- tá falando de que?
MUNDO - de tudo, ué. Ou você acha que é simples me ferir, jogar tudo a mim sem que eu dê retorno em relação a isto.
EU - peraí... esse discurso eu ouvi do PLANETA. Você, MUNDO, é só uma parte dele.
MUNDO - não, nós somos a mesma coisa. Sem eu, MUNDO, você, EU, não existiria, concorda?
EU - é... nem tenho como não concordar. Talvez seja uma questão de conceituação.
MUNDO - e pra que querer conceituar?
EU - pra ter uma referência, talvez. Isso eu nunca questionei.
MUNDO - então comece a questionar. Vai fazer bem. Disse que sabia quem era de verdade mas não sabe mesmo. O que sabe é conceito e classificação. O que é de verdade não tem conceito ou classificação, só é e pronto.
EU - você quer me confundir.
MUNDO - mas você já é confusa. Aliás, todos são confusos. Até o NINGUÉM, a anulação do ALGUÉM, é confusa. Vocês que criam suas próprias confusões, e depois não sabem se livrar delas.
EU - confusões e conflitos, talvez. Ou tudo junto... mas... que papo de louco é esse?
MUNDO - foi você quem começou. Não classifique esta conversa. Você jogou seus desejos a mim. Você quis me carregar nas costas e se deu mal.
EU - Por isso me chamou de Atlas. Mas Atlas não te carregou nas costas, mas sim o céu.
MUNDO - e onde está o céu senão em mim?
EU - nossa... estou me sentindo uma ignorante perto de você.
MUNDO - esqueça dos adjetivos. Você faz parte de mim, não está perto de mim. Se você não cuidar de mim consequentemente não cuidará de você.
EU - e quando eu me for você continuará por aqui.
MUNDO- quem sabe? De qualquer forma, você continuará fazendo parte de mim, mesmo quando se for.
Depois disso, EU, eu, resolvi ficar calada. Nunca mais farei perguntas ao MUNDO porque ele nunca me dará uma resposta concreta.
Apenas senti um certo alívio em minhas costas.

Que a paz e a arte estejam na vida de todos