Se todo mundo pensasse seriamente no absurdo que é tudo isso de ser feito de carne, mas também olhar as estrelas, de ter um rosto, mas também ter aquele buraco fétido, se todo mundo tivesse o hábito de pensar, haveria mais piedade, mais solidariedade, mais compaixão e amor. Hilda Hilst
04 janeiro, 2006
Deus era um Palhaço
Um dia resolveu parar de andar. Estava cansado, com os pulmões doloridos pela pneumonia e os ossos quase quebrando de tão fracos. Sentou-se na grama da primeira praça que encontrou. Não sairia tão cedo dali. Cansou do cinza, agora queria o verde, o azul. Passou a fixar um olhar atônito para o céu, desde a hora em que o sol nascia até a hora em que se punha. Nem sempre o céu estava azul, muitas vezes estava tão cinza quanto as ruas por onde vagou. Passou a se sentir apenas uma cabeça, de tanta fraqueza que sentia o corpo. Sentia seu crânio como um balão que voa por aí, levado pelo vento.
Pensou na morte por alguns instantes. Não se incomodava com ela. Para ele, a morte era o fim da vida, e o que vivia, era ausência de vida. Então a vida é que era incômoda. Pensou nos amores que teve. Amou e muito. Amou tanto o mundo e a existência da humanidade que não conseguiu se fixar a um objetivo único. Tudo para ele foi válido, até a dor e o sofrimento. Trocou uma vida cômoda porém insatisfeita pelas ruas da cidade. Não aceitava ser um nome só ou um número no documento. Apenas quis ver tudo e não ser nada.
Ser o eu em terceira pessoa.
Atordoado, toda vez que olhava para o céu, limpo ou nublado, via uma bola vermelha. Mas não era qualquer bola vermelha, era aquela que só ele poderia ver. Seria um sinal de Deus? Toda vez que via a tal bola vermelha tinha uma vontade imensa de sorrir, com os poucos dentes que lhe restavam na boca. E sorria... sorria como uma criança. Sorria pois aquela bola vermelha lhe trazia tantas lembranças boas da infância, as mais puras que existiram. A bola vermelha lembrava um abraço quente de fraternidade. Lembrava o catar conchinhas na beira do mar. Cantigas de roda. Beijo molhado. Cheiro da terra depois da chuva. As capuchinhas do quintal de casa. Canto de sabiá.
Sentiu-se ridículo. Era ridículo. Tudo foi e sempre é ridículo. Sorriu por não ser nada mas ser ridículo e... pronto! Por um segundo ser ridículo fez todo o sentido para aquela existência que ele tanto anulava. Não sentia mais o corpo, mas enquanto os pensamentos ainda lhe viessem à cabeça, sentia-se vivo. Há muito não se sentia tão feliz.
A bola vermelha despertou a felicidade contida. Aquela felicidade como que guardada no fundo de um baú ou num álbum de fotografias.
E sorria o tempo todo, olhando para o céu.
"Deus é um palhaço", pensou.
E cerrou os olhos, para todo o sempre.
29 dezembro, 2005
28 dezembro, 2005
Em Memória de Vladimir Tuccilio
hoje faz cinco anos que você partiu.
Mas parece que foi ontem.
Foi ontem que tomamos cerveja
e tocamos violão
e cantamos com os amigos
até tantas da madruga
ou da manhã.
Foi ontem que nos divertimos
na mesa do trabalho,
entre papéis e gravações
em rolo ou MD.
Foi ontem que cantamos juntos
naquele karaokê que você gostava,
e simplesmente não perdoava
os que recusavam o seu convite.
Foi ontem que você nos convidou
a compartilhar as suas alegrias.
Foi ontem que você nos fez entender
que a vida é curta
e é única
e por isso temos que aproveitá-la.
Foi ontem que te vi sorrir
daquela maneira
que só você podia sorrir
o sorriso ímpar
de Vladimir.
"Saudade é um pouco como fome. Só passa quando se come a presença. Mas às vezes a saudade é tão profunda que a presença é pouco: Quer-se absorver a outra pessoa toda. Essa vontade de um ser o outro para uma unificação inteira é um dos sentimentos mais urgentes que se tem na vida." (Clarice Lispector)
27 dezembro, 2005
Receita de Ano Novo

cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)
Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumidas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.
Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.
(Drummond)
24 dezembro, 2005
2006
Suprassumos da Quintessência
Viver é comprido.
Oculto ou ambíguo,
Tudo o que digo
tem ultrasentido.
Se rio de mim,
me levem a sério.
Ironia estéril?
Vai nesse ínterim,
meu intramistério
Paulo Leminski
17 novembro, 2005
Olhe pra mim
Se te pareço noturna e imperfeita
Olha-me de novo. Porque esta noite
Olhei-me a mim, como se tu me olhasses.
E era como se a água
Desejasse
Escapar de sua casa que é o rio
E deslizando apenas, nem tocar a margem.
Te olhei. E há tanto tempo
Entendo que sou terra. Há tanto tempo
Espero
Que o teu corpo de água mais fraterno
Se estenda sobre o meu. Pastor e nauta
Olha-me de novo. Com menos altivez.
E mais atento.
Dez chamamentos ao amigo - Hilda Hilst
09 novembro, 2005
Parolagem da vida
Como a vida muda.
Como a vida é muda.
Como a vida é nula.
Como a vida é nada.
Como a vida é tudo.
Tudo que se perde
mesmo sem ter ganho.
Como a vida é senha
de outra vida nova
que envelhece antes
de romper o novo.
Como a vida é outra
sempre outra, outra
não a que é vivida.
Como a vida é vida
ainda quando morte
esculpida em vida.
Como a vida é forte
em suas algemas.
Como dói a vida
quando tira a veste
de prata celeste.
Como a vida é isto
misturado àquilo.
Como a vida é bela
sendo uma pantera
de garra quebrada.
Como a vida é louca
estúpida, mouca
e no entanto chama
a torrar-se em chama.
Como a vida chora
de saber que é vida
e nunca nunca nunca
leva a sério o homem,
esse lobisomem.
Como a vida ri
a cada manhã
de seu próprio absurdo
e a cada momento
dá de novo a todos
uma prenda estranha.
Como a vida joga
de paz e de guerra
povoando a terra
de leis e fantasmas.
Como a vida toca
seu gasto realejo
fazendo da valsa
um puro Vivaldi.
Como a vida vale
mais que a própria vida
sempre renascida
em flor e formiga
em seixo rolado
peito desolado
coração amante.
E como se salva
a uma só palavra
escrita no sangue
desde o nascimento:
amor, vidamor!
23 outubro, 2005
Hino à Arte
Não porque ganharam um novo templo, são Deuses humildes, não querem ser adorados.
Nem gostam.
Mas porque sabem que assim os homens ao redor serão mais felizes.
Terão ali a oportunidade rara de assistir a própria grandeza, de ver espelhada ali a sua própria grandeza.
Ali serão vividas grandes amizades e amores.
Ali todos trabalharão juntos, criando acontecimentos que jamais ocorreriam sem o palco.
O palco sabe que não é apenas tábuas no chão.
Que é um gerador de significados.
Ali é o lugar onde a imaginação ficará livre, sendo a imaginação o único campo em que um homem é realmente livre.
Ali serão discutidos os problemas da comunidade, porque o palco sempre foi a melhor tribuna.
Ali, homens diante de homens falarão de sua alma.
Discutirão e compartilharão alegrias e tristezas como se fossem um só.
Trabalharão alegremente por um mundo melhor e mais solidário.
Inaugurar um teatro é criar uma ilha de liberdade.
De lucidez.
De solidariedade (nada une mais as pessoas do que o teatro).
Não é somente um local de diversão.
É isso também.
Mas, principalmente, é um lugar de reflexão, de descoberta, da revolução e do encontro com o outro.
Domingos de Oliveira
20 outubro, 2005
Diálogo
MUNDO - não queira ser Atlas.
EU - mas não quero ser Atlas. Quero ser eu.
MUNDO - mas você ainda nem sabe quem é de verdade.
EU - talvez essa seja a única coisa que eu sei - e de verdade.
MUNDO - não sabe nada. Você não sabe de nada. Aliás, NINGUÉM sabe de nada.
EU - mas NINGUÉM? quem é este?
MUNDO - é alguém que você, EU, já ouviu falar.
EU - ALGUÉM? o que significa ser ALGUÉM?
MUNDO - a mesma coisa que significa ser EU, NINGUÉM e todo mundo. Aliás, desculpe, MUNDO não, este sou eu, alguma coisa. TODO SER HUMANO.
EU - não consigo te entender.
MUNDO - mas isso é óbvio. Assim como você, EU, NINGUÉM e ALGUÉM nunca vão entender nada, mas sim tentar entender. Assim nascem e assim morrem e só eu, MUNDO, consigo lhe pregar as peças certas.
EU- tá falando de que?
MUNDO - de tudo, ué. Ou você acha que é simples me ferir, jogar tudo a mim sem que eu dê retorno em relação a isto.
EU - peraí... esse discurso eu ouvi do PLANETA. Você, MUNDO, é só uma parte dele.
MUNDO - não, nós somos a mesma coisa. Sem eu, MUNDO, você, EU, não existiria, concorda?
EU - é... nem tenho como não concordar. Talvez seja uma questão de conceituação.
MUNDO - e pra que querer conceituar?
EU - pra ter uma referência, talvez. Isso eu nunca questionei.
MUNDO - então comece a questionar. Vai fazer bem. Disse que sabia quem era de verdade mas não sabe mesmo. O que sabe é conceito e classificação. O que é de verdade não tem conceito ou classificação, só é e pronto.
EU - você quer me confundir.
MUNDO - mas você já é confusa. Aliás, todos são confusos. Até o NINGUÉM, a anulação do ALGUÉM, é confusa. Vocês que criam suas próprias confusões, e depois não sabem se livrar delas.
EU - confusões e conflitos, talvez. Ou tudo junto... mas... que papo de louco é esse?
MUNDO - foi você quem começou. Não classifique esta conversa. Você jogou seus desejos a mim. Você quis me carregar nas costas e se deu mal.
EU - Por isso me chamou de Atlas. Mas Atlas não te carregou nas costas, mas sim o céu.
MUNDO - e onde está o céu senão em mim?
EU - nossa... estou me sentindo uma ignorante perto de você.
MUNDO - esqueça dos adjetivos. Você faz parte de mim, não está perto de mim. Se você não cuidar de mim consequentemente não cuidará de você.
EU - e quando eu me for você continuará por aqui.
MUNDO- quem sabe? De qualquer forma, você continuará fazendo parte de mim, mesmo quando se for.
Depois disso, EU, eu, resolvi ficar calada. Nunca mais farei perguntas ao MUNDO porque ele nunca me dará uma resposta concreta.
Apenas senti um certo alívio em minhas costas.
30 agosto, 2005
Braços Cruzados
Transe de violência
Vaidade demente
Guerras à nossa espreita
Restos à nossa frente
Que ferramenta
Eu uso pra viver?
Como é que eu faço
Pra ajudar você?
Desligo a TV
Pra que as crianças
Não achem normal
Todo dia matar , morrer
Mas sobre o futuro, o que eu vou dizer?
Alguém aqui acredita
Que não tem nada com isso?
Será que nada tem vínculo
Tudo é por acaso?
Mas quem é que joga os dados
Deus ou seus diabos?
Quem decide qual o lado abençoado?
Deus ou seus diabos?
Será que nenhum de vocês
Sabe falar português?
Então, em nome da nossa dor
Eu exijo um tradutor
Alguém de carne e osso
Alguém em quem se possa confiar um pouco
Eu quero menos abandono, mais cuidado
Cristo Redentor
Eu vi seus braços crusades, tudo é ilusão
Ando pelas ruas tem de tudo, menos solução
Fecho os vidros, fecho a casa
Mas a alma não tem trinco, tá escancarada
Fecho a minha roupa, fecho a minha cara
Mas a alma não tem trinco
Nem defesa, nem nada.
17 agosto, 2005
Joguem este lixo no meu cesto, por favor!!
Outro dia estava eu, sossegada na sala, lendo novamente a coletânea da maravilhosa, magnânima e sublime Hilda Hilst, quando minha mãe e meu padrasto se despediram de mim, abriram a porta e seguiram seu caminho. Dali cinco minutos ouço o barulho das chaves e da porta abrindo, interrompendo o meu silêncio e minha concentração. "Ué, voltaram?", eu disse sem entender. "Sim, pois encontramos isso aqui no lixo e ficamos com dó desse material ser jogado fora", disse minha mãe, e eu, ansiosa que sou, sem nem ver o que era, soltei um "vocês trazendo lixo de novo pra casa? Porra, mãe...". Esclarecendo o "trazendo lixo de novo pra casa": meu padrasto é um ser apaixonado por história e antiguidades. Sua casa parece uma mistura de sebo com brechó (de alto padrão, leia-se), cheio de quadros, livros, abajours, miniaturas, tranqueiras velhas e históricas (até as roupas de suas falecidas tias ele guarda, uma espécie de "memória da moda" se assim posso dizer), e vira e mexe ele traz alguma lembrancinha "histórica" jogada nos lixos vizinhos, como estantes, cúpulas de abajures e afins. E ele sempre dá um jeitinho de reformar a tranqueira e aproveitá-la em casa, e quando o espaço acaba, ele manda pra minha. Nada contra, mas minha casa já está pequena demais... mas não para isso.
O "lixo" que eles trouxeram pra casa eram nada mais do que discos. Não CDs, discos mesmo, Long Player´s, vinis. E dos bons. Burt Bacharach, Gal Costa, Chico Buarque, discos bons mesmo, bossa, jazz, etc. Discos bons, com excessão de um Julio Iglesias perdido ali no meio. Uma pilha de discos, uns trinta eu acho. Jogados ali, como produtos descartáveis. Tive que concordar com eles.
Talvez você pense que eu exagero, mas uma pessoa apaixonada por arte, por música tem de achar realmente absurdo esse tipo de coisa. Livros, discos e roupas nunca deveriam ser jogados fora, mas sim repassados pra alguém (a não ser que o estado esteja realmente precário ao ponto de NINGUEM conseguir utilizar). Aqueles discos estavam lindos! Limpos, sem riscos, sem lascas. Aquele Julio Iglesias vai pro sebo (e tem pague por ele!) mas o resto fica aqui!
Se alguém cansar de seus discos, seus livros, não os jogue na lata do lixo, mas se for preciso, JOGUE ESTE LIXO NO MEU CESTO, por favor!!!
22 julho, 2005
Nós Fazemos Teatro
Acho um grande absurdo os 16 milhões investidos no espetáculo O Fantasma da Ópera. Nada contra as grandes produções, a minha indignação se dá pelo simples fato de que esse dinheiro - os 16 milhões - é público. Sim, 16 milhões do nosso rico dinheirinho pago através de impostos investidos num espetáculo voltado para as elites, onde se paga 100 reais por um ingresso, para uma pura reprodução da Broadway, num tema pra lá de manjado como O Fantasma da Ópera, onde não estimula em nada a reflexão, não difunde nada da nossa cultura, e ainda por cima, desvaloriza o artista brasileiro. É mero entretenimento, não é teatro. E assim, vemos os nossos bons grupos de teatro se matando por um lugar ao sol, e nunca sobra grana pra eles. Por que? Vai tomar no cu, Gilberto Gil, por aprovar uma coisa dessas.
Segundo:
Acho um verdadeiro saco toda vez em que um jornalista aparece pra assitir o espetáculo, e o diretor vem com a pérola: "olha, o fulano de tal jornal vem aí, ele é crítico, portanto, caprichem hoje"... opa, opa, peraí... não é porque é fulano ou sicrano que vc tem que caprichar. O capricho tem que ser em todas as ocasiões, para todo e qualquer tipo de público que venha assistir o espetáculo. Temos que fazer bem porque queremos fazer bem, e não porque tem algum "crítico" de jornal, porque todas as pessoas, independente do cargo que ocupam, merecem assistir um bom espetáculo. Lembrando que essa "crítica" de jornal também é muito relativa, também divulgam muita porcaria por aí com as tais cinco estrelas. Aí depois não reclame se der merda, pois trablahar com paranóia não dá. Não joguemos a espontaneidade no lixo, por favor.
E pra fazer um paralelo sobre as minhas reclamações, exponho aqui um texto ótimo para a ocasião.
NÓS FAZEMOS TEATRO
Contra a ignorância, o terror, a falta de educação, a propaganda de promessas, o conforto moral, a ordem acima do progresso, a fome, a falta de dentes, a falta de amores, o obscurantismo... nós fazemos teatro.
Fazemos teatro para dar sentido às potencialidades, pra ocupar o tempo, pra desatolar o coração, pra provocar instintos, pra fertilizar razões, por uns trocados, por uma boa bisca, porque é fundamental e é inútil.
Pra subir na vida, pra cair de quatro, pra se enganar e se conhecer... contra a experiência insatisfatória; contra a natureza, se for o caso, nós fazemos teatro.
Fazemos teatro pra não nos tornarmos ainda pior do que somos.
Pra julgar publicamente os grandes massacres do espírito.
Pra viabilizar a esperança humana, esta serpente...
Nós fazemos teatro de manhã, de tarde e de noite. Nós somos uma conveniência de emoções, 24 horas distribuindo máscaras e raízes.
Nós fazemos teatro de tudo, o tempo todo, porque acreditamos que a vida pode ser tão expressiva quanto a obra e que devemos ter a chance de concebê-la e fornecê-la artisticamente.
Porque estamos acordados. Porque sonhamos os nossos pesadelos.
Nós fazemos teatro apesar daqueles que, por um motivo que só pode ser estúpido, estejam "contra" o teatro. Aliás, o que pode ser "contra" algo tão "a favor"?
Nós fazemos teatro contra a mediocrização do pensamento; a desigualdade entre os iguais e a igualdade dos diferentes.
Nós fazemos teatro contra os privilégios dos assassinos de gravata, batina, jaqueta, toga, minissaia, vestido longo, farda, camiseta regata ou avental.
Contra a uniformidade, nós fazemos teatro.
Nós fazemos teatro contra o mau teatro que querem fazer da realidade.
Nós fazemos teatro para explicarmo-nos - ainda que mal - e ao mal de todos nós dar algum destino menos infeliz.
Nós fazemos teatro pra morrer de rir e pra morrer melhor.
Pra entender o inestimável, se esfregar no infalível, resvalar na nobreza, experimentar as mais sórdidas baixezas, pra brincar de Deus...
Nós fazemos teatro, comendo o pão que os diabos amassam, os pratos feitos que as produções financiam e os jantares que as permutas permitem.
Nós temos fome da fome do teatro.
Porque onde houve e há teatro, houve e há civilização.
Fazemos teatro sim, tem gente que não faz e está morrendo, essa é que é a verdade.
Fernando Bonassi
Em tempo
Na verdade, eu estava de saco cheio de tudo isso, não do blog, mas de toda bandalheira que paira sobre a nossa sociedade.
Isso, em todos os níveis.
Na política.
Na cultura.
No país.
Na minha cidade.
Na (precária) condição e atenção para com o artista.
É muita revolta prum ser humano só. Todo dia meu cérebro fervilha mas isso acontece sempre em lugares onde eu praticamente não consigo escrever, apenas pensar. Caminhando na rua, dentro do ônibus, nas esquinas, sempre por aí. E basta sentar a busanfa na cadeira e não sair absolutamente nada daquilo que me dá vontade de vomitar. Por mais que eu queira, não sai. Parece quando você olha aquele doce apetitoso na geladeira, mas você só sente vontade de enfiar o dedo nele, e não de comê-lo realmente.
Acho que eu vou começar a anotar minhas idéias em algum bloco de papel que eu possa carregar no bolso ou na bolsa, pra não deixar as idéias só no sopro.
E eu já ouvi coisas do tipo "você escreve demais" ou "não atualize seu blog todos os dias" ou "guarde suas idéias para depois"... opa, perái mermão, vc tá querendo o que? ditar as regras do MEU blog? Não me lembro de ter lido nenhum manual de como cuidar do seu próprio blog.
Se não fosse pra escrever bastante, que limitassem mais o número de caracteres.
Se não fosse pra atualizar o blog todos os dias, então que criassem um sistema que bloqueia a atualização diária.
E se tudo isso existisse, talvez eu nem visse muita graça em criar um.
E ninguém é obrigado a ler o que eu escrevo e muito menos de gostar do que eu coloco aqui.
Existe a liberdade de expressão.
Existe o livre arbítrio.
24 maio, 2005
Hóspede do Tempo parte 2
Essa grande compositora brasileira...
hoje, nas minhas buscas desenfreadas pelo desconhecido, e pelo conhecido, caiu em minhas mãos a sua música "Hóspede do Tempo". Adoro suas composições, mas ao descobrir esta homenagem à grande Hilda Hilst, passei a adorar mais ainda.
Faço questão de colocá-la em meu blog, afinal, foram as justas palavras da sra Hilda Hilst que me inspiraram a criar essa página - a maneira que encontrei de manifestar em palavras alguns sentimentos e de poder compartilhar com os leitores boas coisas.
Hóspede do Tempo
Zélia Duncan
Composição: Fred Martins / Zélia Duncan
Sou hóspede do tempo
Da minha casa
Das minhas palavras
Das coisas que declaro minhas
Inquilina da vida que me foi dada
Portanto, nada
Ficou na minha bagagem
Do velho brinquedo
Que já não ilude, não me ilude
O que eu tenho é minha atitude
O que eu levo é minha atitude
O que pesa é minha atitude
Minha porção maior
(Para Hilda Hilst)
21 maio, 2005
Clarice estava certa
Eu sei.
Eu não sei.
"Não entendo. Isso é tão vasto que ultrapassa qualquer entender. Entender é sempre limitado. Mas não entender pode não ter fronteiras. Sinto que sou muito mais completa quando não entendo. Não entender, do modo como falo, é um dom. Não entender, mas não como um simples de espírito. O bom é ser inteligente e não entender. É uma benção estranha, como ter loucura sem ser doida. É um desinteresse manso, é uma doçura de burrice. Só que de vez em quando vem a inquietação: quero entender um pouco. Não demais: mas pelo menos entender que não entendo."
(Clarice Lispector)
20 maio, 2005
Homens de Nosso Tempo
Mas não me mata.
Eu apenas nasço, e renovo a alma.
Porque eu mudo de faixa. Eu mudo o lado.
Eu mudo de itinerário.
É porque eu mudo, e muda, não me deixo morrer.
Não me permito cair além do que o chão me barra.
Eu caio de cara mas minhas mãos, ainda vivas, me dão suporte para me levantar.
E eu me levanto.
Os olhos procurando o céu.
Eu grito com o meu silêncio.
Por mais que o mundo caia sobre minha cabeça,
aquelas estrelas ainda brilham lá em cima.
Eu tenho que olhar para elas.
Eu me permito olhar para elas.
E me permitindo, assim,
eu entendo que ainda existem saídas.
Mas estas saídas são e serão por outras portas.
Esta porta aqui já se fechou.
E eu ainda tenho dezenas, talvez centenas,
de outras portas para abrir.
Basta saber onde achar as chaves.
Eu estou indo embora daqui.
Em corpo físico.
Meu espírito já se mandou há um bom tempo.
Eu tive orgulho de estar aqui.
E é essa boa lembrança desse bom orgulho,
que vai prevalecer na minha mente.
Agora, eu tenho outras portas para abrir.
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Poemas aos Homens do nosso Tempo
de Hilda Hilst
Amada vida, minha morte demora.
Dizer que coisa ao homem,
Propor que viagem? Reis, ministros
E todos vós, políticos,
Que palavra além de ouro e treva
Fica em vossos ouvidos?
Além de vossa RAPACIDADE
O que sabeis
Da alma dos homens?
Ouro, conquista, lucro, logro
E os nossos ossos
E o sangue das gentes
E a vida dos homens
Entre os vossos dentes.
01 maio, 2005
Delicadeza de um Boquete
No Manual Drummond está escrito, como ser delicado na hora de agradecer uma donzela, ou donzelo, de ter lhe aplicado um adorável bola-gato. É até uma maneira sutil de pedir desculpas por não ter ligado no dia seguinte... e nem no outro... nem no outro... nem...
Sem que eu pedisse, fizeste-me a graça
Sem que eu pedisse, fizeste-me a graça
de magnificar meu membro.
Sem que eu esperasse, ficastes de joelhos
em posição devota.
O que passou não é passado morto.
Para sempre e um dia
o pênis recolhe a piedade osculante de tua boca.
Hoje não estás sem sei onde estarás,
na total impossibilidade de gesto ou comunicação.
Não te vejo não te escuto não te aperto
mas tua boca está presente, adorando.
Adorando.
Nunca pensei ter entre as coxas um deus.

Que a paz e a arte estejam na vida de todos


